"Estamos a preparar-nos para cada vez mais novas variantes" da covid-19

27 dez 2021, 12:45

Raquel Duarte, pneumologista e investigadora em doenças infecciosas, alerta que a covid-19 é uma lição que ainda não conseguimos colocar em prática e uma doença que dificilmente vamos conseguir travar enquanto existirem países vulneráveis ao vírus

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Passou, precisamente, um ano desde que a primeira pessoa em Portugal foi vacinada contra a covid-19 - o médico António Sarmento, diretor do Serviço de Doenças Infeciosas do hospital de São João, mas, apesar do muito tempo decorrido, o mundo continua vulnerável à pandemia e não há sinais de travagem do SARS-CoV-2. E a explicação é simples, segundo a pneumologista e investigadora Raquel Duarte.

"Enquanto houver um país vulnerável, estamos em risco. Enquanto houver países com pessoas não vacinadas e tivermos esta diferença abissal em que estamos a pensar numa quarta dose de reforço quando há países que ainda não conseguiram administrar as duas primeiras doses à sua população, estamos a aumentar a iniquidade e não conseguimos, obviamente, cortar a circulação do vírus na comunidade", defendeu em entrevista à CNN Portugal Raquel Duarte, uma das especialistas ouvidas pelo Governo no âmbito do combate à covid-19.

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Ou seja, vai ser muito difícil travar novas variantes, como é o caso da Ómicron, que precipitou a maior parte dos países para a toma da terceira da dose da vacina, havendo já casos de administração de uma quarta dose.

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"Estamos a preparar-nos para cada vez mais novas variantes e não pomos um ponto final ou pelo menos um travão forte à covid-19. Esta é uma lição que ainda não aprendemos ou que não estamos a pôr em prática", sublinhou.

Hoje assinala-se igualmente o segundo Dia Internacional de Preparação Epidemiológica, instituído em plena pandemia de covid-19 e que pretende alertar "para os efeitos arrasadores que grandes doenças infecciosas têm sobre a vida e a rotina das pessoas", há uma certeza entre a comunidade científica, a de que não vamos ficar por aqui.

"Tem havido uma série de alertas para a possibilidade de existência de uma [nova] pandemia. Penso que estamos naquela fase das trancas à porta depois do roubo acontecer, mas não nos podemos centralizar apenas aqui, mas prepararmos-nos para a próxima, porque aquilo que sabemos é que vai haver uma próxima. Não sabemos quando ou a natureza da próxima pandemia, mas uma coisa é certa, voltará a ocorrer, portanto o que temos de garantir é que aprendemos a lição com a pandemia de covid-19 e a lição é a de que precisamos mesmo de nos preparar para outra pandemia", alerta Raquel Duarte.

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A lei do elo mais fraco

As doenças infecciosas deixaram de ser um problema dos países mais pobres e a covid-19 veio mostrar precisamente isso, de que "podem rapidamente atingir também os países ricos". E os mais pobres não têm apenas falta de vacinas, falta-lhes basicamente tudo para controlar cadeias de transmissão.

"Temos de nos preparar a dois níveis para as pandemias: ao nível de cada país e ao nível global. Em cada país é perfeitamente claro que temos de ter sistemas de saúde fortes e resilientes, em particular ao nível de cuidados de saúde primários e de saúde publica, sistemas de vigilância e capacidade laboratorial capaz de detetar surtos, quer em animais quer em humanos, mecanismos de coordenação entre diferentes setores para a prevenção e preparação e temos de ter instaladas fontes de conhecimento adequadas, stocks de bens e equipamentos essenciais. Mas depois temos o nível global, porque os agentes patogénicos não respeitam fronteiras e é importante que haja uma boa articulação e entreajuda entre os diferentes países, mas a todos os níveis, nomeadamente partilha de informação sobre o agente, a forma de transmissão, partilha de conhecimento tecnológico em termos de meios complementares de diagnóstico, tratamento, vacinas, procura e compra conjunta de fármacos ou materiais de diagnóstico", apontou.

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Perante este cenário, Raquel Duarte não tem dúvidas de que a lei do elo mais fraco vai continuar a imperar.

"Alguns países, nomeadamente os mais pobres, têm falhas muito claras em toda esta capacidade de preparação. Enquanto houver um país vulnerável ou sem capacidade de controlar a transmissão da infeção, sem capacidade de controlar os surtos, todos os países do mundo estão vulneráveis, é a lei do elo mais fraco. Aquilo que nós aprendemos muito claramente com a covid-19 é a necessidade de entreajuda entre todos os países", defendeu.

 

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