"Em dois anos, Putin vai arrepender-se muito do que está a fazer" (entrevista)

Lina Santos , enviada especial a Londres
21 set, 16:00
Iain Begg (Getty Images)

Iain Begg, professor no Instituto Europeu na London School of Economics e especialista em política económica da integração europeia e governo da União Europeia, faz o retrato dos desafios que o Reino Unido enfrenta após o luto pela morte da rainha Isabel II, três anos de governo de Boris Johnson e mais de seis meses de guerra. 

No dia em que a rainha Isabel II morreu, Liz Truss, a nova primeira-ministra do Reino Unido, anunciou que haveria um novo teto na fatura da eletricidade: 2500 libras anuais (2860 euros). Após este longo período de luto, o Reino Unido vai acordar para dificuldades. Esperam-se anúncios estes dias, mas há críticas ao facto de estar a demorar tanto tempo. 
Mas a Liz Truss está no lugar apenas há duas semanas e já anunciou que vai haver um significativo pacote para as famílias e as empresas. O que contradiz completamente a propaganda da sua campanha [para primeira-ministra] que era dizer que era uma campeã do mercado. Depois, a primeira medida é intervir completamente no mercado. Sabemos que o pano de fundo disto são os preços a subirem. Menos se comparados com as previsões de há apenas um mês, quando se dizia que ia duplicar, mas ainda assim mais do que há um ano. 

Há um ano existia um teto?
Há um sistema de tetos que periodicamente se ajusta aos preços do gás, mas sempre se manteve num nível relativamente moderado, de mil libras por ano (1145 euros por ano). A transformação é que com o enorme aumento nos preços do gás vem a obrigação do regulador de aumentar o teto. O que nos foi dito é que haverá um grande aumento por agregado famíliar que pode chegar a cinco, seis mil libras, portanto 2500 libras é um aumento mas será ainda assim melhor e mais fácil de lidar. Entretanto, o preço do gás diminuiu nas últimas duas semanas, o que significa que o preço de subsidiar é menor. Portanto, não é como se a Liz Truss não tivesse feito nada. Isto já está anunciado. Entretanto, foi também anunciado um "evento fiscal", no qual o Tesouro [Ministério das Finanças] está a trabalhar. Tanto pode ser dirigido a famílias como a empresas. Pode ser uma supressão ou baixa no valor pago à Segurança Nacional (Segurança Social), que foi um assunto importante durante a campanha de Liz Truss. Também pode ser uma redução nos impostos. A única coisa certa agora é que haverá alguma coisa na sexta-feira. Repito: uns dias não vão mudar a situação. Agora podemos perguntar se estas medidas são boas para a economia e é aí que coisa começa a ficar complicada. 

Porquê?
Ao anunciar um novo teto, as pessoas consomem mais. Aumentam a temperatura e o consumo de energia em vez de comprarem camisolas. Portanto, o que tem de fazer é anunciar o que tem de anunciar e lidar com as consequências mais tarde. Teremos de lidar com o eventual crescimento da dívida pública, que está atualmente em cerca de 100%. Se subir será mais caro financiar a dívida porque os mercados vão começar a introduzir um prémio específico do país e  ao mesmo tempo há a preocupação de que a inflação não esteja a ser suficientemente abordada. Se estimulamos a procura, o que estamos a fazer é acentuar a inflação. Acresce que Liz Truss fez todo o tipo de promessas.

E agora recuou. 
É preciso ver para quem ela estava a falar. Ela estava a dirigir-se aos membros do partido. Agora está no poder, portanto, vai enfrentar a realidade e ao mesmo tempo tentar criar um caminho para 2024 [ano das eleições]. E terá de o fazer rapidamente se quer resgatar o partido conservador da bagunça em que o deixou o Boris Johnson. Se em ano e meio a inflação não tiver descido, isso são péssimas notícias para um partido conservador – são incompetentes como governo. Ela também fez promessas como aumentar os gastos com defesa, em 2 ou 3% do PIB, o que pode demorar anos a acontecer. Prometeu fazer alguma coisa no sistema de saúde, que será oneroso. Há um assunto não resolvido relacionado com as eleições de 2019 em que o partido conservador prometeu fazer muito mais em termos de assistência social, o que está relacionado com os serviços de saúde - parte do problema do sistema de saúde é que as pessoas mais velhas bloqueiam camas porque não encontram cuidados continuados. É uma acumulação de problemas, de problemas e promessas que ela fez ao eleitorado e promessas que ela terá de fazer no futuro ao eleitorado. 

O Banco Mundial avisou para uma recessão global. 
Não é improvável. Os EUA estão à beira da recessão, a Europa continental e o Reino Unido também. Depende do que aconteça com a crise de energia, mas parece-me que, em dois anos, Putin vai arrepender-se muito do que está a fazer agora com o gás, porque há uma aceleração do desligamento, especialmente em países como Alemanha e Itália. Ele está a sequestrar-nos e não queremos estar nessa posição nunca mais, portanto duplicámos o número de moinhos de ventos e energia solar. No caso da Alemanha, não fecharam as centrais nucleares, até voltaram ao carvão por um breve período. Estão a ser criados os incentivos para nos afastarmos desse cenário de dependência da Rússia. Não vamos voltar atrás. Mas, vejamos o contexto britânico: o Reino Unido é muito menos dependente de gás russo do que se possa pensar e já não usa petróleo russo. Podemos viver sem o gás russo. A questão não é a disponibilidade, é o preço. Há interconectores entre o Reino Unido e os Países Baixos, Noruega e outros países para gás. A eletricidade vem de França. Tradicionalmente, a França fornece eletricidade durante o inverno e é ao contrário no verão, quando desligam as centrais deles para manutenção. Portanto, há formas do Reino Unido ultrapassar a situação, com menos danos do que outros países, exceto pela inflação.  A dificuldade é que o tabelamento do preço da energia está muito ligado ao gás, até o da eletricidade, embora o gás seja geralmente proporcionalmente menor, o que afeta o Reino Unido e, internamente, os negócios. Mas o Reino Unido não consome tanta energia como a Alemanha, por exemplo, porque temos menos indústria. 

Qual é o peso da indústria na vossa economia?
É 9% GDP [equivalente ao Produto Interno Bruto em Portugal]. Na Alemanha é o dobro. E na República Checa é 25%. Em Portugal será baixo, porque têm muito turismo e não serão tão afetados porque o turismo não faz um uso tão intensivo da energia. Portanto, a intensidade [do uso da energia que a Alemanha enfrenta] é crítica sobretudo na indústria química, entre outros setores, mas não afeta tanto o Reino Unido. 

É bastante otimista, no fim de contas.
Não diria otimista, porque há embates negativos do Brexit, ainda. A frição entre a Europa Continental e o Reino Unido acrescenta à crise e vai haver competição por energia. Um país como a Alemanha vai andar pelo mundo a dizer "posso ter a vossa energia?". Itália já o está a fazer em África, particularmente na Argélia e no Qatar. Essa competição vai, potencialmente, levar a mais crise. Portanto, diria, será um problema de um ano ou dois. Para lá disso, a Europa como um todo e, provavelmente, o Reino Unido poderão ver raios de sol. Mas têm de gerir estes dois anos de crise. Portanto, se as políticas da Liz Truss resultarem numa dívida pública de 110%, quem se importa?

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