Cristãos, críticos da monarquia, militares, estrangeiros. Isabel II provocou "explosões de emoção" e juntou-os na despedida em Hyde Park

Lina Santos , enviada especial a Londres
19 set, 19:03
Hyde Park despede-se da rainha Isabel II

Hyde Park foi uma amostra de como o Reino Unido se despediu da rainha no dia funeral

Silêncio. Um parque inteiro, ao ar livre e ao sol, sentado na relva e virado para um dos cinco ecrãs instalados nesta zona de Hyde Park, cala-se quando a família real britânica dá os primeiros passos para o interior da abadia de Westminster para o funeral de Isabel II. Os telefones captam o funeral e os momentos insólitos: um homem acena para o ecrã com uma bandeira do Reino Unido e um ramo de flores. 

Quando a cerimónia começa, e sem que nenhuma ordem seja dada, uma atrás da outra, as pessoas levantam-se para ver o caixão cruzar a nave central do edifício. A música ecoa, forte, as mãos juntam-se à frente do corpo com quem está na missa. 

"A rainha serviu até ao fim"

“Também somos cristãos e sempre admirámos esse lado dela, a maneira pública como sempre expressou a sua fé”, diz Ben Pugh, professor de teologia numa universidade de Manchester. “Ela mostrou-se sempre muito orgulhosa da sua fé”, acrescenta Pearl, a mulher, dietista e investigadora. 

Sentados numa manta numa das primeiras filas de um dos ecrãs do parque com dois dos três filhos, fizeram uma viagem de três horas de autocarro desde Nottingham para poder estar em Londres no dia do funeral da rainha. “Desatei a chorar, que acho que foi o que nos inspirou a vir aqui”, diz Ben Pugh. 

“Acho que fiquei muito comovida com a explosão de emoção do meu marido”, diz Pearl, olhando para Ben. “Estou autorizada a dizer?”, pergunta. “Ele disse que até chorou mais do que quando a própria mãe morreu”. Chegaram na segunda, esperançosos de ainda encontrar um espacinho na avenida The Mall para os quatro, o que se revelou tarefa impossível. 

Terminado o funeral, quando a urna já circula de carro pelas ruas de Inglaterra a caminho de Windsor, um homem ruivo, com sardas, de calças, pulôver e gravata pretos chama a atenção. Ainda parece comovido. E está, confirma. “Veja-se como em vez de ter alguém a fazer uma elegia, como aconteceu no funeral de Diana, toda a cerimónia foi sobre fé e como os militares lá estiveram. Foi menos sobre ela e mais sobre as pessoas que liderava”, diz, de braço dado com a mulher, Rosemary. 

“Serviu até aos 96 anos, todos os dias, quando tantos britânicos já estão reformados e agora esta cerimónia…”, afirma Rosemary, com a voz a tremer. “Serviu até ao fim”. 

Dois (curtos) minutos de silêncio

Atrás dos óculos escuros gigantes, Jackie Ovington, 43 anos, de Portsmouth, conta à CNN Portugal o que já era evidente para quem a viu ali, fixa no ecrã. “Senti-me realmente comovida”. E o momento que o espoletou foi ver os marinheiros caminharem com a urna de Isabel II. Enquanto fala, ouve-se a parada militar. São disparados tiros de canhão. 

Jackie veio até Hyde Park com o marido, os filhos e um grupo de amigos, entre elas Julie, para quem ver os netos e os bisnetos da rainha foi tão comovente como os dois minutos de silêncio que se fizeram no final da cerimónia, que foram esmagadores. “Podia ouvir-se um alfinete a cair, não era?”.

 

A solenidade com a que cerimónia foi vivida em Hyde Park foi inesperada. Minutos antes, trocavam-se snacks e bebidas sobre mantas, pondo sapatos e casacos de lado. Com lojas, cinemas e outros locais encerrados, o parque era o único sítio onde passar o dia, contam três raparigas e um rapaz franceses que aproveitaram a folga para estarem juntos. A rainha foi o pretexto, mas ver o presidente francês entrar na abadia de Westminster causou frisson. “É o Macron!”, dizem uns aos outros. “Com a Brigitte”, acrescentam, em uníssono. 

“Também queremos ver o nosso rei”, dizem duas jovens norueguesas que, a passo acelerado, procuravam a entrada para Hyde Park cerca das 09:00. Deviam começar esta segunda-feira na universidade de Ravensbourne, mas a história apanhou-as no lugar certo à hora certa. Henriette mudou-se para Londres há duas semanas, Sunneva há apenas uma. Num encontro para alunos internacionais da universidade, onde uma vai estudar moda e a outra marketing digital, dizem que perceberam logo que eram escandinavas.

“Conheço muita gente que não quis vir, mas a mim não me passava pela cabeça não estar aqui”, diz Henriette. “Estávamos agora a dizer isso. Daqui a uns anos vamos poder dizer que vimos juntas este momento”. E a universidade, que devia começar hoje, só arranca amanhã.

“Conheci William e Harry na academia militar”

Na multidão, entre muitas pessoas trajadas de preto para a ocasião, sobressaem homens com boinas e casacos com medalhas ao peito. Matthew Arlow, 47 anos, de Hampshire, é um deles. “Dei 29 anos, quase toda a minha vida adulta, a servir a rainha e o país. Não estar aqui seria trágico”, garante, enquanto toca nas medalhas. 

Está reformado desde setembro, mas ao longo da carreira, esteve com a rainha três vezes e contactou com todos os membros da família real, exceto Andrew. Na Real Academia Militar de Sandhurst, foi instrutor de William e Harry, duas personalidades que lhe deixaram impressões completamente diferentes. “Harry foi cadete, sabia o que tinha de fazer, e apesar de ter muita proteção, fazia e era muito conservador. William é mais conservador, muito mais retraído, fazíamos uma pergunta e ele parava para pensar na resposta. Tem de ser mais cauteloso com as palavras, mas são ambos grandes soldados, com excelentes carreiras. William juntou-se ao exército e foi bom vê-lo com o uniforme”. 

Entre os milhares de pessoas que vieram prestar homenagem, também há quem confesse que não é “um grande monárquico”. “Se começássemos a desenhar um país agora talvez não o fizéssemos assim e agora chegou o momento de nos fazermos algumas perguntas. A Escócia pode deixar o Reino Unido, o País de Gales, de onde sou, também… É preciso pensar”, diz Steve Brooks, 45 anos, membro do partido Trabalhista, consultor político e crítico. “Gosto da ideia de um Reino Unido, não funciona ter todo o dinheiro e poder concentrados em Londres”. 

Steve Brooks veio de Cardiff com o namorado, e explica que na cidade galesa “há menos respeito e deferência para com a rainha. “O rei esteve lá e ouviram-se protestos”. Depois de duas semanas de governo sem escrutínio, diz que “amanhã, a vida continua”.

A política intromete-se na conversa, mas não interfere na vontade de partilhar aquele momento, “de humanidade, em que todo o país se une”. E, remata, “isto vai estar cheio de monárquicos convictos”. Estava mesmo.

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