A presidente orgulha-se de ter reduzido para zero o número de abortos legais no concelho. Também acabou com todas as atividades de planeamento familiar e a distribuição de contraceptivos, o que permitiu grandes poupanças à edilidade
Sabe aqueles sonhos marados de que tentamos sair e não conseguimos? Também vos acontece? Comigo envolvem frequentemente personagens e situações da política, o que suponho que sejam os chamados ossos do ofício. Não faz bem a ninguém andar o dia todo, há tantos anos, de roda dos acontecimentos políticos. Uma destas noites tive um sonho excecionalmente bizarro, por várias razões.
Primeiro, porque eu era outra vez jornalista (não o sou há dois anos, quando decidi devolver a carteira profissional – e não, não tem nada a ver com essa história de 2020 de que a Comissão da Carteira Profissional me teria retirado a carteira por estar em incompatibilidade porque fazia então um podcast para o PS. Recorri dessa decisão para os tribunais, que me deram razão, numa sentença que foi uma vergonha histórica para a Comissão da Carteira.)
Voltando ao dito sonho: eu era jornalista e estava a escrever uma reportagem sobre o primeiro ano de Rita Cid Matias como presidente da Câmara de Sintra. Sim, entendo o grau de absurdo que está contido na frase anterior, porque isso significa que uma maioria do eleitorado de Sintra teria escolhido para dirigir a segunda maior autarquia do país alguém que nunca teve um trabalho fora da política, entrou na política por nepotismo, nunca geriu coisa nenhuma e demonstra a cada oportunidade uma profunda ignorância sobre o mundo em geral. Suponho que não seja diferente com Sintra em particular – concelho onde nunca viveu, onde tem feito pouquíssima campanha, evitando sempre situações de exposição ao povo, preferindo sempre incursões rápidas em ambientes controlados.
Rita Cid Matias não tem sequer um programa eleitoral e, mesmo percorrendo as suas redes sociais, sempre tão elucidativas sobre o que pensa (digamos assim), não se encontram duas ideias para Sintra. Será candidata, portanto, adotando ao município as ideias gerais que defende para o país – é uma questão de tempo, portanto, até começar a atear ódios étnicos e a virar “portugueses” contra “imigrantes” –, e contará cavalgar a sua notoriedade nacional e os bons resultados do partido nas legislativas (convém lembrar que em maio o Chega venceu em Sintra com 27,9% dos votos; a coligação PSD/CDS-PP teve 23,7%, e o PS, que há 12 anos preside à autarquia, ficou nos 22,9%).
Não sei como isso aconteceu, mas neste sonho – talvez deva chamar-lhe pesadelo – Rita Cid Matias era mesmo a alcaide de Sintra. Quase tão inacreditável como isso, é que quando acordei me lembrava palavra por palavra da reportagem que tinha escrito. Conforme se segue:
Feito nº1: centros de deportação
Um ano depois da sua surpreendente vitória na corrida autárquica a Sintra, Rita Cid Matias não podia fazer um balanço mais positivo da experiência. Apesar de nunca antes ter tido qualquer experiência executiva, ou trabalho de gestão pública, de equipas, ou em geral, alguma atividade que não fosse trabalhar para o Chega, a edil garante que aprendeu imenso e voltou a superar as expectativas dos haters – prova disso, já sabe em que dia são as reuniões camarárias, já percebeu o funcionamento do executivo municipal, apesar de nunca deixar falar os vereadores do PSD a quem deu pelouros, já sabe que lidera cerca de 3500 funcionários (se incluirmos os mil professores do concelho) e já não hesita ao responder que o município tem dez freguesias, tal como dez são os cantos dos Lusíadas (na verdade são 11 freguesias, mas toda a gente compreende o arredondamento).
Questionada sobre as ações de que mais se orgulha neste primeiro ano à frente de uma município com 400 mil pessoas, um orçamento maior do que muitos ministérios, e sérios problemas urbanos, como habitação, mobilidade, emprego e vagas no sistema escolar e pré-escolar, Rita elege como sua primeira grande decisão a construção em Sintra do inovador “centro de deportação de imigrantes” – uma batalha dura do Chega, refere, mas que teve efeitos visíveis.
A exigência da construção de vários destes centros por todo o país foi levantada por André Ventura no verão de 2025, como condição para a viabilização do Orçamento do Estado. O PSD fez-se de caro, mas, como vai sendo hábito, o Executivo de Luís Montenegro acabou por aderir à ideia do Chega na hora de fechar o acordo orçamental.
Rita Cid Matias orgulha-se de ter conseguido para o seu concelho o primeiro destes centros, construído em tempo recorde, o que lhe permitiu começar um ambicioso programa de “remigração”. Em 2025, quase um quarto da população de Sintra (cerca de 83 mil pessoas, pelos números oficiais) era de origem não portuguesa, destacando-se brasileiros, cabo-verdianos, angolanos, guineenses e são-tomenses, por esta ordem. Na esmagadora maioria já tinham estatuto legal, ou já o tinham solicitado. Mas as novas políticas anti-imigrantes permitiram à autarca deter e “mandar para a terra deles” milhares desses cidadãos. Aliás, Matias já tinha avisado: “Não tenho dúvidas de que se vai colocar o tema [da remigração]”. Foi ela, enquanto autarca, a colocá-lo no topo da agenda.
Nem os estafetas de entrega de comida escaparam à ordem de “remigração”. Aliás, empresas como a Uber e a Glovo já quase não operam em Sintra. Só se safaram os brasileiros que comprovassem ser evangélicos.
Para além disso, a autarca deu ordem para tirar das creches de Sintra as crianças com nomes esquisitos de origem não portuguesa, como Samir, Maycon, Hameed ou Cid, “que nem falar português sabem”. Também não os deixou aprender: tirou-os das creches para dar lugar a “verdadeiros portugueses”. Algumas creches fecharam por falta de procura.
O teste da avó
Depois, nos restantes níveis de escolaridade, Rita implementou o chamado “o teste da minha avó”: “A minha avó cantava o hino nacional português todos os dias na sua escola. A minha avó falava português, não falava qualquer outro tipo de dialeto. A minha avó casou com alguém que serviu as Forças Armadas portuguesas, neste caso a Força Aérea e por isto, quando chega a Portugal, chega com a cultura portuguesa, com a noção de como estar e de como conviver sem ferir suscetibilidades” – esta história comovente foi contada numa entrevista ao jornal Sol, ainda antes das eleições, e Rita Cid Matias passou a sujeitar todos os alunos estrangeiros de Sintra às mesmas provas que a avó tinha superado.
O hino nacional podia ser cantado na versão dos Anjos, o que facilitava a tarefa; a utilização apenas de língua portuguesa revelou-se uma prova dura; mas a maioria dos jovens chumbaram na capacidade de casar com um oficial das Forças Armadas. Os rapazes nem tiveram essa hipótese, pois Rita Matias nem quer ouvir na “agenda LGBTI+”.
O resultado mais visível desta seleção quase natural foi o aumento de vagas nas escolas e creches de Sintra para “os verdadeiros portugueses”, mas também o aumento da “percepção de insegurança”, com bandos de jovens ociosos deambulando pelas ruas. Rita Matias já reuniu com a ministra da Administração Interna, a quem propôs algo a que chamou “Operação Benformoso”, de contornos ainda desconhecidos.
A detenção forçada de inúmeros imigrantes de Sintra com vista à “remigração” provocou uma onda de protestos de associações civis e dos partidos à esquerda do PSD, mas a autarca tinha a resposta preparada: “Tenho pena que o que tenha chocado aqui não seja a falta de oportunidades que estão a ser dadas às famílias portuguesas e aos filhos portugueses, mas seja apenas este fetiche que uma certa elite caviar tem de proteger os aparentemente mais desfavorecidos e não os portugueses que estão a sofrer com a falta de serviços públicos e a falta de capacidade de infraestruturas que temos, que é evidente, que é estrutural.”
Imitando o ICE, de Donald Trump, na caça ao imigrante, Rita Matias provocou polémica, mas também cantou vitória: mais casas disponíveis no concelho de Sintra, mais vagas nas escolas, mais espaço nas carruagens da linha de Sintra. Também houve revezes, que a autarca desvaloriza, como o encerramento de muitos restaurantes, hotéis, fábricas e produções agrícolas do concelho, por falta de mão de obra.
Como o Oeste foi conquistado
Contra ventos e marés, a jovem autarca declarou ontem, ao invocar a vitória de há um ano: “A batalha pelos valores conservadores é uma batalha do Oeste. Porque, meus amigos, eu ainda acredito no Oeste. Não apenas como espaço geográfico, mas como civilização. Uma civilização nascida da fusão da filosofia grega, lei romana e valores cristãos. Quando dizemos Oeste definimos uma forma de entender o mundo em que a vida é sagrada. Esta é a nossa herança e nunca pediremos desculpa por isso. Esta civilização ainda pode orgulhar-se de si e do seu papel? Eu penso que sim. Temos de dizer bem alto aos que atacam o Oeste, de fora, e aos que atacam por dentro, com o vírus da ideologia woke e da cultura de cancelamento, que nunca teremos vergonha de quem somos.” Foi aplaudida com entusiasmo por Maria Vieira, a artista convidada para um momento de stand up comedy.
Questionada sobre se tinha escrito sozinha o seu discurso, a autarca admitiu que teve ajuda de Giorgia Meloni. Na verdade, era ipsis verbis um discurso que Meloni fez em março de 2025. Seria plágio? Não – era inspiração. “Não é segredo nenhum que existem sempre, especialmente neste meio, referências políticas”, e a primeira-ministra italiana sempre foi uma das “referências” de Matias, explicou a própria, revirando os olhos como viu fazer a líder dos Irmãos de Itália.
“E dizem que os loucos somos nós?”
Por falar nisso, a presidente da Câmara de Sintra orgulha-se igualmente de ter reduzido para zero o número de abortos legais no concelho, depois de ter recomendado de forma veemente que essa prática não fosse exercida em qualquer hospital ou unidade de saúde do município. Também acabou com todas as atividades de planeamento familiar e a distribuição de contraceptivos, o que permitiu grandes poupanças à edilidade.
“E dizem que os loucos somos nós?”, questionou a autarca. “Loucura é defender a banalização do assassinato de crianças no ventre materno. Loucura é bloquear com hormonas o desenvolvimento das crianças. Loucura é roubarem a inocência das crianças, tendo em vista interesses económicos para impor uma ideologia perversa”, proferiu Rita Matias, citando um discurso de Rita Matias, que copiou um discurso de Giorgia Meloni.
Segundo associações de defesa dos direitos das mulheres, a “tolerância zero” com os abortos fez subir os desmanchos clandestinos e também o números de gravidezes de adolescentes e até de meninas mal entradas na puberdade. “Lamento imenso e acho absolutamente lamentável e condenável que uma criança se veja nessa situação”, declarou Matias quando confrontada com a gravidez de uma munícipe de dez anos após uma violação. “Mas sou pela vida e lamento que uma nova criança tenha sido impedida de nascer.”
Em alternativa ao aborto, Rita Cid; Matias puxou dos galões sobre “o trabalho que temos feito” na “promoção de alternativas e da dignidade humana”. “O trabalho que temos de fazer é cultural, de mostrar que toda a vida é um bem, tentar apoiar uma mulher em situação de dificuldade”, afirmou, lembrou que por duas vezes deu a mão a crianças grávidas, tendo mesmo chegado a dar um beijinho na testa de uma delas.
A Tômbola dos Cabeças de Casal
Na “defesa incansável da família”, a autarquia deixou de atribuir casas municipais a casais LGBTI+, e fez uma recomendação veemente para que os promotores imobiliários e proprietários particulares fizessem o mesmo. Quanto aos milhares de famílias monoparentais que marcavam a paisagem humana do concelho ainda no ano passado, Matias já começou a mudar essa realidade. Dando provas do seu cosmopolitismo, adotou uma ideia vinda do Japão. Em 2024, as autoridades de Tóquio, preocupadas com a baixa taxa de natalidade na região, lançaram uma app para promover namoros e casamentos. O executivo autárquico de Rita Cid;Matias adaptou a ideia à realidade portuguesa.
Assim nasceu a Tômbola dos Cabeças de Casal: qualquer mãe sozinha de Sintra pode agora receber, por sorteio, um marido, ao qual se deve dedicar, enquanto ele providencia para o lar. Seguindo o pensamento de Matias, segundo a qual “o que defendemos é um papel de complementaridade, olhando para a natureza do homem e da mulher”, esta deve deixar de trabalhar e limitar-se a ficar em casa, cuidar das crianças e ser “bela, recatada e do lar”. Se falhar nalgum destes pressupostos (sobretudo o bela), é possível que ocorra violência doméstica, mas na nova Sintra entre marido e mulher ninguém mete a colher.
Rita na intimidade possível
O primeiro aniversário da eleição de Rita Cid; Matias como autarca de Sintra permitiu ainda à comunicação social conhecer um lado mais íntimo e resguardado da jovem política de 27 anos, com uma visita ao seu gabinete de trabalho nos Paços do Concelho. Uma visita sob o olhar atento e apaixonado do Hélio, ex-segurança do Chega que as publicações da especialidade dizem que é “aquela pessoa especial” no coração de Rita, e que foi contratado para a autarquia. Também Manuel Matias, chefe de gabinete da autarca e, por mera coincidência, seu pai, esteve presente neste dia comemorativo.
A sala da edil é imponente, e destacam-se algumas alterações que esta mandou fazer na decoração, com obras encomendadas a jovens artistas que conheceu nas reuniões concelhias do Chega. Todas são copiadas inspiradas em obras famosas.
Nas costas da mesa de trabalho da presidente da câmara, vemos uma pintura que à primeira vista é um Cristo – o que faria sentido dada a profunda religiosidade de Rita Cid Matias – mas é, afinal, André Ventura, que "representa as chagas de Cristo que temos na nossa bandeira" e que "está disposto a derramar o seu sangue, suor e lágrimas por este país, por este partido", explicou a própria. Ao lado, mais discreto, uma nova interpretação do Menino da Lágrima, mas com o rosto de André Ventura, reproduzindo o momento em que o líder do Chega, com sacrifício pessoal e pensos nos braços, foi ao comício de encerramento da campanha eleitoral de 2025, apesar de estar com azia. Também neste caso Rita Cid Matias fez um comentário oportuno, acusando a atual classe política (à excepção do Chega) de ser uma "classe de carpideiras".
A seguir, fomos em caravana, com buzinas e bandeiras do Chega, para a entrada de Sintra, no final do IC19. Seria ali a inauguração da estátua de corpo inteiro de André Ventura feita pelo mesmo escultor da estátua de Cristiano Ronaldo que está na Marina do Funchal. Havia grande curiosidade sobre as proporções anatómicas da obra. Nesse momento, acordei.
Todas as citações atribuídas a Rita Cid Matias são afirmações efetivamente proferidas por ela, quer em declarações públicas quer em entrevistas à diversos órgãos de comunicação social.
