Este texto ajuda a salvar o planeta: mitos, erros, dúvidas e conselhos para reciclar bem

2 jul, 18:00
Reciclagem em Vila Nova de Poiares (Foto: M. Maeder/Pexels)

Um guia para quem já recicla mas também para quem ainda não o faz

O camião do lixo mistura todos os resíduos dos ecopontos, as tampas não devem ser recicladas e os lenços de papel devem ir para o ecoponto azul. O mundo da reciclagem está repleto de mitos e nem sempre é fácil distinguir o certo do errado no momento da separação dos resíduos. Eis alguns dos mitos mais comuns identificados pela Sociedade Ponto Verde e pela associação ambientalista Zero que podem estar a comprometer a reciclagem das famílias portuguesas:

1. É necessário lavar as embalagens antes de as colocar no ecoponto
Não é verdade. Lavar as embalagens “não acrescenta valor para o processo de reciclagem”, uma vez que os processos de tratamento de resíduos já “incluem uma fase de lavagem, desfragmentação e tratamento que elimina os vestígios de gordura, alimentos e bebidas ou até restos de champô ou detergente” - a não ser que se trate de embalagens de cartão/papel, que não devem ser colocadas no ecoponto azul com vestígios de gordura ou sujidade. Em todo o caso, a Sociedade Ponto Verde recomenda que esvazie “ao máximo” o conteúdo das embalagens antes de as reciclar, “evitando peso desnecessário e maus cheiros enquanto ainda estão armazenados em casa”. Depois de escorrer o conteúdo, deve “espalmar as embalagens”, permitindo uma otimização do espaço do ecoponto, “diminuindo os custos e a poluição provocada pelo transporte e armazenamento desses materiais”.

2. As tampas das embalagens não devem ser recicladas
Depende. Se for do mesmo material que a embalagem e se tiverem um tamanho inferior a 50 milímetros, devem ser colocadas no mesmo ecoponto junto com a embalagem. Por exemplo, se quiser reciclar uma garrafa de plástico, deve colocar a mesma no ecoponto amarelo com a tampa enroscada. Isto porque “podem perder-se ao longo do processo de tratamento”, dada a sua pequena dimensão. Já se se tratar de uma garrafa de vidro com uma tampa de plástico ou metal, deve colocar a garrafa no ecoponto verde e a tampa no amarelo. 

3. Devemos retirar os rótulos das embalagens antes de as reciclar
Não é necessário retirar rótulos das embalagens pois os processos de tratamento de reciclagem já incluem a eliminação destes componentes. Contudo, se o rótulo for facilmente removível e tiver potencial de aproveitamento para reciclagem num outro contentor do da embalagem, poderá separar.

4. O lixo dos ecopontos é todo misturado no camião no momento da recolha
Não é verdade, uma vez que “os transportes que fazem a recolha do lixo para reciclagem têm compartimentos distintos no seu interior, podendo recolher mais do que um material”. Depois da recolha é feita uma triagem, onde se procede a uma “seleção ainda mais rigorosa por tipo de material e é dado o devido encaminhamento para zonas de tratamento específicas”. Ainda assim, Rui Berkemeier, da associação ambientalista Zero, admite que já ocorreram situações, embora “muito raras”, em que as câmaras municipais, que são a entidade responsável pela recolha dos resíduos, não respeitaram a devida separação dos mesmos. Mas, nestes casos, “as autarquias perdem dinheiro se o fizerem”, pelo que são mesmo “situações excecionais”.

5. Os copos devem ser colocados no ecoponto verde
Não, o ecoponto verde (conhecido por "vidrão") destina-se apenas às garrafas, aos frascos e aos boiões de vidro. Logo, todos os materiais que não sejam constituídos por vidro - como espelhos, pirex, janelas, chávenas, pratos, louça, cerâmica e copos - devem ser colocados no lixo indiferenciado. Isto porque estes materiais “têm uma composição química diferente, com pontos de fusão diferentes ou com contaminantes que podem inviabilizar a reciclagem do vidro que está dentro do ecoponto verde”.

Alguns dos erros mais comuns que ainda persistem no momento de reciclagem

Apesar dos esforços no sentido de consciencializar para a reciclagem, ainda há muitas dúvidas no momento de fazer a separação dos resíduos entre os contentores. Eis alguns dos erros mais comuns identificados pela Sociedade Ponto Verde que ainda persistem no momento da reciclagem:

Guardanapos, papel de cozinha e lenços de papel no ecoponto azul
Por serem de papel, é comum que o primeiro impulso seja colocá-los no ecoponto azul. No entanto, devido à sujidade que contêm e à sua composição fibrosa, estes materiais não são aproveitados para a reciclagem. O ecoponto azul destina-se apenas a papel que possa ser reaproveitado (como cadernos, jornais e revistas, desdobráveis, etc.) e cartão limpo (caixotes de supermercado, caixas de eletrodomésticos, entre outros).

Medicamentos
Os medicamentos possuem substâncias que precisam de ser neutralizadas de forma segura. Por essa razão, as embalagens dos medicamentos, bem como os respetivos frascos, blísteres, colheres ou copos-medida, devem ser entregues na farmácia e serão depois tratadas pela ValorMed, a entidade responsável pelos resíduos de medicamentos.

Produtos com vários materiais
Se não for possível separar os dois tipos de material, a embalagem deve ser colocada no ecoponto do material predominante. Por exemplo, uma caixa de brinquedos com uma janela em plástico deve ser colocada no contentor azul, pois o cartão é o material predominante.

Reciclagem em Portugal está a aumentar, mas ainda está longe das metas europeias

Em declarações à CNN Portugal, as duas associações dizem não ter dúvidas de que as famílias portuguesas estão cada vez mais consciencializadas para a importância da reciclagem. E os números mostram isso mesmo - de acordo com a Sociedade Ponto Verde, a recolha seletiva de embalagens aumentou 13% em 2020 em Portugal face a 2019, tendo sido encaminhadas para reciclagem mais de 409 mil toneladas de embalagens.

Ainda assim, a associação Zero indica que, apesar deste aumento, apenas 16,1% dos resíduos urbanos produzidos foram enviados para reciclagem, ainda longe da meta de 55% pretendida para 2045, tal como estabelecido na União Europeia.

Para Rui Berkemeier, o que está falhar em Portugal não é a consciencialização das pessoas mas sim o "sistema de recolha seletiva através de ecopontos", que, no entender da Zero, deve ser substituída por um sistema de recolha porta-a-porta, apontando como exemplo o que já acontece no concelho da Maia, no Porto, onde o tratamento dos resíduos urbanos é assegurado pela LIPOR.

Além disso, uma das outras soluções apresentadas pela Zero passa pela criação de um sistema de depósito e retorno que, aliás, já foi aprovado na Assembleia da República em junho de 2018 e que já deveria estar em funcionamento. Este sistema pretende oferecer ao indivíduo a possibilidade de reaver o dinheiro do depósito mediante a entrega de um produto reciclado. Assim, as pessoas têm uma motivação económica para reciclar e as autarquias deixam de gastar dinheiro com a limpeza das ruas, das praias, etc. 

De acordo com o responsável da Zero, esta iniciativa não avança por "falta de vontade política" e pelos interesses dos lóbis dos resíduos. "Os políticos não têm coragem de assumir as soluções de que o planeta precisa", lamenta, lembrando que este sistema já está a funcionar noutros países, sobretudo no norte da Europa, precisamente para reduzir os custos da limpeza da via pública e para incentivar a população a reciclar.

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