Não é o Chega que está a aproximar-se da coligação PSD-CDS; é a coligação que se aproxima do Chega. Por isso é fácil à extrema-direita parecer “responsável”, quando está apenas a votar a favor das suas próprias ideias, que foram adotadas por Montenegro
Luís Montenegro deu esta semana uma entrevista à Antena 1, como sempre bem conduzida pela Natália Carvalho. Sou bastante crítico deste primeiro mês de Governo, mas não desta entrevista, na qual o primeiro-ministro disse três ou quatro frases que, parecendo polémicas, são mais ou menos acertadas. Mais ou menos… Vejamos cada uma delas.
#1 O Chega “começa a mostrar” maior responsabilidade
Por ironia, o que deveria ser um elogio de Montenegro foi recebido por André Ventura como uma ofensa. O primeiro-ministro diz que conta “com a responsabilidade que o Chega ainda não mostrou até agora, [mas] está agora a começar a mostrar”, e logo Ventura meteu as garras de fora. Porque um elogio de Montenegro demonstra a total integração do Chega no sistema que tanto gosta de criticar – e essa integração mostra-se pela forma como o Chega está a escrever o guião da atuação política do Governo. A opção de Montenegro pelos temas do Chega – evidente na escolha da imigração e nacionalidade como primeiros temas da nova legislatura, mas também nos assuntos que foram riscados da disciplina de Cidadania, é a consagração do Chega como partido do sistema. Mas Ventura precisa de continuar a pretender que anda no arame, entre a influência da governação e a crítica aos “partidos do sistema”, dos quais finge que não faz parte.
Os elogios de Montenegro não são inocentes. Servem para desdramatizar o facto de ter escolhido o Chega como parceiro preferencial, e para arrancar a Ventura a máscara de partido anti-sistema. O elogio da sua “responsabilidade”, pela voz de um primeiro-ministro, é um claro embaraço para Ventura, e este percebeu o nó que lhe estavam a por no tornozelo. Por isso reagiu a espernear. "Eu não vivo nem dos elogios do primeiro-ministro, nem de nenhum político. Eu quero é trabalho”, respondeu Ventura, jurando que não será “a muleta do Governo”. E acrescentou o velho pregão populista “a minha política é o trabalho”. Está a ficar sem ideias… “Prefiro menos elogios e mais trabalho”, enfatizou. Pudera! Há elogios que são kryptonite.
Mas num ponto Ventura aproximou-se da verdade. Quem tem mostrado “sentido de responsabilidade”, disse, é o Governo, ao entender-se com o Chega. O ponto é esse: não é o Chega que está a fazer um movimento de aproximação à coligação PSD-CDS; é a coligação que está a aproximar-se do Chega. Por isso é fácil ao partido de extrema-direita parecer “responsável” quando vota a favor das suas próprias ideias, que foram adotadas na ação política do Executivo. Eis um caso em que a ordem dos fatores não é arbitrária.
#2 “Não custa nada” a Montenegro elogiar o Chega
Esta já tínhamos percebido. O melhor elogio de Montenegro ao Chega é a forma como está a adotar para o Governo as políticas do Chega. Ora, se o Chega dá meio guião da ação governativa, porque haveria o primeiro-ministro de ter dificuldades em elogiar o seu guionista? O caso desta semana, com o Executivo a retirar da disciplina de Cidadania todos os conteúdos sobre educação para a sexualidade, saúde sexual e questões de identidade de género, é um frete à direita mais reaccionária e conservadora, que quer jovens ignorantes, eventualmente crentes na teoria criacionista, como diz a Bíblia, conforme se vê acontecer em muitos locais dos Estados Trumpistas da América. Com doenças sexualmente transmissíveis que são “castigo de deus” por caírem na tentação e gravidezes na adolescência “porque deus manda”.
Não é só uma cedência ao Chega, mas também à linha mais reaccionária do CDS, bem personificada em Paulo Núncio. Voltamos ao tempo em que o sexo é “um mistério”, “uma graça” divina com o intuito único da reprodução humana, como dizia o deputado Morgado. E voltamos ao tempo em que o CDS se reduz a um partido confessional, pouco diferente dos partidos evangélicos no Brasil. Aliás, é bom lembrar também o peso da influência evangélica por cá, no Chega.
Quanto aos miúdos que não se contentem com as explicações do sexo como “mistério” e “graça”, podem sempre ir ao Google e ver como se faz, sem contraceptivos, com os homens a dominar as mulheres e elas à disposição do que o cabeça de casal lhes faça. O Pornhub como escola de sexualidade dos jovens portugueses do século XXI, tal como a Gina foi na minha juventude, não é um retrocesso que eu esperasse ou recomende. Mas é o que deus manda e o que CDS e o Chega querem. Ao menos o Pornhub não se cola nas mãos. Bem-vindos de volta ao século XX.
Na entrevista à Antena 1, Montenegro enquadrou a afirmação de que PS e Chega são ambos “alternativas de Governo”, explicando que têm “uma representação equivalente, similar”. Uma mera questão matemática, portanto. É pena que Montenegro não tenha percebido que a matemática, tal como a sexualidade, é “complexa” (cito a palavra usada pelo ministro da Educação – que decepção, Fernando Alexandre; que decepção, Alexandre Homem Cristo!). Tão complexa que, neste caso, optar pelo Chega ou pelo PS como parceiro para fazer maiorias, não é sequer uma questão matemática, imagine-se – é mesmo uma escolha política. E Montenegro fez a sua.
#3 O Chega “está normalizado”
Verdade, verdadinha. Está tão normalizado, que o presidente da Assembleia da República já acha normal qualquer comportamento da bancada do Chega por muito troglodita, asinino ou taberneiro que seja. Costuma dizer-se que um palhaço num palácio não passa a ser um rei, mas o palácio passa a ser um circo. Suponho que a mesma lógica se aplique ao comportamento de taberneiro num Parlamento.
Mas há outros sintomas de que o Chega está “normalizado”. Antes, havia coisas que só Ventura e uma chusma de fiéis dizia – mas a maioria, mesmo quando pensava parecido, sentia que era errado dizer essas coisas: comentários misóginos, sexistas, homofóbicos, racistas, xenófobos. Mas, de repente, essas coisas passaram a ser ditas no Parlamento. Nas televisões. Por cada vez mais gente do Chega. E por cada vez mais gente que não é do Chega. Até que algumas dessas coisas passaram a ser ditas até por membros do Governo. A ligação entre imigração e criminalidade é um bom exemplo: é falsa e devia ficar no pequeno nicho conspirativo de onde nunca devia ter saído. Mas saiu e tornou-se lugar comum.
Quando até o primeiro-ministro faz essa correlação imigração/criminalidade alto e bom som, dando mais valor a “percepções” do que a factos, não há mais normalização possível. Quando o velho CDS, que em tempos funcionava como o dique que não deixava transbordar o extremismo, hoje luta para fazer prova de vida comportando-se como câmara de eco dos preconceitos e estereótipos da marca Chega, não há maior normalização possível. Quando muitos defendem a ideia genial de que a melhor forma de combater o Chega é “roubar-lhe” as causas, não há maior normalização possível. De que serve outro partido ganhar as eleições, se for para implementar o programa do Chega?
Querem exemplos práticos? A forma como Montenegro deixou de defender a reunificação familiar dos imigrantes, para passar a obstaculizá-la. O descaramento com que o ministro da Educação passou a achar “problemáticos” os conteúdos de educação para a sexualidade e saúde sexual na disciplina de Cidadania e Desenvolvimento, que antes defendia. Não é preciso o Chega ganhar para o Chega ganhar. Basta normalizar o seu discurso.
#4 “O PS não está habituado a estar na oposição”
Verdade. “O PS esteve 23 anos no Governo em 30 (...) e isso habituou mal o Partido Socialista, que deve ter a humildade democrática de saber estar na oposição”, disse Montenegro. Os dados são factuais, e a prova de que o PS está mal habituado é a forma como Pedro Nuno saiu, sem admitir erros ou uma mudança de rumo para o partido, mas também a forma como José Luís Carneiro se agarra com unhas e dentes à única plataforma de poder que os socialistas ainda têm: as eleições autárquicas. O PS é o maior partido autárquico, com 149 presidências de câmara, também é o que lidera mais juntas de freguesia, e Carneiro sabe que esse será o único balão de oxigénio para os socialilstas nos próximos tempos.
Ainda que perca terreno, como é provável, tendo em conta os excelentes resultados das duas últimas eleições locais (na última das quais o atual secretário-geral teve o mérito de ser coordenador autárquico), Carneiro precisa de manter o estatuto, com o maior número de presidências de câmara. A ameaça já não vem apenas do PSD, apesar de, desta vez, os candidatos laranja terem o respaldo do Governo. Vem sobretudo do Chega, que tenta transpor para o poder local o crescimento exponencial que teve nas eleições nacionais.
O PS está com medo. Por isso um candidato promete combate a uma mesquita. Outro atua “sem dó nem piedade” contra populações pobres e racializadas. E quase todos sentem a impunidade de quem tem nas mãos o poder e o destino do líder do partido.
José Luís Carneiro não ousa hostilizar candidatos com boas hipóteses de vitória, sobretudo os que já são presidentes em funções, por muito heterodoxas que sejam as suas posições. É isso que explica a tibieza do líder socialista perante a atuação de alguém como Ricardo Leão, cujo discurso sobre política de habitação e bairros de barracas parece decalcado do livrinho de discursos de André Ventura. A direita que gosta deste socialismo proto-chegano aplaude e diz que Leão é o PS a encarar a realidade dos factos. De outro ponto de vista, podemos dizer que é o PS a vergar-se ao medo, e a fazer de durão em vez de comprar um cão.
No caso de Loures, a hipocrisia da suposta preocupação com a “dignidade humana”, a “justiça” e a “lei”, retirando deste triângulo virtuoso a justificação para deixar mais de uma centena de pessoas sem o único teto que tinham – frágil, ilegal e insalubre, mas teto – salta à vista. A discriminação dos mais pobres dos pobres, para mostrar serviço aos outros, um bocadinho menos pobres, é evidente. O facto de quase todos os desabrigados serem imigrantes, negros, muitos deles ilegais, quase todos a trabalhar sem ganhar o mínimo para pagar uma renda, não é uma coincidência. A contradição de tudo isto com os princípios basilares do PS salta à vista, como bem denunciaram alguns ex-governantes e outros militantes do PS.
De José Luís Carneiro ouviu-se a compreensão com a complexidade da situação que os autarcas enfrentam, sem verbalizar a equivalente compreensão com a situação dos que, sem ter teto, improvisam um, e o vêem ser demolido sem reais alternativas, pernoitando ao relento. Carneiro, obviamente, foge como o diabo da cruz das perguntas sobre se mantém a confiança política no autarca de Loures que vampiriza o discurso do Chega. Chama a isso “fatores de distração”. Compreendo a complexidade da sua situação. Como compreendo a complexidade da situação do candidato do Chega a Loures, coitado, que vê o seu discurso apropriado, e levado à prática, por um socialista.
O secretário-geral do PS promete, entretanto, “uma convenção autárquica para assumirmos um conjunto de compromissos claros em relação aos princípios e aos valores fundamentais que conduzem a ação política das nossas candidatas e dos nossos candidatos. Porque ser candidato em nome do PS significa estarmos comprometidos com valores constitucionais, com princípios fundamentais dos direitos humanos que têm que ser salvaguardados em cada comunidade local neste país.” Muito bem. Logo veremos como cabe nesse compromisso a política “sem dó nem piedade” de Ricardo Leão.
Mas, ainda antes dessa convenção autárquica, Carneiro promete que “durante esta semana [vai] apresentar soluções para também responder às situações de emergência, como aquelas que têm estado a ser vividas em vários municípios da área de Lisboa". Serão, diz Carneiro, propostas que obedecem “ao humanismo e à responsabilidade social”.
Espero para ver. Pois só isso – políticas diferentes, humanistas, mas pragmáticas e exequíveis – pode criar uma alternativa à união de facto PSD-Chega.