Prestianni pode ser punido com dez jogos de suspensão

18 fev, 12:57
Confusão entre Prestianni e Vinicius (Photo by PATRICIA DE MELO MOREIRA / AFP via Getty Images)

Maior parte dos casos de racismo no futebol são provenientes das bancadas, mas em 2020 houve um caso semelhante com Neymar que não resultou em qualquer castigo

Gianluca Prestianni pode vir a ser alvo de uma pesada sanção, que pode ir até dez jogos de suspensão, caso a UEFA dê como provadas as acusações de Vinicius Junior, no decorrer Benfica-Real Madrid da última terça-feira. Mais um caso entre os muitos casos de racismo que têm marcado os jogos de futebol nos últimos anos, mas a grande maioria dos insultos racistas chega das bancadas e não há muitos casos entre jogadores. Houve um em 2020, com Neymar, exatamente com o mesmo insulto [mono], mas, além de um grande debate, não resultou em castigo.

Começamos pelos factos, ou seja, pelo que toda a gente viu na terça-feira à noite no Estádio da Luz. Prestianni, com a camisola a tapar a boca, dirige-se a Vinicius que, de imediato, corre para o árbitro François Letexier, a acusar o adversário de o ter chamado de «mono» [macaco em espanhol].

O árbitro reagiu consoante o que está determinado pelos regulamentos da UEFA, nestes casos, ativando o protocolo antirracista: fez um sinal em cruz, cruzando os braços junto à zona dos pulsos e suspendeu de imediato o jogo. A partir daqui o árbitro tem duas possibilidades, segundo o anexo B do regulamento de segurança da UEFA, ou mantém a suspensão por alguns minutos ou interrompe mesmo o jogo de forma definitiva.

No caso em questão, a interrupção durou oito minutos. Não foi feita qualquer advertência dirigida aos adeptos, uma vez que, neste caso, o insulto terá vindo de um adversário, mas o árbitro falou depois pessoalmente com Prestianni e, ao que tudo indica, terá recebido garantias de que o incidente não se ia repetir.

A verdade é que o jogo recomeçou, com os adeptos, muitos deles sem terem percebido o que se passou, a assobiarem o jogador brasileiro. Caso os insultos tivessem vindo das bancadas, o árbitro faria primeiro uma advertência e, caso os insultos voltassem a ser repetidos, podia mesmo dar o jogo com finalizado, com derrota para a equipa da casa.

No caso da Luz, o jogo foi retomado e foi mesmo concluído, com a vitória do Real Madrid por 1-0, mas os incidentes vão estar, com certeza, referidos no relatório do árbitro e a UEFA terá forçosamente de abrir uma investigação aos incidentes, como aliás já o fez. Caso fique comprovado que Prestianni dirigiu mesmo insultos de teor racista a Vinicius, o que pode ser feito com recurso a testemunhos, o jogador argentino incorre numa pesada pena que, como já dissemos, pode ser de dez jogos.

«Qualquer pessoa [...] que atentar contra a dignidade de outra pessoa por qualquer motivo, incluindo a cor da pele, religião ou origem étnica, estará sujeita a uma suspensão de pelo menos dez jogos por um período determinado, ou qualquer outra sanção apropriada», lê-se no Artigo 14, referente ao racismo, outros comportamentos discriminatórios e propaganda.

Vinicius Junior recorreu às redes sociais para considerar este protocolo da UEFA «não serve para nada». «Eu recebi um cartão amarelo por comemorar um golo. Ainda sem entender o porquê disso. Do outro lado, apenas um protocolo mal-executado e que de nada serviu», atirou.

Gianluca Prestianni, por seu lado, também recorreu às redes sociais, garantindo que foi mal interpretado por Vinicius e nunca fez qualquer insulto racista. «Quero esclarecer que em nenhum momento dirigi insultos racistas a Vinicius Júnior, que lamentavelmente interpretou mal o que acredita ter escutado. Nunca fui racista e lamento as ameaças que recebi dos jogadores do Real Madrid», destacou o jogador argentino do Benfica.

Maior parte dos casos de racismo vêm das bancadas: de Vinicius a Balotelli

As últimas temporadas têm sido marcadas por vários casos de racismo no futebol, alguns deles bem mediáticos, mas a grande maioria dos registos apontam para insultos racistas provenientes das bancadas, dirigidas a um jogador em particular. Casos entre jogadores são muito raros, mas o caso de Prestianni não é caso único.

Vinicius Junior, por exemplo, já foi alvo de vários insultos de teor racista em jogos da liga espanhola, com vários casos, entre 2022 e 2024, com um exemplo mais mediático no Estádio Mestalla, que acabou com a condenação de três adeptos do Valencia, mas o caso repetiu-se depois noutro jogo com o Valladolid.

Antes de Vinicius, Mario Balotelli também já tinha sido perseguido em Itália. A par da liga espanhola, a Série A italiana tem registado vários casos de racismo, particularmente desde 2019, em que houve casos com Romelu Lukaku, Franck Kessie, Dalbert Henrique, Miralem Pjanic, Ronaldo Vieira, Kalidou Koulibaly e Mario Balotelli.

Além das bancadas, Balotelli também foi insultado por um dirigente, neste caso, Massimo Celinno, presidente do Brescia, num comentário jocoso à margem de uma reunião da liga italiana. «O que se passa com Balotelli? Passa-se que ele é negro, o que é que vos posso dizer? Ele trabalha para ficar mais branco, mas tem muitas dificuldades», atirou. Palavras que deixaram o futebol italiano, mais uma vez, de pernas para o ar.

Nesta mesma época, Balotelli foi alvo de vários cânticos de teor racista e, num deles, frente ao Verona, o jogo chegou mesmo a ser interrompido, depois do avançado ter ameaçado deixar o relvado.

Neymar também foi chamado de «mono» em 2020

No que diz respeito a casos entre jogadores, houve um que deu que falar em 2020, no decorrer de um jogo entre o Paris Saint-Germain e o Marselha. Neymar veio a público denunciar que tinha sido alvo de insultos racistas da parte do defesa espanhol Álvaro González, acusando o adversário de o ter chamado de «macaco» no decorrer do jogo, num caso em tudo idêntico ao de Prestianni.

Um caso que, na altura, reforçou o debate sobre o racismo, mas que não resultou em qualquer castigo. A Ligue 1 abriu um inquérito, mas não conseguiu reunir provas para punir o jogador do Marselha e o caso foi encerrado sem grandes consequências.

Caso Marega em Portugal

Em Portugal também já houve vários casos de racismo, quase todos provenientes da bancadas, como aconteceu com Marega, jogador do FC Porto, no Estádio D. Afonso Henriques, a 16 de fevereiro de 2020.

O Vitória foi, numa primeira fase, condenado a três jogos à porta fechada (cumpridos no decorrer da pandemia) e multado em 53.300 euros.

O castigo foi, no entanto, mais tarde anulado uma vez que o Tribunal Arbitral do Desporto considerou que «não ficou demonstrado que o Vitória tenha promovido, ou sequer consentido ou tolerado os cânticos racistas em questão, pela simples razão de que não ficou provado, nestes autos, que o Vitória tenha tido um conhecimento efetivo e/ou atempado da ocorrência dos factos em causa, que lhe permitisse encetar uma reação efetiva aos acontecimentos em tempo útil».

«Conguitos» de Bernardo Silva também deram castigo

A UEFA e as federações de cada país têm vindo a reforçar as sanções em relação a casos de racismo, com a política de «tolerância zero», e o caso de Bernardo Silva, em novembro de 2019, é bastante elucidativo.

O internacional português fez uma publicação nas redes sociais com uma imagem do colega de equipa Benjamin Mendy, ainda em criança, acompanhado por uma ilustração da figura dos chocolates Conguitos, com a pergunta «adivinhem quem é?».

Foi apenas uma brincadeira entre dois amigos [já tinham jogado juntos no Monaco], mas a federação inglesa classificou o caso como «conduta imprópria» e puniu Bernardo Silva com um jogo de castigo e uma multa de 58 mil euros.

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