Apagão. Como é que o rádio a pilhas continua a funcionar quando tudo o resto falha?

2 mai 2025, 16:12
Rádio (Alex Zea/Europa Press via Getty Images)

Portugal parou. A luz foi abaixo, os telemóveis silenciaram-se, a internet desapareceu. Num país às escuras, como nos informamos quando tudo falha? A resposta não veio dos ecrãs. No meio do apagão, foi a rádio que resistiu

Na segunda-feira, Portugal mergulhou na escuridão. Um apagão total deixou milhões de pessoas sem eletricidade. Telemóveis sem rede, internet sem conexão, televisões desligadas. E, de repente, a pergunta: como é que nos mantemos informados?

A resposta não veio dos algoritmos nem das grandes plataformas. Veio do passado. Ou talvez nunca tenha saído do presente. Num mundo ultradigital, foram os pequenos rádios a pilhas, esquecidos numa prateleira ou no fundo de uma gaveta, que mantiveram viva a comunicação e que não nos deixaram sozinhos. Mas qual é a explicação que está por detrás disto?

A "arma secreta"

Manuel Pereira Ricardo, diretor do Departamento de Engenharia Eletrotécnica e de Computadores da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, explica que a chave está na simplicidade tecnológica.

“Um rádio a pilhas só recebe. Gasta pouquíssima energia, apenas o necessário para desmodular e decodificar o sinal de voz. O consumo é tão baixo que pode funcionar durante 50 horas ou mais. Se só for usado para ouvir os noticiários, dura dias ou até semanas”, diz o especialista à CNN Portugal.

Enquanto isso, o SIRESP (Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança de Portugal) e as principais operadoras móveis ficaram comprometidos. 

“A bateria de um sinal do SIRESP ou de um terminal 5G consome muita energia. Estão sempre ativos, com receção e emissão constante, e exigem uma rede complexa e densa que não resiste bem a falhas prolongadas de energia”, observa Manuel Pereira Ricardo.

As infraestruturas também contam - e muito. Enquanto a cobertura móvel exige milhares de pequenas antenas distribuídas por todo o território, a rádio funciona com "meia dúzia" de grandes emissores estrategicamente colocados.

“A Antena 1, por exemplo, tem transmissores de 10 a 50 quilowatts, instalados em locais muito bem localizados como o Monte da Virgem ou Monsanto. Cada um cobre áreas vastíssimas. São projetados para resistir, com geradores permanentes que entram em ação automaticamente em caso de falha elétrica”, aponta.

O sistema FM cobre o país com cerca de 50 antenas, o SIRESP tem cerca de 500, as redes móveis mais de cinco mil. Perante uma falha como a de segunda-feira, manter todas operacionais é logisticamente quase impossível, sublinha o professor.

"Quando estas antenas ficam sem energia, conseguem funcionar durante algum tempo, mas ao fim de meia dúzia de horas, um operador de telecomunicações não tem possibilidade de 'correr' a estas antenas todas e manter a cobertura", esclarece o especialista. 

O sistema que resiste quando tudo falha

Para Luís Bonixe, professor e investigador na área da rádio, o apagão veio lembrar-nos que apesar de a rádio ser um meio de comunicação mais antigo e menos complexo, quando comparado com os restantes, "é resiliente em momentos de crise" e "não falha às populações" quando mais precisam.

A aparente fragilidade tecnológica do rádio é, na verdade, a sua "arma secreta", considera o investigador, em declarações à CNN Portugal. Não depende de cabos de fibra ótica, de milhões de linhas de código ou de redes densas de antenas, mas é ele que permanece quando tudo o resto falha.

“Basta uma antena, alguns cabos e está a funcionar. Foi assim que surgiram as rádios piratas nos anos 70-80, por exemplo. Hoje, essa simplicidade garante-nos comunicação em momentos críticos”, lembra Luís Bonixe. 

Enquanto os ecrãs apagavam e o sinal desaparecia, a rádio continuava a emitir.

Para Manuel Pereira Ricardo, não há dúvidas: "Um cidadão comum tem de ter um rádio a pilhas. É absolutamente fundamental.”

“Num momento de crise, a rádio reduz o medo, reforça a coesão social e evita o caos”, concorda Luís Bonixe. “Quem ouviu rádio na segunda-feira percebeu que havia resposta, que algo estava a ser feito e isso fez diferença. Se mais pessoas tivessem ouvido, se calhar não tinham ido a correr para os supermercados e feito as filas que fizeram porque lá está, algumas pessoas estavam assustadas... e desinformadas.”

No entanto, o investigador deixa o alerta: não nos podemos lembrar da importância deste meio de comunicação só quando tudo falha. O setor da rádio precisa de apoio e de atenção constante. Não só em crises, mas todos os dias.

"É preciso preservar, apoiar, investir. Temos centenas de rádios em Portugal que vivem no limite. É um setor muito esquecido no dia-a-dia e depois nestes momentos é que nos lembramos que é capaz de ser importante", conclui. 

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