O antigo chefe do Estado recordou a história do país, sem deixar de fora o futuro
Uma medalha na qual se pode ler "Liderança". O general Ramalho Eanes foi esta segunda-feira distinguido com o Grande Prémio Ilídio Pinho por ser "um ativo de Portugal e da portugalidade", como referiu o criador da Fundação Ilídio Pinho.
"Recusei o prémio", começou por admitir, durante a cerimónia de atribuição do galardão aconteceu na manhã desta segunda-feira na Câmara Municipal do Porto. "A pátria não deve nada a ninguém, não deve nada a nenhum dos seus filhos", explicou.
Durante o discurso de entrega do prémio, o antigo chefe do Estado, de 90 anos, classificou a distinção como "uma atribuição excessivamente generosa", que acabou por aceitar para evitar que os membros do júri interpretassem a recusa como "uma manifestação de menos respeito ou consideração".
"Desde muito cedo vi morrer homens em combate pelo país e com a pátria financeiramente pobre tratava os seus descendentes. Prometi a mim mesmo que nunca receberia mais proventos dos que me eram devidos pela minha atividade", disse.
Ramalho Eanes aproveitou para recordar a história do país, desde a "derrocada de um império de 500 anos", que "acabou sem drama", ao "mundo exigente que se anunciava". Não deixou, contudo, de fora o futuro, apelando à "vontade" para "um futuro com sentido, que possa trazer felicidade à maioria dos portugueses". "Para além de instrumentos e meios, é absolutamente dominante o querer. Como diz Miguel Torga, somos nós que fazemos o destino", sublinhou.
A cerimónia contou ainda com a presença do presidente da Assembleia da República, José Pedro Aguiar-Branco; do autarca do Porto, Rui Moreira; e claro de Ilídio Pinho, um dos grandes empresários industriais.
Aguiar-Branco classificou Ramalho Eanes como "um herói consensual": "os militares descobriram neles a figura certa para fazer a transição". E, também numa viagem ao futuro, a segunda figura do Estado reforçou a necessidade de "construir sempre" a história.
"O general Ramalho Eanes lembra-nos que a nossa democracia, como hoje a conhecemos, não nos foi oferecida, não estava escrita nas estrelas. Teve de ser conquistada com risco pessoal por tantos, militares e civis, teve e tem de ser construída todos os dias com o empenho e a criatividade cívica de todos, encontrando equilíbrios difíceis, reconciliando diferenças, debatendo caminhos de futuro", afirmou, garantindo que o país que hoje se conhece "deve muito" ao antigo chefe do Estado.
Por sua vez, Ilídio Pinho afirmou que Ramalho Eanes é "um ativo de Portugal e da portugalidade". "É pela exemplar liderança como militar, como primeiro Presidente eleito na nossa democracia, que entra na história de Portugal. Foi o homem que mais poder teve na mão e o que mais poder soube distribuir, equilibrando uma sociedade crispada como a de hoje, onde já não tem poder, mas tem a máxima autoridade", sublinhou.
Esta é a terceira edição do Grande Prémio Ilídio Pinho, sendo que foi entregue pela primeira vez ao cardeal José Tolentino de Mendonça e depois ao arquiteto Álvaro Siza Vieira.