Raúl Guillermo Rodríguez Castro, neto e antigo guarda-costas de Raúl Castro, está a ganhar protagonismo como interlocutor inesperado nas negociações entre Cuba e a administração Trump. Apesar da falta de experiência diplomática, é visto como figura-chave devido à proximidade com o avô e à influência dentro do regime
Raúl Castro estava a ser homenageado pelos franceses, a subir uma passadeira vermelha até um palácio governamental em Paris durante uma visita de Estado em 2016, quando fotógrafos irritados começaram a gritar na direção do então presidente cubano.
“Por favor! Guarda-costas!” gritaram os fotógrafos ao responsável cubano que seguia nos calcanhares de Castro e estragava a fotografia.
O então Presidente francês François Hollande afastou o guarda-costas cubano que seguia atrás dos dois líderes e o momento tornou-se matéria para os comediantes noturnos do país. Um erro público destes poderia ter arruinado a carreira de qualquer outro agente de segurança — exceto que o guarda-costas em questão também era um Castro.
Com o nome do avô, Raúl Guillermo Rodríguez Castro desempenha há mais de uma década o papel de guarda-costas e, ao mesmo tempo, de guardião de acesso à figura viva mais poderosa de Cuba, sempre a poucos passos quando Raúl Castro aparece em público.
Sussurrava os nomes de responsáveis cubanos ao ouvido do avô quando o idoso Castro, que tem 94 anos e está agora pelo menos oficialmente reformado, cumprimentava pessoas em receções, e alertava-o a meio de discursos quando a imprensa estrangeira era conduzida para a sala.
Embora esteja sempre em segundo plano, o nome de Rodríguez Castro e a sua ligação familiar nunca são mencionados na imprensa estatal cubana, fortemente controlada.
Num momento de máxima tensão entre os EUA e Cuba, Rodríguez Castro está a sair da sombra do avô para assumir um papel surpreendente como interlocutor da administração Trump, que parece determinada a abalar o controlo férreo que a sua família exerce sobre a ilha comunista.
‘Ele não é comunista’
O guarda-costas dos Castro transformado em emissário é uma reviravolta que poucos observadores de Cuba antecipavam.
Coronel do Ministério do Interior de Cuba, Rodríguez Castro nasceu com um sexto dedo numa das mãos, o que lhe valeu a alcunha El Cangrejo, ou “o Caranguejo”. Em reuniões com líderes mundiais tão diversos como o Presidente russo Vladimir Putin ou o ex-Presidente dos EUA Barack Obama, mantinha-se invariavelmente colado ao lado do avô.
Embora não tenha um cargo público oficial, Rodríguez Castro não esconde os privilégios que normalmente estariam muito além do alcance de um coronel das Forças Armadas cubanas — pelo menos de um que não pertença à família Castro.
É presença habitual em alguns dos restaurantes mais sofisticados de Havana e foi visto a conduzir um SUV novo com a sua própria equipa de segurança.
Vídeos divulgados nas redes sociais mostram também o jovem Castro a divertir-se em iates privados e a frequentar discotecas caras, luxos inacessíveis para a maioria dos cubanos.
“Ele quer mudanças positivas para os cubanos”, assegurou Sandro Castro, primo em segundo grau de Rodríguez Castro, à CNN numa entrevista abrangente em março.
Embora tenham idades próximas e pertençam à mesma família que tomou o poder na ilha há quase 70 anos, Sandro Castro disse que os dois não cresceram juntos e raramente se veem, mas são cordiais.
“O Raulito tem a vida dele e eu tenho a minha”, disse Sandro Castro, que gere a sua própria discoteca e é um influenciador polémico favorável a um acordo com a administração Trump para revitalizar a economia estagnada da ilha.
“Ele é um militar, sempre foi guarda-costas do avô”, referiu Sandro Castro sobre o primo. “Tem a confiança do avô. Arriscou a vida por ele. É por isso que lhe deram tanta confiança.”
Apesar dos temperamentos e percursos aparentemente opostos, Sandro Castro disse que o primo partilha o seu entusiasmo por carros de luxo, pela vida de jet set e pela vida noturna em Havana — desfrutada apenas por uma classe privilegiada de cubanos com dólares para gastar.
“Ele é porreiro”, afirmou Sandro Castro sobre o primo. “Também não é comunista. Quer que as coisas se abram.”
Dependendo do andamento das negociações com a administração Trump, Rodríguez Castro poderá estar prestes a colher os frutos de uma injeção do capitalismo norte-americano no enfraquecido sistema económico socialista de Cuba, gerido de forma centralizada.
Tornar-se ‘menos festeiro’
Rodríguez Castro é filho de Deborah, filha de Raúl Castro, e de Luis Alberto López-Calleja, o falecido general e presidente da GAESA, o consórcio militar que supervisiona um vasto império de hotéis, marinas e outros negócios pouco transparentes que representam a maior parte da economia da ilha.
Numa viagem ao México em 2019, López-Calleja foi identificado pelo governo mexicano como “o principal conselheiro” do Presidente cubano Miguel Díaz-Canel, a quem acompanhava.
Já responsável pelos negócios lucrativos das Forças Armadas e casado com a família Castro, López-Calleja tornou-se membro da Assembleia Nacional em 2021, um requisito para cargos governamentais mais elevados na ilha, incluindo a presidência.
Mas López-Calleja faleceu inesperadamente em 2022, vítima de um ataque cardíaco. Após a morte do pai, Raúl Guillermo Rodríguez Castro parece ter demonstrado um maior interesse pelos meios empresariais e políticos da ilha.
Jantou com embaixadores europeus em Cuba e solicitou visitas privadas aos pavilhões dos parceiros económicos do país durante a feira anual de comércio em Havana, revelou uma fonte diplomática à CNN.
“Tornou-se mais um homem de negócios, menos um festeiro”, disse à CNN um investidor estrangeiro de longa data em Cuba. “Sempre que surge um novo negócio autorizado pelo governo, como importar carros ou vender bens de luxo, as pessoas perguntam-se se ele está envolvido”, acrescentou.
De acordo com um relatório de 2025 do jornal panamiano La Prensa, Rodríguez Castro fez pelo menos 13 voos em jatos privados do governo venezuelano que o transportaram entre Havana, Panamá e Caracas, quando a Venezuela ainda era um parceiro comercial próximo.
A CNN contactou o governo cubano para obter comentários sobre o papel e o percurso de Rodríguez Castro.
O interlocutor
Apesar da sua notoriedade e da sua estreita ligação ao avô, a notícia inicialmente avançada pelo Axios em fevereiro de que Rodríguez Castro estaria a negociar secretamente com a administração Trump para discutir um possível acordo diplomático surpreendeu muitos analistas de Cuba.
Um antigo responsável cubano classificou na altura a notícia como “operações psicológicas” da administração Trump e duvidou que, com tão pouca formação diplomática, Rodríguez Castro fosse encarregado de uma missão tão importante.
A confirmação para o público cubano chegou em março, quando o Presidente Miguel Díaz-Canel apareceu na televisão para reconhecer pela primeira vez as negociações com os EUA. Entre o pequeno grupo de altos responsáveis — sem a presença do avô — estava Rodríguez Castro.
“Ele não tinha razão para estar ali”, afirmou um observador de longa data de Cuba, que pediu anonimato para evitar repercussões. “Não é político, nem especialista em relações internacionais; é um guarda-costas.”
Ainda assim, Rodríguez Castro reuniu-se pelo menos duas vezes pessoalmente com responsáveis do Departamento de Estado dos EUA, que tentaram convencê-lo da necessidade de mudanças fundamentais na ilha, mantendo, no entanto, a influência da sua família, se não mesmo o controlo, segundo fontes oficiais norte-americanas.
Rodríguez Castro é visto pela administração Trump como a pessoa mais próxima de Raúl Castro, a única figura na ilha capaz de impor uma mudança drástica nas relações com os EUA e afastar qualquer responsável cubano que tente bloquear um acordo.
Mas não é claro até onde irão as negociações com um Castro para desmantelar, de forma fundamental, a sua própria revolução.
“A política dos EUA organizou-se em torno da remoção dos Castro, mas parece que agora a administração Trump está basicamente a dar poder aos Castro ao negociar com o neto de Raúl Castro, em detrimento de Díaz-Canel”, afirmou Juan Gonzalez, que foi diretor sénior para o Hemisfério Ocidental no Conselho de Segurança Nacional durante a administração Biden, à CNN.
“Nunca vimos o ‘El Cangrejo’ como um ator importante dentro do Partido Comunista Cubano”, referiu. “Por isso, foi surpreendente. Qualquer coisa que ele venha a negociar incluirá a sobrevivência do regime.”
“Não é claro que esta administração tenha um plano para Cuba”, acrescentou Gonzalez. “Há muita improvisação em curso.”
