Portugal continua a ser, de forma consistente, um dos países mais seguros do mundo. Uma realidade amplamente reconhecida e confirmada pelos principais rankings internacionais. Mas essa constatação, sendo verdadeira, pode também ser insuficiente, ou até enganadora, se nos limitar à superfície dos dados.
O mais recente Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) volta a confirmar uma tendência que importa olhar com mais atenção: a criminalidade geral registou um aumento de 3,1%, sendo que os crimes contra o património representam mais de metade do total (50,5%). Não estamos perante uma rutura, nem perante um cenário alarmista. Mas também não estamos perante um quadro estático.
A criminalidade patrimonial, furtos, intrusões ou roubos não só mantém um peso estrutural como revela uma característica cada vez mais relevante: a sua forte concentração territorial. Os grandes centros urbanos e as zonas com maior densidade populacional e atividade económica continuam a ser os principais pontos de incidência, portanto nada de novo, mas está a tornar-se mais previsível e é aqui que surge a primeira questão crítica. Se os padrões são cada vez mais claros, porque é que a forma como pensamos a segurança continua a ser, muitas vezes, genérica?
Durante muito tempo, a segurança foi tratada como um tema reativo, como algo que se ativa depois do incidente. Hoje, os dados permitem-nos uma abordagem diferente, antecipatória, contextual e baseada em evidência. Mas esta mudança ainda não está totalmente incorporada na forma como famílias, empresas e até instituições pensam a proteção.
Quando olhamos para a distribuição dos crimes, percebemos que não existe uma realidade única. Existem várias “realidades de risco”, profundamente influenciadas pelo tipo de espaço (urbano vs. rural), pelo tipo de imóvel (habitação vs. comércio) e pelos padrões de utilização. O facto de uma parte significativa das ocorrências estar associada a contextos empresariais, particularmente comércio e serviços, é um sinal claro de que o risco acompanha a atividade económica e não apenas o setor residencial.
Nesse sentido, a conclusão pode não ser evidente para todos, mas a segurança deixou de ser um tema homogéneo. É, hoje, profundamente personalizada e exige uma mudança cultural.
Entre relatórios públicos, informação institucional e dados operacionais no terreno, existe um volume de conhecimento sem precedentes sobre onde, quando e como ocorrem os incidentes. O verdadeiro desafio já não é a falta de informação, é como a utilizamos a nosso favor.
No fundo, surge a questão, estamos a transformar dados em decisões?
A resposta talvez seja não, nesse sentido urge, enquanto sociedade, começarmos a olhar para a segurança como algo preventivo e não como uma reação após o acontecimento.
