Quem é o professor de futebol que promete fazer de Ronaldo um jogador melhor?

30 nov 2021, 09:25
Ralf Rangnick

Ralf Rangnick foi anunciado como treinador do Manchester United até final da época, o que é um excelente pretexto para conhecer o homem que ajudou a mudar o futebol alemão e que inspirou uma nova geração de técnicos. Adepto do futebol heavy metal, como Jurgen Klopp, diz que o trabalho dele é tornar os jogadores melhores e foi o cérebro por detrás do sucesso de RB Leipzig e do RB Salzburgo.

Ralf Rangnick.

O nome pode ser pouco conhecido para a maioria dos adeptos, mas no futebol germânico é sinónimo de qualidade, revolução e herança. O alemão mudou muito do que é o jogo no país, inspirou uma nova geração e por isso tornou-se num dos treinadores mais conceituados.

A prova disso é que ele é uma das personagens centrais do livro «Golo da Alemanha», do espanhol Axel Torres, que explica a transformação que devolveu o futebol alemão ao topo do mundo. Ao lado de Guardiola, Jurgen Klopp, Joachim Low, Thomas Tuchel e Jurgen Klismann.

Mas quem é, afinal, Ralf Rangnick?

Para início de conversa, vale a pena recuar duas décadas, até 1998. Rangnick treinava o Ulm, na II Liga Alemã, quando foi convidado para ir à televisão explicar o sistema de quatro defesas. O treinador foi, levou um quadro com bonecos e colocou tudo em cima da mesa.

«No país que dera o líbero ao mundo, jogar com quatro defesas era considerado uma novidade. Quase uma heresia do futebol», explicou mais tarde o próprio Ralf Rangnick.

Depois desse dia, o treinador ganhou a alcunha de «professor de futebol». O que faz sentido. Em primeiro lugar porque respira futebol e em segundo lugar porque é, de facto, professor.

Natural de Backnang, perto de Estugarda, onde nasceu há 63 anos, fez uma carreira modesta como médio centro: nunca passou de um nível amador. Por isso dedicou-se aos estudos. Licenciou-se em ensino de desporto e inglês pela Universidade de Estugarda, tirou o nível A de treinador com 22 anos e começou a treinar aos 24 no pequeno Viktoria Backnang.

Estávamos em 1983 e num dia frio de fevereiro aconteceu um episódio que lhe mudou a vida.

«O Dínamo de Kiev, equipa do lendário Valeriy Lobanovskyi, estava a fazer um estágio perto e precisava de um adversário fácil para um particular. Fomos nós. Poucos minutos após o início, quando a bola saiu, tive que parar para contar os jogadores. Algo estava errado. Eles tinham 13 ou 14 homens em campo?», contou Ralf Rangnick ao The Coaches’ Voice.

«Já tinha jogado contra equipas de primeira linha - perdemos sempre, é claro - mas estas equipas davam-nos sempre momentos ocasionais para respirar. O Dínamo Kiev foi a primeira equipa que defrontei que pressionava a bola sistematicamente. Essa foi a minha epifania.»

Nessa altura entendeu que havia outra maneira de jogar, diferente do que a Alemanha estava habituada. A Alemanha que conquistou o mundo com um jogo direto e muito físico.

«Uns anos depois fui treinar os amadores do Estugarda e conheci um engenheiro de estruturas que aprendeu sozinho as táticas do futebol e se tornou o primeiro a introduzir na Alemanha um sistema que combinava marcação zonal com pressão agressiva», conta.

«O nome dele era Helmut Gross. Começámos a escrever manuais de treino juntos. Tínhamos amigos em Itália que nos enviavam vídeos do Milan de Arrigo Sacchi. Parávamos e rebobinávamos as fitas tantas vezes que o equipamento se avariou.»

Seguiram-se cerca de dez anos durante os quais Rangnick alternou entre o ensino, o treino de jovens e o treino amador. Com uma operação e muita fisioterapia pelo meio.

Até que em 1997 foi chamado a assumir o Ulm, na terceira divisão, e pôde então colocar em prática as ideias revolucionárias que tinha trabalhado na teoria: um esquema de quatro defesas, pressão alta e asfixiante, saídas rápidas e colocação da bola no centro de tudo.

O início não correu bem, o Ulm sofreu mais de cinquenta golos, mas na segunda época foi campeão e subiu à II Liga Alemã. No ano seguinte estabeleceu um recorde de invencibilidade na II Liga Alemã e conseguiu nova subida, agora à Bundesliga. Ralf Rangnick já não festejou, tinha sido demitido pouco antes, quando se soube que já assinara pelo Estugarda.

No Estugarda ganhou uma Taça Intertoto, no Hannover voltou a subir à Bundesliga, mas a carreira do alemão só mudou verdadeiramente quando foi convidado a assumir o Hoffenheim, que estava então na terceira divisão e tinha sido comprado pelo milionário Dietmar Hopp.

Duas subidas seguidas colocaram o clube na Bundesliga e no ano de estreia na Liga Alemã terminou a primeira volta na liderança. Saiu em 2011, em desacordo com a direção, após a venda de Luiz Gustavo ao Bayern Munique, assumiu o Schalke 04 de Manuel Neuer, Huntelaar e Raul. Ganhou uma Taça da Alemanha e rescindiu contrato alegando princípio de burnout.

Estávamos em 2012: ano em que a carreira de Rangnick voltou a viver uma fase marcante.

O treinador foi desafiado pela Red Bull para uma nova aventura, assumir a direção desportiva do Salzburgo e do Leipzig. A partir daí a história destes dois clubes nunca mais foi a mesma.

«Quando eu cheguei tinha muito claro o que precisávamos de fazer: tínhamos de focar-nos não só em ganhar títulos, mas também em desenvolver jogadores. Em procurar e desenvolver jogadores jovens, para vendê-los com um grande lucro. O Salzburgo, por exemplo, ganhava o título austríaco de forma consistente, mas não era uma equipa empolgante. A única venda relevante que tinha feito foi Marc Janko para o Twente por 7 milhões de euros.»

Rangnick criou então a filosofia dos três C’s: conceito, competência e capital.

«Em primeiro lugar, tínhamos de implementar um ADN específico, particularmente no estilo de futebol que queremos que a equipa jogue e que seja facilmente reconhecível por todos. Em segundo devíamos encontrar as melhores pessoas para cada trabalho, garantindo competência em todo o clube. E por fim o dinheiro é fundamental. Não há dúvida de que o apoio financeiro da Red Bull nos permitiu implementar a filosofia que queríamos.»

O sucesso do Leipzig e do Salzburgo foi quase imediato e os dois clubes tornaram-se referências no futebol europeu. Não só pelo êxito desportivo, mas também pela capacidade de projetar grandes craques: nomes como Sadio Mané, Haaland, Naby Keita, Timo Werner, Upamecano, Konaté, Sabitzer, Szoboszlai, Patson Daka, Kevin Kampl ou Haidara.

«Felix Magath dizia que ‘a tática é uma coisa para maus jogadores’. Felizmente para a Bundesliga, essa atitude mudou. Muitas das equipas que enfrentámos com o Leipzig jogam uma versão de um jogo de pressão. Muitas das coisas que eram revolucionárias há dez ou quinze anos, tornaram-se padrão», adiantou Ralf Rangnick ao The Coachs’ Voice.

O novo treinador do Man. United é um adepto declarado do futebol de pressão alta e pujante: o heavy metal que Klopp tornou famoso. Diz que quanto mais agressiva e intensa for a equipa na recuperação da bola, melhor vai transportar essa intensidade para o contra-ataque.

«Às vezes as equipas estacionam dois autocarros em frente à nossa baliza e obrigam-nos a ter muita posse de bola, o que torna mais difícil acelerar o ritmo e criar oportunidades de golo. Se tens muita posse de bola, o teu jogo fica parecido com o andebol e não chegas a ludo nenhum. Por isso preferimos fazer passes arriscados, correndo o risco de falhar, porque isso dá-nos a possibilidade de atacar a segunda bola.»

Ralf Rangnick fez um estudo no Leipzig que permitiu perceber que mais de 60 por cento dos golos da equipa acontece nos dez segundos a seguir a recuperar a bola.

«Como diz o meu grande amigo Jurgen Klopp, o futebol é heavy metal e não música clássica. Detesto passes para o lado ou para trás. Ter a posse de bola só por si não faz sentido.»

Na Alemanha diz-se que o novo técnico do Man. United foi o homem que inspirou a nova geração de grandes treinadores alemães: Jurgen Klopp, Thomas Tuchel, Julian Nagelsmann.

«O mais importante é estar bem ciente do futebol que queres jogar. E não falo de um bocadinho disto, um bocadinho daquilo, um bocadinho de pressão. Vá lá, o que é um bocadinho de pressão?  Um bocadinho de pressão é como um bocadinho de gravidez. Ou estás grávida ou não. Ou queres jogar de forma pressionante ou não. Por isso a ideia deve estar totalmente presente na tua cabeça. Para desenvolveres a tua equipa deves ter uma noção clara: que tipo de futebol quero jogar?»

Ralf Rangnick gosta de jogar um futebol feito de intensidade, pressão e velocidade.

«O mais fascinante é ver como o jogo de transição se desenvolveu. Muita coisa acontece nos oito a dez segundos após a bola ser ganha ou perdida. Esses momentos decidem os jogos e grande parte do nosso treino é dedicado ao movimento sincronizado dos jogadores», referiu.

«Há cinco anos, era impossível que um treinador de atletismo me dissesse quantos metros e a que velocidade a minha equipa devia correr nos treinos. Mas a verdade é que hoje os treinadores de atletismo são responsáveis ​​por planear toda a semana em função da intensidade de cada dia.»

No Leipzig, para aumentar a velocidade do jogo da equipa, foi criada uma soccerbot: uma máquina que permite aos jogadores simular e reviver mentalmente jogos anteriores.

«Se quero aumentar a velocidade do meu jogo, terei que desenvolver mentes mais rápidas em vez de pés mais rápidos. Melhorar a velocidade significa aceitar as coisas mais depressa, analisá-las mais depressa, decidir mais depressa e agir mais depressa. Por isso na Red Bull trabalhámos para aumentar o espaço de memória e o ritmo de processamento do atleta.»

O desenvolvimento dos jogadores é, aliás, a pedra de toque em que assenta toda a filosofia de trabalho de Rangnick. Mas antes de chegarmos lá, há um terceiro aspeto que é preciso referir.

«A experiência também me ensinou que os jogadores precisam de regras claras. Mas não é suficiente dizer-lhes o que devem e o que não podem fazer. Tens que convencê-los de que seguir as regras é bom para eles. O balneário precisa de comprar isso», diz.

«Se isso acontecer, o próprio balneário vai garantir que os jogadores se mantenham na linha. A pressão dos pares é mais forte do que a pressão do chefe.»

Ora aqui chegados, voltamos atrás para sublinhar que o desenvolvimento dos jogadores é a pedra de toque de Rangnick. É o próprio quem o garante, ou não fosse ele um professor.

«As táticas, o trabalho físico e as regras são extremamente importantes, mas são apenas o meio para um fim. O meu trabalho, o que eu faço, é melhorar os jogadores. Os jogadores seguem-te enquanto treinador se sentirem que os tornas melhores. Essa é a maior e mais sincera motivação que existe.»

A partir de agora estas ideias chegam ao Man. United, um clube debilitado por anos e anos de maus resultados, que retirou aos jogadores a capacidade de render tudo o que podem.

Incluindo Cristiano Ronaldo.

Será que o professor consegue fazer de Ronaldo, aos 36 anos, um jogador melhor?

 

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