Travestido de salvador da Pátria, Passos Coelho está pronto para voltar ao poder. Tem a intenção, razões e motivações, e as desculpas para as ocultar. Tem um plano e um programa, tem pressa e tem um parceiro de caminhada: André Ventura, Há algo de podre no reino do PSD
É oficial. Pedro Passos Coelho está pronto para voltar a carregar a sua cruz. A cruz de salvador da Pátria, da qual, coitado, não se livra. Cada um é para o que nasce, e Passos nasceu para liderar a JSD, extorquir o Estado através da Tecnoforma, fugir ao pagamento de contribuições à Segurança Social durante anos, e salvar o pátrio torrão indo além da troika e impondo doses mirabolantes de austeridade.
Não é cruz que alguém deseje, nem cadastro que se inveje. Mas por razões pouco misteriosas, relacionadas com o fascínio nacional por figuras sebastiânicas e vozes de barítono, parece que há quem queira pôr-lhe outra vez sobre os ombros o fardo de voltar ao leme da Nação.
Tanto quanto se percebe, o primeiro a desejá-lo é o próprio Pedro Passos Coelho. As declarações dos últimos dias e, sobretudo, a entrevista que deu ao Eco tornam transparentes as suas intenções, motivações e desculpas esfarrapadas para mais este regresso à política ativa (houve outras tentativas, mas o zeitgeist não estava de feição). Também deixam poucas dúvidas sobre o plano e o programa de Passos, bem como a razão deste sobressalto repentino, que começou com a saída de Luís Neves da direção da PJ.
Como se diz na CNN, vamos à análise.
A intenção
Comecemos pelas intenções de PPC. Quer voltar a ser primeiro-ministro. Só não vê quem não quer ou quem faça questão de alinhar num teatrinho. Sabemos todos o suficiente sobre retórica política para perceber o significado real de frases como “Quando eu quiser candidatar-me [a líder do PSD], candidato-me, e anuncio que me vou candidatar”. Não há a recusa ou exclusão desse cenário, que algumas almas mais crédulas ainda há poucos dias garantiam ser impossível. A cegueira raramente ajuda à percepção da realidade. E não há a exclusão desse cenário de regresso porque, explica Passos, “não vejo nenhuma razão para estar a dissimular”. Dissimular, dissimula. Sempre o fez, nomeadamente quando proclamou a frase que dá nome a esta rubrica semanal. Só não sente necessidade de dissimular tudo.
Se isto não for claro o suficiente, lembremos que nos dias anteriores à entrevista PPC disse, sucessivamente, “não sou candidato a nada” (o que no tempo verbal escolhido é factual); “Não estou a preparar nenhuma candidatura” (o que é mais difícil de acreditar, entrando já no território da fé); e, por fim, “Nunca disse que nunca mais voltaria a fazer política” (o que também é absolutamente correto).
Resumindo: o homem que não é candidato a nada e não está a preparar qualquer candidatura anunciou que quando decidir candidatar-se o anunciará. Claro que anunciará – as proposituras a lideranças partidárias não costumam ser clandestinas.
As razões
Ainda antes da sua “primeira entrevista em oito anos” (não verifiquei, mas confio no Eco), Passos já tinha discorrido sobre a circunstância, ou conjunto de circunstâncias, que o poderiam retirar do seu aparente sossego de professor universitário convidado. Na minha terra diz-se de qualquer coisa muitíssimo altamente improvável que é “como uma cabra cair da rocha abaixo”. O mínimo que se pode dizer das circunstâncias colocadas por Passos para regressar à disputa política é que não são muitíssimo altamente improváveis. “Acho pouco provável que venha a desempenhar uma função tão ativa com aquela que já desempenhei [de primeiro-ministro]. E tenho a ideia de que, se isso algum dia se vier a equacionar, não há de ser, seguramente, pelas melhores razões”.
Que razões seriam essas? Por junto: o Governo da AD governar mal, não ter uma agenda reformista, e Luís Montenegro desperdiçar a oportunidade histórica de uma enorme maioria à direita para avançar com essas reformas, aliando-se ao Chega. Por outras palavras, se Montenegro não fizer aquilo que Passos gostaria que ele fizesse. Dá-se o curioso caso de essas razões que não seriam “as melhores” dependerem apenas da avaliação de Passos Coelho, sendo que até já sabermos qual é: o ex-PM tem-se desmultiplicado em críticas à ineficácia da governação, à ausência de uma agenda reformista e à oportunidade perdida de um entendimento do PSD com a extrema-direita.
Que notável coincidência: as circunstâncias em que Passos poderia, quem sabe, eventualmente, um dia, voltar ao combate político já estão, na sua análise, reunidas. Não será preciso que caia uma cabra da rocha abaixo.
A motivação
Na entrevista desta semana, Passos Coelho confirma que é o mestre da novilíngua, um dos conceitos mais perversos na arte da política: dar às palavras o sentido oposto daquele que significam. Já vimos alguns exemplos disso, mas eis outro.
Diz Passos: “Depois daquilo que realizei, estou de bem com o que fiz. Estou de bem com a política e estou de bem com o país, não ando à procura de nada em particular, não tenho desforras para fazer, não tenho necessidade de querer provar ou mostrar o que quer que seja. Portanto, encontro-me de bem comigo, com a vida e com o mundo. Por essa razão, não sinto necessidade de correr atrás de nada.” E, contudo, corre. Como o próprio acrescenta, “não sinto nenhuma necessidade de excluir qualquer coisa que venha a fazer no futuro”.
A pergunta é, portanto: o que faz correr Passos? A resposta do próprio é “ter uma sociedade mais desenvolvida, poder contribuir para um nível de bem-estar maior”, enfim, o bem comum. Admitindo que haja isso (e sendo certo que o caminho para os amanhãs-que-cantam é sempre sinuoso), há também tudo aquilo que Passos nega.
O ex-primeiro-ministro parece “de bem” com o país? Como este é um texto de análise, farei a minha: não. Passos não está “de bem” com o país desde que ganhou as eleições e perdeu o poder, naquilo a que então chamou um “golpe”, e que era na verdade uma maioria parlamentar (só que não era sua). Faz questão de falar nisso nesta entrevista ("O facto de, no essencial, a minha missão ter sido bem-sucedida e de, por razões que estão para além da minha vontade, não ter tido condições para poder levar mais longe o projeto de transformação que tinha…”)
Não estava “de bem” com o país quando Cavaco o obrigou a negociar com o PS, e Passos, como se tivesse a maioria que não tinha, supôs que Costa o apoiaria em troca de lugares no Governo. Não estava “de bem” com o país quando, líder da oposição, anunciou que vinha aí o diabo, que nunca veio. E não ficou “de bem” com o país quando este o brindou com uma histórica derrota eleitoral nas autárquicas de 2017. Queria voltar ao lugar de primeiro-ministro, que ainda supunha seu por direito, e não o deixaram. Amor com amor se paga, e o país não estava “de bem” com Passos.
O antigo PM diz que não tem “desforras para fazer”, mas é isso que tenta fazer a cada oportunidade. Quando Costa se demitiu, no terramoto da Operação Influencer, Passos sentenciou que o homem que lhe havia ocupado a cadeira saía por “indecente e má figura” – talvez se tenha precipitado, pois a maior “indecente e má figura” é a do Ministério Público, cuja investigação se arrasta sem nada que se veja. Sobre Costa, nada; sobre Duarte Cordeiro, zero; sobre os milhares escondidos no gabinete de Vítor Escária, nicles. Até as suspeitas sobre João Galamba parecem ter sido coladas com cuspo.
Mas há mais. Conforme Montenegro, líder legítimo do PSD, governa à sua maneira, o antigo presidente do partido cai em cima do seu antigo delfim. Há muito para criticar na ação do atual chefe do Governo. Por sinal, nenhuma das minhas críticas coincide com as de Passos. Mas quem sou eu? Seguramente não tenho “desforras para fazer” em relação a Montenegro. Talvez não se possa dizer o mesmo sobre Passos Coelho em relação ao seu único sucessor no PSD que conseguiu ganhar eleições.
As desculpas
Olhemos para as desculpas esfarrapadas de Passos para tentar disfarçar que é a sua vontade, e apenas isso, que o impele a querer voltar ao poder. Sobre esta súbita febre opinativa, alega que não surgiu por si, mas fruto de um apelo popular que nasce no mais fundo da portugalidade. “As pessoas, no fundo, acham que eu contraí algumas obrigações que não se esgotaram com o meu mandato de governo. Eu compreendo que seja assim e sinto que seja assim”.
“As pessoas” pedem (provavelmente essas “pessoas” têm nomes, como Miguel Morgado, Miguel Relvas e André Ventura, a comissão da frente da agremiação Viúvas de Passos, grupo com alguma tração em certos setores da direita), e o Pedro acede generoso a esse apelo. Logo ele, que sempre foi tão solícito a corresponder a apelos alheios… Seria cómico se… esqueça; é mesmo cómico.
O programa
Admitamos, no entanto, que nada motive Passos para além do progresso do país (tese ingénua, mas que não se pode descartar). Como tenciona o ex-governante cumprir esse “desiderato”? Na entrevista ao Eco, Passos vai um polegarzinho além das vacuidades que tem dito, e esboça um plano de Governo. Coisa estranha: alguém que promete intervir cada vez mais na vida política (era a manchete do Expresso), embora sem a ambição de voltar a governar, mas que apresenta em entrevista as linhas mestras do que seria a sua governação. Minudências à parte, se fosse ele a mandar, Passos governaria com “reformismo” e sem medo de “rupturas”. E com o plano indisfarçado de se aliar ao Chega. Valente!
Primeira dificuldade: ter André Ventura como compagnon de route facilita sem dúvida as “ruturas”, mas dificulta o “reformismo”. Pela razão simples, e mais do que demonstrada, de que o Chega não tem qualquer pensamento coerente, qualquer visão para o país que vá além da estridência de ocasião de Ventura, ou qualquer desejo de mudar o sistema: o Chega quer apenas infiltrar-se nele, para retirar tanto proveito como aquele que acusa os outros de retirarem. Ou até mais. Pelo que se tem visto nas autarquias, há no Chega muita sede de “ir ao pote”, e qualquer cheirinho a poder justifica as maiores traições.
Por outro lado, é estranho que alguém alinhave no mesmo pensamento os conceitos de “estar de bem”, “progresso” e “Chega”. Trata-se do partido que mais dissemina ódio, que mais espalha mentiras, que mais tenta fraturar o país, que mais contribui para que o país não esteja “de bem” consigo mesmo. Mas também do partido apoiado pelos setores mais reaccionários da sociedade, entre saudosos da ditadura e do “Império”, desde falhados avulsos a empresários sem escrúpulos e intelectuais como o salazarista-mor Jaime Nogueira Pinto. Mas Passos sabe bem do que a casa gasta. Afinal, foi ele o criador de Ventura enquanto fenómeno político; por outro lado, sabe que nos tempos que correm só com Ventura chegaria lá.
Conhecemos a rota que traçou e a companhia que escolheu… mas para fazer o quê? Que reformas exatamente?
Aparentemente, continuar a fúria privatizadora, como indica a sua eterna obsessão pela TAP. E que belo resultado deu a marosca da “venda” da empresa a David Neeleman com recursos da própria TAP!... Ou outras, como a privatização dos CTT, com a melhoria de serviço a que qualquer cidadão assiste, no caso improvável de se lembrar de que os CTT existem.
Outra maravilhosa ironia: o Passos Coelho que se apresentou ao país com um livrinho que era um pequeno tratado ultraliberal, prometendo emagrecer o Estado até ao osso e aproveitando a troika para ir além dela nesse emagrecimento forçado, é o mesmo Passos que agora critica a incapacidade do Estado no socorro e apoio aos que foram afetados pelos temporais deste inverno. Imagine-se a boa resposta que daria um Estado mais magro, com menos recursos, e com um governo feito a meias com negacionistas das alterações climáticas. Podendo ser dramático, também seria fascinante assistir.
Na visão de ruturas e reformas de Passos Coelho também entram, claro, as leis do trabalho. Porque a economia “coiso”, e o trabalho é o fator que se pode esmagar à vontade, até por quase não haver desemprego e serem cada vez mais os imigrantes que constituem a mão de obra quase escrava do país. As críticas de PPC ao atual Governo não têm tanto a ver com as reformas propostas no Pacote Laboral – que oficializam e eternizam a precariedade dos trabalhadores, desprotegem ainda mais os mais frágeis, e fazem todos os fretes possíveis aos patrões –, mas sobretudo com questões de método e de imagem. O Governo devia isto, devia aquilo, devia até forçar eleições caso o Pacote Laboral seja chumbado no Parlamento (o que pressupõe o falhanço da Concertação Social, o que para Passos é sempre um dado adquirido).
Tanta voz grossa e demonstração de testosterona vinda de quem propôs, do pé para a mão, a mãe de todas as reformas do mercado de trabalho, a inesquecível ideia de pôr os trabalhadores a pagar uma parte da TSU que cabia aos patrões. Uma ideia daquelas mesmo boas, já testada com sucesso, fácil de entender pelo país e de aprovar com uma maioria absoluta. Só que não. Um absurdo sem pés nem cabeça inventado por um ministro das Finanças que já havia falhado em toda a linha, recusado até pelo parceiro de coligação, e recebido com revolta pelo país. O que fez Passos quando sentiu o tapete fugir-lhe por debaixo dos pés? Propôs eleições antecipadas para “relegitimar” blá blá blá? Curiosamente, não. Recuou, amochou, fez um número de sapateado para disfarçar a colossal derrota. E de caminho perdeu o ministro das Finanças, o seu amigo genial.
Sobre outras reformas não podemos senão especular. Mas podemos fazê-lo com base no pensamento e práticas de Passos, admitindo que tem convicções firmes e não é homem para mudar ao sabor do vento. Por exemplo, uma reforma da Segurança Social em que os cidadãos podem simplesmente não pagar contribuições durante cinco anos. Uma reforma das finanças públicas que torne obrigatória a apresentação anual de pelo menos um orçamento retificativo. Uma grande reforma da educação em que os professores deixem de ser piegas, saiam da sua zona de conforto, e emigrem para outros países lusófonos – afinal, tínhamos professores a mais, não era? Uma reforma da Administração Interna em que as polícias se dediquem ainda mais às “sensações de insegurança”, perseguindo essencialmente imigrantes, que rima com meliantes. Uma reforma do sistema financeiro em que todos os principais bancos estejam à beira do colapso, o fundo de resolução descapitalizado, e o crédito malparado seja galopante. São só algumas pistas…
A pressa
Mas porquê agora, e porquê com tanta intensidade? Antes de mais porque Passos acha mesmo que o governo de Luís Montenegro é incapaz. Não será o único a pensar assim. Mas tem de haver mais do que isso, e há coincidências a que não se pode escapar. O blitzkrieg destes dias começou com um facto: a saída de Luís Neves de diretor da PJ para o cargo de ministro da Administração Interna.
Neves mostrou-se um diretor da PJ desassombrado, nalguns casos assumindo o ónus de chocar de frente e destruir a narrativa do Governo (escrevi sobre isso aqui). E teve em mão investigações delicadas envolvendo o primeiro-ministro, a sua empresa e a sua casa. Investigações que prosseguiam e que podiam pôr em casa a sobrevivência política de Montenegro. Se o PM caísse devido a um caso judicial, Passos teria a circunstância perfeita para voltar, montado num cavalo branco, agitando as bandeiras da honestidade, da frugalidade, da predisposição para fazer o que fosse necessário, a bem da Nação. Parece uma imagem salazarenga, mas seria isso mesmo e parece que há quem goste.
No momento perverso em que o investigador se tornou subordinado do investigado, levando consigo o muito que sabe, tudo muda. Até porque Montenegro escolherá para futuro diretor da PJ alguém que não se atreva a pô-lo em causa. A possibilidade da queda por via de um escândalo fica mais distante. E desmorona-se um cenário de sonho.
Não se precipitando uma crise, Passos teme que o PSD continue a minguar. Quase desapareceu nas presidenciais, com um candidato que ficou longe de cumprir os mínimos. Na segunda volta, os eleitores do PSD foram decisivos para a vitória de “um socialista”, mas também ajudaram a empoderar o líder da extrema-direita. Tanto socialistas como extrema-direita farejam a fraqueza do PSD para lhe abocanharem partes do eleitorado. Montenegro terá de fazer muito mais para manter o seu partido como o mais votado. Porque não é impossível imaginar um cenário em que o continuado mau desempenho do Governo faça o eleitorado virar-se para outras alternativas – e, na previsão de Passos, quem está mais próximo de ultrapassar o PSD é o Chega.
PPC, naturalmente, gostaria de tomar as rédeas do PSD sendo este o maior partido, e não um putativo parceiro júnior do Chega. E de facto há uma linha ascendente na palma da mão de Ventura, e outra descendente escrita nas estrelas do PSD. Notaram a alegria com que Ventura falou na eventualidade de ter Passos como seu vice-primeiro-ministro? Sonhar não custa, e é Passos quem alimenta esse sonho.
“Há algo de podre no Reino da Dinamarca”, diz uma personagem de Shakespeare. “O céu providencia”, responde o interlocutor. É uma reflexão sobre traições políticas, movimentações de bastidores e a sensação de perigo iminente para quem exerce o poder em clima de conspiração.
Há algo de podre no reino do PSD.
O Pedro ajuda.