O maior evento académico da capital caiu por terra entre acusações à Câmara Municipal, falta de apoios e uma licença que permitia música apenas até à 01:00. A organização fala em "entraves" e "pressão insustentável", enquanto a autarquia rejeita responsabilidades e garante que as condições eram conhecidas desde março
Faltava menos de uma semana para o arranque da Queima das Fitas de Lisboa, quando a organização anunciou este domingo o cancelamento do evento marcado para os dias 15 e 16 de maio, no Estádio Universitário de Lisboa. A decisão foi comunicada através de um vídeo publicado nas redes sociais pelas entidades organizadoras - a Federação Académica de Lisboa (FAL) e a Federação Académica do Politécnico de Lisboa (FAIPL) - que apontam "dificuldades e entraves" que tornaram inviável a sua realização.
Em declarações à CNN Portugal, o presidente da FAIPL, Jaden Gomes, aponta diretamente o dedo à Câmara Municipal de Lisboa, acusando o município de não ter disponibilizado qualquer apoio financeiro para o evento, ao contrário do que acontece noutras cidades académicas do país.
"Não tivemos nenhum apoio financeiro por parte da Câmara Municipal de Lisboa. Nem um cêntimo", afirma.
Segundo a organização, a ausência de financiamento público acabou por agravar uma sucessão de dificuldades que já vinham a marcar a preparação do evento.
De referir que, ao contrário do que acontece em cidades como Porto ou Coimbra, a Câmara Municipal de Lisboa não costuma contribuir financeiramente para este tipo de eventos, não sendo este ano caso diferente do que tem acontecido no passado.
"Sem apoio da Câmara, tudo ficou mais difícil"
A Queima das Fitas é uma das maiores tradições académicas portuguesas e movimenta milhões de euros nas principais cidades universitárias do país. Só no Porto, Coimbra e Braga, as associações académicas investiram este ano cerca de 5,5 milhões de euros na organização dos festejos, contratação de artistas e logística.
Em Coimbra, onde a tradição nasceu no final do século XIX, o orçamento global ronda os 2,2 milhões de euros. A Câmara, liderada por Ana Abrunhosa, assegurou este ano 110 mil euros em serviços. No Porto, os valores previstos foram semelhantes aos de Coimbra, com a Federação Académica do Porto a destacar o "maior investimento de sempre" na segurança do recinto, estando previsto diariamente mais de 500 efetivos da PSP, Proteção Civil, segurança privada e bombeiros, apoiados por 12 torres de vigia e 100 câmaras de videovigilância.
Já em Lisboa, o cenário foi diferente. Segundo o presidente da FAIPL, toda a estrutura financeira assentava em "patrocínios, orçamento próprio e investimento direto" das federações académicas.
"Não nos podemos comparar com as outras regiões porque não temos o apoio que estas regiões têm. Houve 75 mil euros para o chic-nic, mas não há apoio nenhum para este evento. Sem apoio da Câmara, tudo ficou mais difícil", considera.
O peso da polémica da antiga Semana Académica de Lisboa
Um dos principais obstáculos identificados pela organização foi a associação feita por patrocinadores e parceiros à polémica Semana Académica de Lisboa de há dois anos, um evento marcado por cancelamentos, polémicas com artistas e dificuldades financeiras.
Os responsáveis sublinham, no entanto, que as estruturas organizadoras não têm qualquer ligação à antiga Associação Académica de Lisboa, entidade que entrou em insolvência no início de 2024. Foi precisamente após essa insolvência que a Federação Académica de Lisboa adquiriu os direitos sobre o nome "Queima das Fitas de Lisboa", tentando relançar um evento académico agregador na capital.
"Tivemos patrocinadores e artistas que recusaram trabalhar connosco com esse receio", revela o presidente da FAIPL.
Segundo o responsável, a desconfiança criada em torno dos eventos académicos em Lisboa fez disparar custos e dificultou negociações."As estruturas para trabalharem connosco aumentaram os preços para terem maiores garantias, tendo em conta o que aconteceu. Ou seja, os custos da organização são muito maiores e os apoios menores. Isto criou inevitavelmente uma grande pressão na organização do próprio evento".
Licença até à 01:00 foi "o golpe final"
Apesar das dificuldades financeiras, a organização garante que continuou a tentar encontrar soluções até aos últimos dias. Mas a situação tornou-se insustentável quando receberam a licença para o evento. Segundo a FAIPL, a autorização camarária permitia música apenas até à 01:00 e com limite sonoro de 85 decibéis.
Em comunicado enviado à redação da CNN Portugal, a Câmara Municipal de Lisboa (CML) rejeita qualquer responsabilidade pelo cancelamento da Queima das Fitas de Lisboa e diz ter recebido "com surpresa" a notícia da não realização do evento.
A autarquia explica que, tratando-se de uma zona com "recetores sensíveis", como o Hospital de Santa Maria e edifícios habitacionais, foi emitida uma Licença Especial de Ruído que autorizava música até à 01:00, condições que, segundo a CML, terão sido aceites pela organização numa reunião presencial realizada a 27 de abril.
A Câmara acrescenta ainda que, desde os primeiros contactos em março, terá alertado a organização para estes condicionalismos e indicado que, caso pretendesse um horário mais alargado, deveria procurar uma localização alternativa.
No entanto, à CNN Portugal, a organização contesta esta versão. Segundo a FAIPL, na reunião de 27 de abril nunca foi indicada qualquer hora limite para o evento.
"Disseram para vermos outros locais para fazermos o evento para que pudessem estender as horas. No entanto, não nos disseram horas. E, portanto, como já foi feito lá nesse mesmo espaço o Festival Académico de Lisboa há poucos anos, que se estendeu até às 03:00, partimos do princípio que isso seria a referência base", explica Jaden Gomes.
Os responsáveis dizem ainda que só tiveram conhecimento formal da limitação horária através de uma chamada telefónica recebida na terça-feira, 5 de maio. "Ligaram a dar nota que seria até à 01:00 com 85 decibéis", referem.
O presidente da FAIPL considera que esta limitação tornava impossível garantir um cartaz competitivo e um evento atrativo para os estudantes. "Em todas as outras regiões do país, as licenças são entre as 04:00 e as 06:00. Se nós acrescentamos esse fator de limitação de tempo, faz com que mesmo os próprios estudantes tenham menos vontade de ir ao evento", argumenta.
Segundo os responsáveis, avançar nestas condições poderia colocar em risco a sustentabilidade financeira das duas federações académicas.
"Cancelar o evento vai ter impacto financeiro em ambas as estruturas, isso é óbvio. Mas, se avançássemos com tantos condicionantes, o buraco ia ser muito maior."
"Estivemos durante vários meses a trabalhar arduamente por trás deste evento. Não era de todo o desfecho que queríamos e tentamos empurrar com isso ao máximo, daí, também, este anúncio ser tão perto da data. O que nós gostávamos de fazer era tentar encontrar uma solução para todos os problemas e foi o que nós fomos tentando fazer. No entanto, a questão do limite de horário é uma questão que só existe uma entidade que consegue resolver, que é a Câmara Municipal de Lisboa, e eles barrando aqui esse acesso não podíamos fazer nada. Não havia como dar a volta", justifica.
Organização rejeita críticas sobre "deturpar" a tradição académica
Nas redes sociais, o cancelamento desencadeou também críticas relacionadas com a utilização do nome "Queima das Fitas", com alguns estudantes a acusarem a organização de tentar substituir ou descaracterizar tradições académicas como serenatas e cerimónias protocolares. A FAIPL rejeita essas acusações e garante que o objetivo era precisamente unir uma academia que considera "fragmentada".
"A ideia deste evento nunca foi separar ou passar por cima das tradições. Era tentar juntar e acrescentar valor", afirma o dirigente estudantil.
Segundo explica, Lisboa continua marcada por divisões entre universidades, politécnicos e diferentes estruturas académicas, ao contrário do que acontece noutras cidades do país.
"Era pegar nesses pedaços que encontramos e não tentar reescrever a sua cultura e a sua história, mas tentar encontrar um momento para juntá-los todos num bolo único. A ideia foi sempre unir."
Reembolsos já estão a ser processados
A organização garante que os estudantes serão totalmente reembolsados pelos bilhetes adquiridos. Segundo a FAIPL, todo o dinheiro recebido foi devolvido à plataforma 3cket, que está agora a processar os reembolsos.
Apesar do desfecho, a organização garante que não pretende desistir da ideia de criar uma grande Queima das Fitas em Lisboa.
"Esperamos que sim", responde o presidente da FAIPL quando questionado sobre a possibilidade de regressar em 2026. "Esperamos voltar para o ano."
