Imagens de civis em Gaza esqueléticos e famintos, incluindo crianças, remetem para os momentos mais sombrios do século XX. E Macron reagiu a isso - de maneira ousada. E desesperada
O reconhecimento do Estado da Palestina por parte da França é um gesto arrojado de Macron, com um toque de desespero
Análise de Joseph Ataman, CNN
Com uma única publicação, o Presidente francês, Emmanuel Macron, mudou tudo - e, ao mesmo tempo, não mudou nada.
O seu anúncio, feito ao final da noite na rede social X, de que França vai reconhecer o Estado palestiniano em setembro, sendo o primeiro membro do Conselho de Segurança das Nações Unidas e do G7 a fazê-lo, apanhou muitos de surpresa.
Embora o reconhecimento por parte da França já fosse esperado há vários meses - na verdade, a breve guerra entre Israel e o Irão forçou o adiamento da cimeira sobre Israel-Palestina com a Arábia Saudita e aliados europeus, que Paris vinha a liderar -, não se esperava que acontecesse desta forma.
Duas conclusões
O anúncio surpresa revela-nos duas coisas.
Em primeiro lugar: Emmanuel Macron sente que este é o momento para agir. Líderes de França, do Reino Unido e da Alemanha devem discursar esta sexta-feira para apelar a uma ação urgente face ao agravamento extremo da crise humanitária em Gaza.
Mais de mil cidadãos de Gaza foram mortos desde maio enquanto procuravam desesperadamente por comida e dezenas de outros morreram devido à própria fome.
Imagens de civis esqueléticos e famintos, incluindo crianças, remetem para os momentos mais sombrios do século XX, provocando repulsa no Ocidente - embora ainda sem traduzir-se em ações concretas - perante a crise humanitária.
A decisão de Macron é ousada - seguindo o exemplo de alguns aliados europeus: Irlanda, Noruega e Espanha - e abre caminho para que grandes potências internacionais façam o mesmo.
“Tenho falado com outros colegas e estou certo de que não seremos os únicos a reconhecer a Palestina em setembro,” disse à CNN um alto responsável da presidência francesa, após o anúncio de Macron.
Agora, provavelmente os olhos voltam-se para o Reino Unido, talvez também para a Alemanha. A possibilidade dos Estados Unidos, o aliado mais próximo de Israel mesmo sem a presidência de Trump, parece impossível.
Mas, para quem está no terreno, a decisão francesa provavelmente mudará pouco.
O movimento foi saudado pelo Hamas como um “passo positivo”. Para os líderes israelitas, não foi bem aceite de todo.
O reconhecimento de Macron “recompensa o terror”, disse o primeiro-ministro israelita (e antigo opositor de longa data do Estado palestiniano), Benjamin Netanyahu, na noite de quinta-feira, com outros ministros a argumentarem que a decisão agora justifica a anexação oficial da Cisjordânia - Judeia e Samaria, na linguagem da extrema-direita israelita.
O mesmo sentimento foi rapidamente partilhado pelos Estados Unidos, que têm estado cada vez mais em desacordo com os seus aliados ocidentais na Europa em relação à guerra de Israel em Gaza.
O Secretário de Estado Marco Rubio afirmou que os EUA “rejeitam veementemente” o plano de Macron.
“Esta decisão imprudente serve apenas à propaganda do Hamas e atrasa a paz”, escreveu Marco Rubio na rede social X, esta quinta-feira. “É uma chapada na cara das vítimas de 7 de outubro.”
Mesmo que o reconhecimento internacional pudesse, por magia, provocar mudanças concretas em Gaza, o prazo de setembro demasiado tarde para os palestinianos que estão a morrer de fome sob o bloqueio israelita ao abastecimento de alimentos.
Philippe Lazzarini, responsável pela UNRWA, a principal agência das Nações Unidas para os refugiados palestinianos, afirmou na quinta-feira que as pessoas em Gaza pareciam “cadáveres ambulantes” devido à fome que se instalava.
As 2,1 milhões de pessoas em Gaza encontram-se agora em situação de insegurança alimentar e, na terça-feira, o Ministério da Saúde de Gaza informou que 900 mil crianças estão a passar fome.
Cerca de 70 mil crianças já apresentam sinais de desnutrição, segundo o Ministério da Saúde local.
Uma aposta diplomática arriscada?
O anúncio solitário da França também sugere um toque de desespero por parte de Macron.
Ele é um homem que prefere uma coligação no palco mundial - a força do número é geralmente uma estratégia vencedora.
Há um mês, parecia estar tudo preparado para que a França reconhecesse a Palestina - estava planeada uma cimeira coorganizada com a Arábia Saudita em Riade, de 17 a 20 de junho. Mas quando o conflito aberto eclodiu entre Israel e o Irão a 13 de junho, esse plano foi destruído.
A expectativa entre os especialistas era de que a França e a Arábia Saudita reunissem outros aliados para um reconhecimento conjunto - um sinal forte para Jerusalém e Washington D.C. sobre a importância da solução dos dois Estados e da paz.
Macron ainda poderá conseguir a sua vitória em setembro se os aliados se juntarem ao reconhecimento da França, mas isso não acontecerá sem que França arrisque o seu capital diplomático e tenha de convencer parceiros mais relutantes.
“A ideia é exercer um pouco de pressão sobre outros países,” disse o alto responsável francês à CNN.
E a decisão de Macron tem peso.
As nações europeias têm-se mostrado persistentemente relutantes em agir formalmente a favor da solução dos dois Estados e em reconhecer a existência do Estado palestiniano. O respeito pelo aliado ocidental Israel, a aversão ao governo islamista em Gaza e as falhas da Autoridade Palestiniana na Cisjordânia, bem como um status quo aparentemente aceitável há várias décadas, levaram a uma revolta contida face aos assentamentos israelitas e aos ataques aos palestinianos, com poucas mudanças na ação internacional.
França está agora a quebrar esse teto de vidro.
Em França, um país que há muito mantém uma posição simpática à causa palestiniana, o reconhecimento da existência do Estado palestiniano não será uma medida controversa.
O líder pós-Segunda Guerra Mundial Charles de Gaulle ficou conhecido por apoiar o povo palestiniano após a guerra de 1967, com Paris a envolver-se com a Organização para a Libertação da Palestina durante décadas, mesmo quando ataques terroristas foram cometidos em nome do grupo em solo francês.
Em 2014, o parlamento francês apelou ao governo para reconhecer a Palestina, um apelo que o governo apoiou no Conselho de Segurança das Nações Unidas numa votação malsucedida para instituir o Estado palestiniano até 2017.
França tem defendido há muito uma solução de dois Estados para Israel e Palestina com base nas fronteiras de 1967, embora uma fonte do Eliseu tenha afirmado que o reconhecimento francês não especificaria as fronteiras.
Macron apoiou firmemente a retaliação de Israel pelos massacres de 7 de outubro, mas, com o tempo, endureceu as suas críticas a Netanyahu e à condução da guerra por parte de Israel.
Publicamente, mostrou preocupação com o “importar” do conflito para França, país que alberga a maior comunidade de judeus e muçulmanos na Europa.
No entanto, à medida que o número de vítimas em Gaza aumentava, França proibiu as exportações de armas para Israel, organizou lançamentos de ajuda para o território e apelou repetidamente a um cessar-fogo, ao acesso de ajuda humanitária e de jornalistas.
Ao dar este salto de fé, reconhecendo o Estado palestiniano antes dos seus pares, o Palácio do Eliseu espera certamente um efeito dominó de reconhecimentos por todo o Ocidente.
Com a ajuda ainda cruelmente fora do alcance da população comum de Gaza, talvez seja um último esforço para trazer algum alívio.
