O que têm em comum Mariana Leitão, Rui Rio, Passos Coelho, Leitão Amaro, António Filipe, Catarina Martins, Jorge Pinto e Miguel Albuquerque? Tiveram pouca atenção mediática nas presidenciais. Injustamente
Lembra-se da Dona Albertina? Eu não. Mas, segundo o ChatGPT, foi a figurante mais famosa dos programas do daytime televisivo português. Cito: “Mesmo após o fim do programa [Você na TV, da TVI], a sua imagem permanece associada à era de ouro dos talk shows diurnos em Portugal, sendo por vezes mencionada e relembrada.” Ou seja, uma espécie de celebridade que nunca foi protagonista; pelo contrário, ficou lá ao fundo, no meio da multidão, alegre quando tinha alguns segundos em grande plano.
Na política não faltam Donas Albertinas. Na maioria dos casos fazem tudo para se destacarem e receberem o tal grande plano, mas também há quem siga o exemplo da original, limitando-se a sorrir e aplaudir – podem ser as Donas Albertinas mais sensatas ou as mais perigosas, porque raramente se sabe o que pensam.
Ao longo da campanha eleitoral, soubemos ontem, houve três candidatos que mereceram especial atenção nos noticiários televisivos em canal aberto. São a anti-Dona-Albertina. Não é sobre eles estes texto. Entre 1 e 16 de janeiro, Gouveia e Melo "liderou o ranking de presença nos principais blocos informativos da RTP1, RTP2, SIC e TVI, protagonizando 126 notícias, com um total de quatro horas e cinquenta minutos", lê-se numa notícia da Lusa reproduzida pela CNN Portugal. O top 3 de atenção nos principais noticiários televisivos fechou com Cotrim de Figueiredo e Marques Mendes. Por acaso (será acaso?) nenhum desses campeões chegou à segunda volta. Pelo menos no caso de Cotrim, valeu a pena estar sempre a queixar-se de ser discriminado pela comunicação social. Fora do pódio aparecem, por fim, António José Seguro (4° lugar) e André Ventura (5°). Só nestes dois casos a atenção televisiva teve correspondência no resultado.
Este texto não será, portanto, sobre estes cinco. Nem sobre Luís Montenegro, que no acumulado do ano passado foi o político que ocupou mais espaço na antena dos noticiários em canal aberto. Este texto é uma tentativa, modesta, mas sincera, de corrigir a injustiça que é deixar esquecidas as Donas Albertinas.
O drama da pequena líder
Diz o CV que Mariana Leitão foi chefe de gabinete de João Cotrim Figueiredo quando este foi eleito deputado à Assembleia da República. Depois, já que lá estava, ascendeu a deputada, num claro exemplo de meritocracia liberal. Os bros mandavam no partido e correram com gente que os aborrecia, como Carla Castro, candidata derrotada à liderança da IL, que ameaçava o status quo de domínio dos bros na IL. Havendo vagas, o sucessor natural de Cotrim Figueiredo, naturalmente, promoveu a prata da casa, onde se incluía a chefe de gabinete. Acaba aqui a história de meritocracia de Mariana Leitão. Mas não a incrível ascensão de Mariana Leitão. Alguém lhe disse que ela dava uma boa candidata a Presidente da República, e Mariana candidatou-se. Mas nem entrou na corrida porque vagou o lugar de presidente do partido e alguém a convenceu de que era a pessoa certa. Uma maldade, mas Mariana acreditou, sonhou, conseguiu. Foi nessas funções que a vimos fugazmente nas televisões no domingo à noite, sem saber o que fazer com uma derrota que estava difícil de embrulhar como vitória. Sendo mais do que evidente que Cotrim não tinha alcançado a fasquia que colocara como única vitória possível (passar à segunda volta), Mariana foi possuída pelo espírito do PCP e negou a derrota, porque ainda não estava oficialmente confirmada. Pior: repetia “os procedimentos, os procedimentos, os procedimentos”, como se fosse a escrivã do Comité Central. Foi penoso de se ver. Mas talvez seja ainda mais penoso quando Mariana Leitão já não se puder esconder atrás dos “procedimentos” e tiver de dizer alguma coisa sobre a segunda volta. Se ficar neutral, naquela neutralidade-tipo-PCP-sobre-a-Ucrânia, será igual a apoiar Ventura, e ficará ainda mais à vista o affair da IL com a extrema-direita. Se ousar fazer a coisa liberal, apoiando o candidato democrata, contra o candidato autoritário e iliberal, arrisca-se a ser corrida pelos bros e substituída por outro clone de Cotrim. Não está fácil.
Ele voltou e não mudou
Houve um tempo em que Rui Rio enchia a boca com um feito que o próprio considerava notável: nunca tinha perdido uma eleição. De então para cá já sofreu mais do que seria o seu quinhão de derrotas. Porque foram derrotas enormes, humilhantes, e com consequências: teve dois dos piores resultados de sempre da história do PSD em legislativas, abriu o espaço para o Chega crescer e ainda ofereceu de bandeja a António Costa uma maioria absoluta que este não merecia e, em rigor, nem sequer ambicionava. Foi com este currículo recente que Rio voltou às lides políticas, brasonado como mandatário nacional de candidatura presidencial de Henrique Gouveia e Melo. Não era um cargo decorativo, Rio tinha mesmo influência no que o candidato pensava, dizia e fazia.
O nojo afetado em relação aos partidos políticos, a acusação de “politiquice” na ponta da língua, mesmo quando se limitava a truques de politiquice, uma certa esperteza saloia “anti-sistema”, a repreensão fácil aos jornalistas mais atrevidos – tudo isso são marcas de água com que Rui Rio contaminou o pensamento do almirante. Não foi seguramente o único, mas foi cúmplice no maior desbaratar de potencial de um candidato presidencial que se viu em muitos anos. Para quem não se lembra, há seis meses Gouveia e Melo era “imbatível”. Entretanto tornou-se quezilento, entrou numa absurda luta na lama com Marques Mendes, e passou mais tempo a apoucar os adversários do que a engrandecer-se com ideias para o país. Saiu pela esquerda baixa (ou terá sido pela direita?...). Na hora do descalabro, Rio apareceu ao seu lado. Era o mínimo. O seu a seu dono. Como escreveu Filipe Nunes Vicente num dos tweets mais divertidos destes dias: “Quer perder uma eleição? Acha impossível? Contacte alguém com experiência, não se arrependerá”.
O D. Sebastião da direita
Há quem aposte que Pedro Passos Coelho apoiaria António José Seguro nesta segunda volta, tendo em conta a forma como o então líder do PS deu conforto ao Governo de Passos nalguns dos seus momentos mais difíceis (desde a inútil “abstenção violenta” num Orçamento de Estado até umas igualmente inúteis conversações promovidas por Cavaco Silva para a entrada no PS na coligação PSD/CDS/Troika). Seria, digamos assim, um mínimo de decência e reconhecimento em relação a alguém que Passos conhece desde a juventude (lideraram as respetivas “jotas” ao mesmo tempo).
Há quem aposte que Passos Coelho apoiaria André Ventura, criação política do ex-PM, que o lançou para a ribalta na famosa candidatura à Câmara de Loures. Foi quando Ventura se afirmou como ponta de lança do racismo na política nacional, com uma campanha toda feita contra “os ciganos”. Foi também quando Ventura se estreou como rei das fake news, passando a um jornalista escolhido a dedo os resultados de uma sondagem que nunca existiu. O CDS, que era então liderado por gente com consciência, abandonou essa candidatura por achar Ventura infrequentável. Passos apoiou-o, aplaudiu-o e nunca o deixou cair.
Quem iria Passos apoiar agora? O perigoso “socialista”, ou o bom André, de cuja agenda politica o antigo PM se mostra cada vez mais próximo? Uma das últimas demonstrações disso foi o discurso de Passos correlacionando insegurança com imigração, o tal mito urbano, sem qualquer base factual, que alavanca o discurso quase histérico de Ventura. Estará Passos assim tão longe da máxima “Deus, Pátria, Família, Trabalho” que Ventura ainda há poucos dias recuperou? (sim, o Ventura “moderado” que tanto encantou Cotrim Figueiredo.)
Bom discípulo de Cavaco, Passos fecha-se no seu tabu. Para alívio… de Luís Montenegro. O PM está à toa com esta segunda volta, depois de o seu candidato ter sido esmagado nas urnas e o apoio do PSD e do Governo ter valido mais ou menos… nada. Montenegro ouve o tique taque e sente o bafo de Ventura no pescoço. Está a aproximar-se e poderá ultrapassar o PSD depois destas presidenciais. O ainda líder do PSD perdeu o momento politico e perdeu autoridade na direita. Quem a tem? Passos. O homem que todos os candidatos da direita queriam ter ao seu lado. Tique-taque.
Chama o António
No dilema da segunda volta em que o PSD se deixou cair, António Leitão Amaro, o ministro da propagan…,, perdão!, da Presidência, seria o social-democrata perfeito para retirar a conclusão do nim-nim de Luís Montenegro. Ao dizer-se equidistante de Seguro e de Ventura, sem conseguir optar entre um democrata e um autocrata, Montenegro deixou claro que é ok os eleitores da AD caírem no regaço do Chega. Ora, quem melhor para assumir isso do que o ministro que orgulhosamente assumiu as grandes bandeiras do Chega como programa do Governo? Foi Leitão Amaro quem defendeu a lei de imigração que levou chumbo do Tribunal Constitucional e a lei da nacionalidade que teve o mesmo caminho, ambas cozinhadas com o partido de Ventura.
O ministro da Presidência, que caiu no anedotário político nacional ao dizer que a adesão à greve geral foi “inexpressiva”, tem sido o grande normalizador do Chega, e da colagem do Governo a diversas posições da extrema-direita. Aguarda-se em jubilosa esperança que, depois de se ter sentado na primeira fila do último comício de Marques Mendes e se ter eclipsado na noite eleitoral, Leitão Amaro partilhe com o país em quem vai votar desta vez.
É sempre a descer, camarada
Candidatou-se por dever de militância, com o mesmo intuito de outras candidaturas geradas dentro de partidos: conseguir tempo de antena para as bandeiras do PCP. Se o objetivo era fazer prova de vida, saiu ao lado e não conseguiu mais do que uma prova de morte. O definhar eleitoral do PCP já entrou na fase de estertor. Felizmente os comunistas ligam pouco a isso das eleições burguesas – o que importa é a luta, não os resultados –, porque caso contrário podia dar-se o caso de desanimarem perante a magra colheita de 92 mil votos. A luta continua, já se sabe, mas a decadência eleitoral também: como se não bastasse a erosão de votos nas legislativas, António Filipe teve o pior resultado de sempre do PCP em presidenciais. Não terá sido por falta de qualidades do candidato: Filipe é um indivíduo gostável com um sentido de humor suave, é um jurista respeitado, um deputado com provas dadas, e até passou com distinção um breve teste como presidente interino da Assembleia da República – é pena que não fosse esse o cargo em disputa, pois Filipe faria muito melhor figura do que o atual ocupante do cargo. Porém, por convicção ou dever de ofício, nunca foi mais do que um megafone de slogans do PCP. A avaliar pelos 1,6%, não houve muito quem o quisesse ouvir. Sim, houve um efeito de voto útil que afastou eleitores de António Filipe. Mas, se não fosse isso, era outra coisa qualquer…
O trunfo sem triunfo
Na miséria geral dos candidatos à esquerda de António José Seguro, os 2% de Catarina Martins quase fazem um vistaço. Como escreveu alguém com graça, é bom não esquecer que a candidata do Bloco ficou mais perto de Marques Mendes do que Marques Mendes de conseguir passar à segunda volta. Factos. Também factos: Catarina Martins manteve o score eleitoral do BE nas últimas legislativas, embora com menos votos (mas nestas presidenciais houve menos meio milhão de votos do que nas legislativas de maio). Ainda assim, este foi o pior resultado de sempre de um candidato presidencial apoiado pelo BE. Fernando Rosas, Francisco Louçã e Marisa Matias, todos conseguiram melhor (e na sua primeira candidatura, Marisa chegou mesmo aos 10%). Também foi a mulher com menos votos entre as cinco que concorreram às presidenciais ao longo das décadas de democracia. Catarina Martins é o mais parecido que o BE tem com um trunfo eleitoral, mas não foi ás, nem rainha nem duque. O seu rosto na noite eleitoral dizia tudo sobre a dimensão da tragédia. Mas não gaguejou na hora de recomendar o voto em António José Seguro.
O mordomo de Seguro
Bom rapaz, um pouco tímido até, Jorge Pinto entrou e saiu destas presidenciais com um único ato digno de registo: abriu a porta a António José Seguro. Uma espécie de mordomo da esquerda, portanto. Mais segurista que Seguro, o candidato do Livre propôs-se capitanear uma desistência coletiva dos candidatos da esquerda em favor do ex-secretário-geral do PS. Não se entende a utilidade do gesto (mesmo que no dia 18 tivesse os votos todos da esquerda, Seguro ficava na mesma: em primeiro lugar, mas sem maioria absoluta), e ainda menos se entende que Pinto tenha continuado na corrida depois de se voluntariar para desistir. Atrás do performer Manuel João Vieira, Pinto teve o mau resultado que se esperava, e até melhor do que merecia.
Líder procura norte
Uma das surpresas do resultado de Ventura na primeira volta foi o facto de ter vencido em apenas duas circunscrições regionais: o distrito de Faro e a Região Autónoma da Madeira. Faro não surpreende (já tinha ganho folgado nas legislativas de maio; agora teve menos votos e menos folga); a Madeira foi uma revolução. Ventura venceu destacado, multiplicando por seis o resultado do seu partido nas últimas regionais, há menos de um ano. Comparando com as legislativas de 2025, Ventura teve mais treze pontos do que o Chega. Seguro ficou em segundo, quase dez pontos acima do resultado dos socialistas em maio. O PSD afundou-se com Marques Mendes. Ou terá sido Marques Mendes a afundar-se com o PSD? O candidato da AD não chegou aos 15%. Pondo a coisa em perspetiva: na Madeira, até domingo, o pior resultado de um candidato presidencial apoiado pelo todo-poderoso PSD foi de Ferreira do Amaral, em 2001. Sampaio venceu na região, mas o social-democrata teve uns muito honrosos 42%. Agora, foi um terço disso.
O Chega teve 5% nas últimas regionais, em março de 2025. Agora Ventura teve 33%. Perante a hecatombe, o que concluiu Miguel Albuquerque, o Alberto João de turno? Que o melhor era ficar quieto e calado em relação à segunda volta. (Por falar em Alberto João, o seu candidato, Gouveia e Melo, saiu-se ainda pior do que Marques Mendes – 8%, bem abaixo da média nacional.) O silêncio de Albuquerque podia ser tático, porque o líder madeirense sempre mostrou simpatias com o Chega. Mas na verdade é um silêncio desnorteado.
Nem é a questão óbvia: entre um democrata e um fã de três Salazares, Albuquerque não toma posição, o que é uma posição. Isso não surpreende. Estranho, sim, é que Albuquerque não perceba que há um risco real para décadas de hegemonia do PSD-Madeira. Não vem da oposição queque do PS, como na realidade nunca veio. Vem da revolta populista alimentada por Ventura. Em lugar nenhum o discurso contra o sistema e contra a corrupção assenta melhor do que na Madeira, onde décadas de monocultura laranja criaram grandes riquezas súbitas entre empresários do regime, deputados metidos em negócios, secretários regionais que saltam para fulgurantes carreiras no setor privado, enfim, toda uma clique abençoada por riqueza que caiu do céu, mas só sobre os protegidos do regime. Quanto a Albuquerque, é bem sabido que é suspeito de crimes vários, todos alegados, todos simpáticos para o seu bolso. O mesmo com os seus mais próximos, como o ex-presidente da Câmara do Funchal. E igual com o empresário queridinho do sistema.
Poderia o Chega acomodar-se no quentinho deste caldo fedorento? Sim, sem hesitar. Mas neste momento é-lhe mais conveniente apostar no ataque ao poder, tal como no resto do país. Com estas presidenciais, fica bem lançado. Com a conivência de Miguel Albuquerque, ainda mais. Benza-o deus.