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Comentador CNN

Que Se Lixem As Eleições | Ensaio sobre a loucura do Rei Donald daria um bom livro de Saramago?

1 abr, 10:15
Donald Trump (Getty)

Com o mundo a sair dos eixos, a política nacional vive habitualmente. O povo não está melhor, mas o Dr. Rangel está ótimo: recebeu um telefonema de Marco Rubio; tudo vale a pena. O Chega tenta vingar-se da Constituição. O Governo, sem problemas para resolver, dedica-se a apoucar Saramago. O que escreveria ele sobre “isto”? Na verdade, já escreveu

“Combustíveis não param de subir. Vêm aí novos aumentos na próxima semana.”

“Comissão Europeia pede aos 27 que reduzam o consumo de combustível”

Trump diz que quer ‘ficar com o petróleo do Irão’ e admite capturar Ilha de Kharg: ‘Poderíamos tomá-la com muita facilidade

“Marco Rubio falou com Paulo Rangel e agradeceu-lhe pela ‘cooperação no setor da defesa

Cerca de 200 militares norte-americanos estão a caminho das Lajes para montar drones de ataque MQ-9 Reaper

‘Drones assassinos’ a caminho da Base das Lajes ‘podem ser controlados do outro lado do planeta

O Governo [de Portugal] está a decidir neste momento que Portugal passa a ser um alvo legítimo do Irão

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Trump admite acabar com a guerra sem resolver o bloqueio [no Estreito de Ormuz]

Acabar com a guerra sem reabrir o Estreito de Ormuz seria ‘uma derrota em toda a linha’ para os EUA

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“‘É evidente que a mudança de regime [no Irão] não vai acontecer’, ‘eles não estão interessados em salvar-nos’: iranianos sentem-se ‘enganados ‘ com a guerra

As pessoas são números

Todas as frases citadas acima são títulos retirados do site da CNN, quase todos publicados ontem e na segunda-feira. Há uma guerra decidida por um homem (vá lá… dois, se admitirmos que Trump decidiu alguma coisa, e não apenas Netanyahu), que ameaça arrastar o mundo para um conflito de consequências imprevisíveis, já meteu a economia global num sarilho dos diabos e os portugueses a fazer contas para esticar dinheiro que não estica. Enquanto o mundo sai dos eixos, a política portuguesa vive habitualmente.

Quando escrevo os portugueses, talvez devesse escrever os “consumidores” portugueses, porque na narrativa de quem define as narrativas, as pessoas são números: o número do que ganham, do que gastam, do que consomem; o número do preço do metro do quadrado onde vivem e onde não podem viver; do valor dos impostos que pagam e dos impostos a que se safam; o número de contribuinte que paga e cala, ou o número do código postal distante onde foi domiciliada a “sede social” da empresa que paga salários de cá e é taxada à medida de lá. 

Vivemos das histórias que contamos? E que números condicionam o fim dessas histórias? Para uns, os que especulam à boleia da inflação com costas largas que vem lá de fora, há cada vez mais numerário no fim do mês. Para outros, esmagados sob os números do azar do preço dos combustíveis e da luz e do gás, e dos legumes, e do arroz e do azeite, há cada vez mais mês no final do numerário. Todos os números – daria um título de Saramago, como “Todos os nomes”?

Temos sorte no nosso cantinho, apesar de tudo. Ainda não contamos o número de mentiras descaradas dos nossos líderes políticos como fazem lá na América. Não contamos mortos de guerras impunes, como na Palestina e no Líbano. Não contamos quantos mísseis e drones russos nos caem em cima todos os dias e todas as noites há quatro anos, como na Ucrânia. Não contamos em palhaços nem em criminosos a rampa deslizante da dignidade das instituições e da degradação humana e política de quem ocupa os mais altos cargos da Nação.

Nós por cá, tudo bem

Por cá é tudo mais comezinho. Celebrámos um superávit, quando muitos previam um défice. Viva!, viva! As forças de bloqueio bem tentam, mas não impedem o Luís de trabalhar.

O Governo reage à tempestade do mundo com ajudas de pequenitos passos e diplomacia de relevantes favores. Tudo vale a pena quando a recompensa não é pequena. Paulo Rangel atingiu o nirvana ao receber um telefonema de Marco Rubio agradecendo-lhe os fretes da pátria lusitana. Abençoada Nação que tais governantes tem. O povo não está melhor, mas o Dr. Rangel sente-se ótimo.

A nova guerra eterna no Médio Oriente, mais a velha guerra eterna da Ucrânia, vão deixar-nos todos mais pobres, mais precários, mais inseguros, mais expostos a ameaças? Vai, claro. Mas o povo, se não tiver pão, pode comer brioches.

Oportunamente, o maior partido da oposição, que manda quase como se fosse governo, vai ajustar contas com o regime democrático e abrir um processo para a revisão constitucional. Uma revisão que os antigos presidentes do Tribunal Constitucional, mais à esquerda ou mais à direita, consideram inútil e desnecessária – nenhum dos reais problemas do país se resolve mudando a lei fundamental. A doença da Saúde não se resolve pela Constituição. Nem a falta de casas. Os preços destravados do imobiliário para comprar ou arrendar não passam pela lei das leis. O emprego, que é pouco, ávaro e precário, não precisa de uma nova Constituição para ser ainda mais o pouco que já é. A segurança dos portugueses – que segundo o último Relatório de Segurança Interna vai assim-assim, obrigado por perguntar – não precisa de entorses à Constituição que viabilizem a Lei da Nacionalidade, a Lei da Imigração e a Lei do Retorno que o PSD cozinhou com a extrema-direita. O mesmo PSD que há anos tenta (e bem) criminalizar o enriquecimento ilícito invertendo (e mal) o princípio do ónus da prova, poderá agora libertar a Constituição desse peso. A mesma extrema-direita que não aceita as regras essenciais de igualdade e não discriminação dos cidadãos, tentará impregnar a Constituição com o seu populismo, o seu racismo e a sua xenofobia. Que oportunidade esplendorosa para amanhãs que cantam!

Uma sondagem da qual ainda se sabe pouco, parece confirmar que “a maioria” dos portugueses quer essa tal revisão constitucional. Parecem especialmente interessados em reduzir o número de deputados (esses inúteis e calões, como bem explicam o Dr. Rio e o Dr. Ventura) e em criminalizar o enriquecimento ilícito (pois, como se sabe, isto é um país de “bandidos” que têm de “estar na cadeia”, menos os do Chega, que são “portugueses de bem”).

André Ventura leva a água ao seu moinho. Parabéns aos media que lhe dão palco. Parabéns aos governos que lhe dão colo. Parabéns ao presidente da Assembleia da República que lhe dá corda. Parabéns aos que criticam publicamente o Chega, porque “lhe dão votos”. Parabéns aos que se calam perante o Chega porque, aparentemente, também “lhe dão votos”.

Ah!, ia-me esquecendo: o segundo maior partido da oposição fez um congresso com muita conversa, pouca estamina e fracas audiências, a fingir que continua a ser o maior partido da oposição. 

Jangada de pedra

Como obviamente não há mais nada no mundo que nos perturbe a vidinha, os nossos felizes ministros podem dedicar-se a questões de fundo. “Reformas”. O ministro da Educação, deus o tenha, já resolveu o que tinha a resolver: já não há alunos sem professores, nem professores sem alunos, nem professores sem casas, nem universitários sem residências. Já não há abandono escolar, já não há violência nas escolas, já não há “endoutrinamento" nas aulas de cidadania, não cresce a radicalização de alunos atrás de teorias de ódio, por isso Fernando Alexandre, o ministro de quem os comentadores gostam, pode dedicar-se a apoucar o autor de que a direita não gosta. José Saramago. Claro. Nem morto tem sossego.

Lembra-se quando um subsecretário de Estado quis cancelar Saramago? Foi defendido com unhas e dentes por Santana Lopes, o seu superior hierárquico, e por Cavaco Silva, o seu “homem do leme”. O subsecretário de Estado, Sousa Lara, entregou-se entretanto às doçuras do Chega — até ser corrido, porque não quis largar uma qualquer “mama” do Estado. Quanto a Santana e Cavaco, são hoje senadores da Pátria. Aleluia! Aleluia!

Hoje, cancelar parece mal. Fernando Alexandre sabe muito. Fernando Alexandre não é Sousa Lara. Não cancela Saramago, que coisa tão anos 90!, cancelar pode aleijar o censor e Fernando Alexandre detestaria perder a claque. Limita-se a apoucar, a desvalorizar, que é mais sonso. Ou mais “subtil”. Diz que Saramago, o único Nobel da Literatura em língua portuguesa, pode ser dispensado das leituras obrigatórias na escola pública. Foi um bom escritor? Sim. Mas só mais um entre tantos bons escritores nascidos nesta terra abençoada. Para quê maçar a juventude com a sua escrita única, o seu sarcasmo corrosivo, o seu imaginário esquerdalho?

Ouvi um dos chalupas-mor da nossa comunicação social para perceber melhor este ódio a Saramago. Ele entregou tudo clarinho clarinho: 1) um Nobel é só um Nobel e é coisa de parolos deslumbrados; 2) o homem era comunista; 3) ele, o opinador, leu há uns anos umas páginas do Memorial do Convento e aquilo fez-lhe doer a cabeça. Ficou vacinado. Nunca tinha pensado nisso: tomar a limitação intelectual do leitor como medida da qualidade do autor.

O que diria Saramago sobre tudo “isto”, se fosse vivo e continuasse a escrever? Que reflexões partilharia nos novos Cadernos de Lanzarote? Mais importante, que quinhão da realidade lhe entraria pelas ficções? Daria uma volta triunfal perante a falência moral dos Estados Unidos e a perversidade do capitalismo? Nesta fase, talvez já não precisasse disso. Os seus últimos livros de ficção eram extraordinariamente leves, irónicos, expondo a grandiosa pequenez dos rituais do poder e até da “palavra do Senhor”, em livros como A Viagem do Elefante ou Caim. Luís Montenegro enviaria Paulo Rangel como amostra do paquiderme luso em reverente vassalagem ao Rei Donald? Donald, na sua loucura, seria o Caim dos tempos modernos, que apunhala os irmãos de alianças cimentadas ao longo de décadas? A Jangada de Pedra seria Portugal no Atlântico a caminho de se juntar aos States? Ou seriam os States à deriva alienando os aliados? Que memoriais construiriam os reis contemporâneos em celebração do seu poder, com a graça de deus? O grandioso salão de baile da Casa Branca, com dourados e ornamentação neo-barroca, ofuscaria Mafra? Os drones MQ-9 Reaper certamente ofuscam a Passarola. 

Provavelmente Saramago não escreveria nada disto. Não tenho conhecimento nem talento para estas especulações. Mas desconfio que os livros de José Saramago que importam para entender o presente e o futuro estão escritos. Basta saber lê-los. Talvez baste um para compreender “isto”: Ensaio Sobre a Cegueira. A doença coletiva que nos leva de volta ao estado selvagem, à pura lei do mais forte, onde manda quem é rei e obedece quem é vassalo. E para ser rei, basta um olho. Mesmo que vesgo ou amblíope.

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