O meu filho de 17 anos não é um grande entusiasta do TikTok. Houve um tempo em que via vídeos de basquetebol e acompanhava alguns músicos de que gosta, mas, há algumas semanas, apagou a aplicação. Afirmou que simplesmente já não a usava, quase como se a tivesse ignorado por completo.
Fiquei a pensar no motivo após ele me ter mencionado algo no final de janeiro, quando o TikTok alterou a sua estrutura de propriedade para os utilizadores norte-americanos. Garantiu-me que havia boas notícias na rede social, com a diminuição de pornografia, mas lamentou as más notícias: a abundância de conteúdos "red pill".
Para quem não está familiarizado com o termo, a pílula vermelha trata-se de uma referência aos filmes da saga "Matrix", aludindo ao despertar dos homens para a dura realidade de que são oprimidos por uma sociedade feminista. Em suma, são conteúdos extremistas que posicionam os homens como vítimas de uma sociedade que favorece as mulheres.
Tenho a sorte de o meu filho nunca ter sido pessoa para perder tempo agarrado ao ecrã. Sempre preferiu jogar basquetebol ou estar com os amigos, e já tinha apagado a aplicação pelo menos uma outra vez por achar o conteúdo repetitivo e irritante. Se for um rapaz adolescente, boa sorte para tentar moldar o seu algoritmo. É um conselho frequente, mas ele percebeu que é algo completamente irrealista no mundo destes jovens, em que o algoritmo dita as regras e apenas se consome o que aparece.
Hoje em dia, é difícil escapar à "manosfera" que promove estes ideais, até porque não existe apenas no TikTok. Rapazes e homens podem esbarrar nestes conteúdos no YouTube, noutras redes sociais, em videojogos e até no mundo real, quando os colegas trazem estes temas para a sala de aula ou para o grupo de amigos. É também algo que surge de forma sorrateira. Duvido que muitos adolescentes abram a sua aplicação favorita e pesquisem "como ser misógino". Nas conversas que tenho com eles, dizem-me habitualmente que se deparam com este tipo de ideologia depois de procurarem vídeos sobre fitness, cuidados de pele ou cabelo.
Mergulhei a fundo na "manosfera" para o meu novo livro, porque não conseguia encontrar soluções práticas para pais e educadores lidarem com esta crise entre os rapazes. Precisamos de muito mais do que manchetes assustadoras e estatísticas alarmantes.
Os vídeos que explorei tornam-se mais intensos com o tempo, incluindo temas racistas e misóginos, mas isso pode demorar um pouco a acontecer. No início, a fronteira entre a autoajuda e o pensamento radical é, no mínimo, ténue.
A Netflix chamou recentemente a atenção para este problema crescente num documentário focado em alguns dos maiores influenciadores deste espaço. Esta visibilidade ajuda a consciencializar os pais para as ameaças que os filhos enfrentam na internet, mas eu queria perceber melhor o verdadeiro impacto na vida deles.
Descobri que 73% dos adolescentes encontram regularmente temáticas relacionadas com a masculinidade e quase um em cada quatro regista níveis elevados de exposição. Os dados resultam de um inquérito realizado este ano a mais de mil adolescentes norte-americanos do sexo masculino, entre os 11 e os 17 anos. Além disso, 14% dos jovens com grande exposição digital a estes ideais apresentam baixa autoestima. Desse grupo, 39% assumem sentir-se inúteis por vezes e 34% acham que "não são bons".
Embora estes números estabeleçam uma ligação clara entre a elevada imersão na "manosfera" e uma saúde mental frágil, as atenções tendem a focar-se muito nas ações físicas a que são influenciados, como moldar o maxilar com martelos reais ou injetar péptidos na pele. São sugestões que soam horríveis, mas e qual é o real impacto psicológico?
Há cerca de seis meses, por curiosidade, fiz os possíveis para consumir esta realidade no TikTok.
Mergulhar na "manosfera" como mulher de meia-idade
Não escondi a minha identidade nem criei uma conta falsa para me lançar de cabeça neste submundo. Pesquisei simplesmente termos e marcadores que me pudessem encaminhar para influenciadores de masculinidade. Vi imensos vídeos a encorajar os jovens a comprar uma marca específica de produtos para o cabelo, a usar um pequeno martelo ou outro objeto duro para bater na linha do maxilar e conseguir um aspeto mais angular, e a explicar como usar fita adesiva nas pálpebras para desenvolver um olhar de "caçador". Alguns eram alarmantes, mas foram os efeitos ocultos e não verbalizados que não me saíram da cabeça.
O que reparei foi perturbador e deixou-me triste. Eis o que encontrei:
Baixa autoestima e insegurança transbordavam destes jovens. Quer nos vídeos que criam, quer nos comentários que publicam noutros tópicos, os rapazes — em particular os que frequentam o ensino básico — faziam perguntas sobre a sua aparência, garantindo procurar opiniões honestas. Apesar de o choro ser desencorajado e visto como um sinal de fraqueza por estes criadores de conteúdo, muitos jovens lutavam contra as lágrimas enquanto batiam no maxilar e falavam sobre o que precisavam de mudar na sua aparência e personalidade. A procura de validação, ao pedirem aos utilizadores para avaliarem as suas melhorias, ou a partilha de fotografias em caixas de comentários de terceiros demonstram a intensa insegurança que enfrentam nesta fase de desenvolvimento.
A "manosfera" tem uma estratégia que resulta em monetização para um grupo restrito. É importante compreender os mecanismos de topo deste fenómeno, porque os conteúdos e a ideologia de líderes como Andrew Tate propagam-se para as bases, mas o dinheiro flui sempre para o topo.
Basta ver alguns destes vídeos para aprender que a chave para se tornarem homens inclui uma hiperindependência, liderança forte, estabilidade financeira, assertividade e a capacidade de providenciar o que eles chamam de "contenção". Segundo esta retórica, os verdadeiros homens contêm as mulheres, garantindo o seu sustento para que não precisem de trabalhar e resolvendo todos os problemas para que estas possam relaxar em casa, livres do stress mundano. Toda esta informação é apresentada como se fosse inquestionável, havendo sempre uma solução pronta a comprar. Pacotes de cursos, códigos de desconto em suplementos, aparelhos de treino facial e acessos a aplicações de apostas desportivas abundam neste meio. Tudo é embrulhado como autoajuda, mas o alvo são os solitários e os marginalizados. E o preço a pagar é muito alto, tanto a nível financeiro como emocional.
O sentimento de pertença, a busca por um propósito e a necessidade de importância empurram-nos para aqui. Depois de ler dezenas de comentários em vídeos que iam desde o inofensivo ao francamente perigoso, reparei num fio condutor. Eles querem sentir-se compreendidos. Embora a raiva seja uma emoção comum nestes espaços, canalizá-la contra um inimigo comum, focado nas raparigas e mulheres, cria laços. Nestes ambientes carregados de negatividade, alguns sentem finalmente que pertencem a um grupo e que têm valor.
O medo da rejeição é generalizado. Aos que consomem isto regularmente é-lhes dito para serem estoicos, duros e agressivos. Mas é fácil constatar que esta mensagem fica apenas pela superfície. Frustrados quando os conselhos não funcionam, desabafam sobre rejeição utilizando uma linguagem misógina com contornos violentos. O medo transforma-se rapidamente em fúria, especialmente quando encontram apoio noutros utilizadores.
Ainda assim, muitos não se deixam enganar. Após meses a explorar este mundo cibernético, foram precisos muitos vídeos de animais recém-nascidos para que a minha página principal voltasse a mostrar algo que não me fizesse subir a tensão arterial. Neste processo de limpeza do algoritmo, apercebi-me de que há bastantes adolescentes e jovens adultos a partilhar conselhos de vida saudáveis e a criticar as figuras de proa da masculinidade tóxica. A economia da atenção favorece o escandaloso, pelo que os criadores da chamada masculinidade suave ainda não têm o mesmo alcance. Mas andam por aí, a tentar trazer algum equilíbrio às conversas sobre o tema, e isso é um passo na direção certa.
O que devem os pais fazer?
Redefinir modelos a seguir numa época em que a influência digital dita regras é difícil, mas não impossível. Lembro frequentemente aos pais que é uma série de mudanças aparentemente pequenas que faz a grande diferença. Eis algumas estratégias:
- Promova a ajuda presencial: O voluntariado em conjunto é subvalorizado. Quando as famílias praticam o bem unidas, encontram todo o tipo de ligações, modelos a seguir e amigos que não teriam conhecido de outra forma.
- Ensine o pensamento crítico: Incentive-os a questionar a validade de uma publicação. Menciona que é publicidade patrocinada? O que é que isso significa na prática? Se alega ter provas científicas, o documento está disponível para ser lido e verificado?
- Apele ao instinto: Ajude os rapazes a deixarem de seguir contas que os façam sentir-se mal consigo próprios, impotentes ou sem esperança. Eles precisam de aprender a confiar nos sinais emocionais que os alertam para a toxicidade.
Muitas destas empresas afirmam trabalhar arduamente para oferecer experiências supervisionadas aos mais jovens. Os porta-vozes do TikTok e do YouTube asseguraram que as plataformas fornecem guias úteis para os encarregados de educação e apelam ao uso de ferramentas parentais.
Os representantes do YouTube explicaram que a rede dispõe de três experiências distintas para corresponder à fase de desenvolvimento: para crianças dos zero aos 12 anos, contas infantis geridas pelos pais e perfis para adolescentes até aos 17 anos.
Do lado do TikTok, foi garantido que as contas de utilizadores mais novos têm mais de 50 definições de segurança e privacidade ativadas automaticamente, incluindo a proibição de acesso a mensagens diretas entre os 13 e os 15 anos, além do bloqueio a transmissões em direto para menores de 18 anos.
Um conselho para os pais
No total, passei cerca de seis meses a entrar e a sair destes fóruns para tentar perceber como é que os nossos jovens vão lá parar e por que razão ficam. Se há um conselho de ouro que posso oferecer aos pais, é o seguinte: na ausência de ligação, pertença e de se sentirem compreendidos na sua vida real, eles procurarão inevitavelmente outros locais para satisfazer estas necessidades.
Se querem que os vossos filhos recorram a vós, precisam de criar espaços seguros na dinâmica familiar. Locais onde possam ser honestos e onde os consigam ouvir, sem tentar resolver imediatamente os problemas, mas validando a dor pela qual estão a passar. Nada disto é fácil e todos eles precisam de amparo, por muito duros e invencíveis que possam parecer.
