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Que Se Lixem As Eleições | Uma rentrée alegre

12 ago, 09:03
As melhores imagens da Festa do Pontal, do PSD (Luís Forra/Lusa)
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Por muito que a AD se meta em agueiros, por muito que o Governo nade com pesos que o puxam para o fundo, por muito que o estado do mundo imponha bandeira vermelha, o mais provável é que haja um nadador-salvador socialista para salvar Montenegro

O tempo voa quando nos estamos a divertir. Ainda há dias saudávamos a chegada da silly season, a época estival em que a política é ainda um bocadinho mais parva do que acontece ao longo do ano, e já temos uma torrente de festas de rentrée nos próximos dias. O PSD é o primeiro, já na sexta-feira, no Calçadão de Quarteira, e segue-se o PS no domingo, em Olhão. Qual é a pressa? Excelente pergunta. Não encontrará a resposta neste texto. Festejam o quê? Não se percebe. 

De todos os partidos, só o Chega não deu informação sobre qualquer evento de regresso à atividade política, talvez porque nunca fechou para férias. A sanha do partido de André Ventura contra o ministro Luís Neves manteve o partido sempre com serviços mínimos (e nalguns casos, até máximos), e o novo embate com um membro do Governo – agora, Nuno Melo e as suas fragatas – promete manter o maior partido da oposição a carburar a todo o gás. 

A julgar pela habilidade com que tem pegado em cada caso, cada trapalhada, cada suspeita ou história mal explicada envolvendo o Governo, o Chega será talvez o único partido que tem razões para celebrar a entrada no novo ano político – a opacidade, os erros de comunicação, a arrogância e, em geral, a aselhice demonstrada pelos membros do Executivo, tudo isto aliado à ausência de bons resultados da governação, criam o ecossistema perfeito para a forma chegana de fazer política.

Um governo em apneia

Já o Governo, nem durante as férias ganhou fôlego. Férias, neste caso, é uma força de expressão, pois, como é bem sabido, Luís Montenegro sacrificou as suas férias a bem da Pátria. Todos nos lembramos como o seu gabinete alardeou essa insólita decisão num comunicado à Agência Lusa: “O primeiro-ministro decidiu neste ano não marcar férias no Verão.” Depois havia, nessa notícia emanada de São Bento, umas letras pequeninas sobre a possibilidade de Montenegro, sem nunca largar o leme do país e do PSD, “gozar apenas alguns fins de semana e um ou outro dia esporádico, se a agenda o permitir”. Por sorte, a “agenda” permitiu ao primeiro-ministro dar uns mergulhos no Algarve em dia de trabalho; por azar, a imagem do PM em calções, captada pelo Correio da Manhã, chocou de frente com a narrativa do homem que não sucumbia às tentações do descanso, mantendo-se firme no seu posto de comando, qual Ulisses amarrado ao mastro. 

Como um azar nunca vem só, a tarde de praia do primeiro-ministro foi passada com Hugo Soares, o que dificilmente qualifica essas horas como férias ou lazer. Mas, como é sabido, o povo e os tablóides não ligam a esses detalhes. Moral da história: talvez Montenegro pense duas vezes da próxima vez que decida fazer uma bravata anunciando que abdica de um direito, como se abdicar de direitos fosse motivo de orgulho (não é; pelo contrário, é o pior exemplo possível). 

E é assim, mal bronzeado e em apneia, que Luís Montenegro chega à rentrée política deste ano. Em apneia, porque o Executivo mal tem conseguido respirar com a sucessão de casos, casinhos e casões que o envolvem. E não houve brisa marinha que lhe oxigenasse os pulmões, a agenda política ou a capacidade de comunicação.

Rentrée a escaldar

Há muito que o Executivo de Luís Montenegro perdeu o estado de graça. Os golpes fatais, curiosamente, foram desferidos pelos ministros que eram vistos para eventuais redutos de seriedade e competência numa equipa na qual não é garantido que uma ou outra abundem. Os sarilhos que vêm de trás não desapareceram, nalguns casos agravaram-se; há novos casos bicudos no horizonte; há velhos problemas sem respostas à vista. Façamos uma revisão rápida da agenda da rentrée.

O ministro da Administração Interna protagonizou a mais espetacular delapidação de capital político de que há memória na democracia portuguesa. Em seis meses passou de homem eficiente, competente e acima de suspeita, a suspeito de práticas questionáveis e até violações da lei, com um passado na Judiciária que exige esclarecimentos, e métodos de trabalho e tiques pessoais caracterizados pela informalidade, leviandade e autoritarismo. O seu passado na PJ, a instituição onde fez nome, está na mira do Ministério Público, da Procuradoria Europeia, do Tribunal de Contas, da Inspecção-Geral dos Serviços de Justiça e do Ministério da Justiça. É obra! (escrevo-o sem segundos sentidos, apesar de boa parte dos problemas estarem relacionados com obras e um empreiteiro amigo). 

Luís Neves tornou-se um problema e esse problema está a contaminar a confiança na Polícia Judiciária. É isso que Rita Júdice reconhece na explicação para a auditoria e avaliação que ordenou ao seu colega de Governo. Menos mal: o Executivo já não está a fingir que tudo isto é uma cabala mediática com base em insinuações sem fundamento, conforme Neves tentou alegar. A ministra da Justiça já não acha que a questão principal a comentar neste caso seja o incómodo do seu colega de governo ter tido drones a sobrevoar as suas propriedades alentejanas. E ninguém estará realmente convencido de que um tanque vira piscina à revelia do proprietário, ou que pagamentos volumosos em dinheiro vivo seja uma prática aceitável por um ministro da Administração Interna que foi diretor da PJ. A rentrée só acentuará o desgaste, com a promessa de uma comissão parlamentar de inquérito.

O ministro da Educação passará as próximas semanas a tentar convencer o país de que o atraso no arranque do ano escolar, e os eventuais problemas na colocação de alunos no ensino superior, são uma coisa normalíssima, que estas coisas acontecem, e que o poder político está a fazer o que lhe compete: resolver problemas. Tentará fazer esquecer que é sua – dele, ministro Fernando Alexandre – a responsabilidade pelos problemas que afetaram milhares de alunos e famílias do 11º e 12º ano, cujos exames andaram em bolandas por causa de uma “reforma” (chamemos-lhe assim, com exagero) mal planeada e pior executada. O crédito e capital político que Fernando Alexandre tivesse sumiram entre a cascata de contradições, desresponsabilização, invenção de culpados, destrato dos professores e arrogância com escolas, famílias e alunos.

Nuno Melo, que até agora exibiu a enorme virtude da invisibilidade, decidiu dar nas vistas pelas piores razões: à primeira vez que alguém ousou questionar a súbita compra de três fragatas italianas, num negócio com o modesto valor de 3,9 mil milhões de euros, o ministro disparou primeiro para não ter de responder depois. Vai processar o jornal que deu conta de muitas perguntas sem resposta, e o líder da oposição que, no seu estilo muito próprio, resolveu transformar suspeitas em acusações. Nuno Melo acerta em cheio quando diz que a ação política de André Ventura é arrastar tudo para um “lamaçal sem ética”. Curiosamente, esse bem conhecido modus operandi do Chega e do seu líder não impediu que o atual Governo, de que Melo faz parte, escolhessem o Chega e o seu líder como interlocutores preferenciais num conjunto de leis de grande simbolismo político. 

Em vez de pirotecnia judicial, talvez o ministro da Defesa deva começar a explicar um negócio feito à pressa, sem escrutínio, sem debate político, e de contornos muito mal explicados – Melo não é sequer capaz de responder se os quase 4 mil milhões de euros incluem, com as três fragatas, helicópteros. Há mínimos…

Haverá sempre um nadador-salvador

Estes serão apenas os três focos mais inflamáveis de uma rentrée que se espera quente e animada. Serão também, com altíssima probabilidade, os elefantes na sala que Luís Montenegro tentará contornar. Mas, se não falar disso, falará de quê? 

Do fracasso sem remissão que foi a tentativa de alterar a Lei Laboral? Da contínua deterioração dos indicadores de listas de espera para cirurgias e consultas, com ordens para apertar a despesa no setor da Saúde onde as peças se continuam a desmoronar? Da queda da receita de IRC em consequência direta da redução da taxa, que em contrapartida tem permitido lucros recorde à banca, por exemplo? Do aumento do custo de vida e da queda do poder de compra? Da impossibilidade prática que continua a ser arranjar casa em Portugal a preços razoáveis, seja para compra ou arrendamento, com os preços ainda e sempre numa escalada imparável? Da preocupante queda do investimento direto estrangeiro? Da quase impossibilidade de continuar a aumentar riqueza apenas com base no fator trabalho, o que tem sido permitido pelos mesmos imigrantes que o Governo destrata para agradar ao eleitorado do Chega?

Apesar de tudo, há boas notícias. O novo ano político começa com o Orçamento do Estado e o PS não ousará chumbá-lo. É verdade que as sondagens favorecem o partido de José Luís Carneiro, seja por mérito do seu registo ponderado, seja pelos sucessivos tiros nos pés da AD, mas os socialistas sabem que a ideia de uma alternativa ainda está muito longe de ser consistente.

Ainda que, por absurdo, o PS decidisse autoflagelar-se chumbando o OE, o Presidente da República já deixou claro que preza a estabilidade política acima de todas as coisas. Vai romper, e bem, com a ideia marcelista de que a rejeição de um Orçamento equivale à queda do Governo e convocação de eleições. A questão é até onde estará António José Seguro disposto a ir para levar o Governo ao colo.

Resumindo, no ano político que arranca sexta-feira no Calçadão de Quarteira, por muito que a AD se meta em agueiros, por muito que o Governo nade com pesos que o puxam para o fundo, por muito que o estado do mundo imponha bandeira vermelha, o mais provável é que haja um nadador-salvador socialista para trazer Luís Montenegro de volta para o areal. Como diz um anúncio, “assim também eu”.

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