Marcelo cala-se agora porque sabe que falhou e tem culpas no cartório. Só lhe resta o consolo de deixar o seu partido no poder, e a esperança de algum reconhecimento por isso. É poucochinho, mas é o que há
Parece que já poucos se lembram, mas vai fazer dez anos que Cavaco Silva deixou a Presidência da República com índices recorde de impopularidade. Um feito que conseguiu não uma, mas duas vezes: quando saiu de São Bento e quando saiu de Belém. Em ambos os casos, a seguir a Cavaco venceram os candidatos que se apresentaram como o seu perfeito oposto. Foi com essa certeza que há dez anos os eleitores puseram Marcelo Rebelo de Sousa na Presidência logo à primeira volta.
Um dia, creio que no início dos anos 90, alguém comparou Cavaco com um manequim da Rua dos Fanqueiros. Não sei se ainda há manequins desses, mas eram iguais a Cavaco: tensos, hirtos, vestindo roupa conservadora de qualidade duvidosa e, sobretudo, calados. Assim era o Cavaco que Portugal conheceu há 40 anos (efeméride devidamente assinalada pelo seu discípulo Montenegro), e assim se manteve, sobretudo na parte hirta e calada.
Ao pé de Cavaco, Marcelo era novo, era refrescante, era solto, era fashion. Mexido, espirituoso, acessível, falador. Os super poderes de Cavaco eram a distância e o silêncio; os de Marcelo, a proximidade e a tagarelice. Uma espécie de vizinha de toda a gente.
Não era decididamente um manequim da Rua dos Fanqueiros. Não sendo um luxo, não parecia produto barato. Era acessível, mas aspiracional, um pouco como aquelas colaborações de nomes sonantes com marcas de roupa low cost. Marcelo não era Rua dos Fanqueiros, era como as coleções especiais da H&M em colaboração com Lagerfeld, Cavalli, Kenzo ou Versace – continuando a ser H&M, parece mais do que é.
A perda de valor por excesso de oferta
A triste verdade é que, como diz o povo, o barato sai caro. E no caso de Marcelo, nada era mais barato do que a palavra. Tornou-se (perdoem-me a linguagem técnica de Ciência Política) um fala-barato. Falava por tudo e sobretudo por nada. A morte de George Michael, o decote de uma moça, os gelados do Santini, episódios mais ou menos obscuros da nossa História, tudo merecia uma palavra presidencial – ou melhor, muitas, que nisto de falar Marcelo não poupa. Perorou sobre questões da governação, jogos da Seleção e artigos da Constituição com o mesmo à vontade e prolixidade. Como sempre, quando a oferta excede em demasia a procura, o bem desvaloriza-se. Marcelo falava, falava, mas falava barato.
Quando quis que as suas palavras tivessem peso e valor político, estas desfaziam-se no ar.
Foi o que aconteceu quando, imagine-se, o PR quis demitir um ministro. O Presidente pode dissolver o Parlamento, fazer cair governos e marcar eleições. Mas, dando posse aos ministros, não decide quem deve deixar de o ser. Isso já aconteceu no passado – mas com Presidentes cuja palavra tinha peso. Não foi o caso, com Marcelo.
Por acaso, não tinha nem força nem razão: queria que António Costa despedisse João Galamba por causa de uma zaragata que ocorreu no seu ministério. Zaragata em que o ministro não participou, pois nem estava no ministério, sendo que tudo aconteceu porque o ministro tinha despedido o zaragateiro (e as cenas que este protagonizou comprovam a necessidade desse despedimento). Costa respondeu que não via razão para cumprir o desejo presidencial.
Despedir o ministro da zaragata ou a ministra da Saúde?
Isto parece História Antiga, mas não é. É uma bitola. Note o absurdo: o Presidente que queria a remodelação de um ministro porque houve uns chega-pra-lá no ministério, na ausência do ministro, é o mesmo Presidente que poupou a semelhante sentença a atual ministra da Saúde. Sim, Ana Paula Martins lidera um SNS em pantanas, com sucessivos falhanços de toda a ordem, com uma lista em que se acumulam vítimas (mortais e políticas), sem que tenha uma ideia sobre o que fazer para repor a normalidade e a confiança dos cidadãos no serviço público de Saúde. Mas como não o ver? O incidente em que Galamba não esteve metido foi muito mais grave do que a desgraça nacional dirigida pela doutora (farmacêutica) Ana Paula Martins.
Em que cabeça cabe isto? Não sei. Mas sei que foi isto que nos saiu nos discursos e declarações presidenciais. Lá está: o fala-barato sai caro, sobretudo quando deixa de dizer o que pensa, para dizer o que acha que deve. E é isto que Marcelo acha que deve dizer agora: o mínimo possível, para não beliscar o governo do seu partido. Sair de Belém fazendo as pazes com o seu partido parece ser o fraco consolo que lhe resta.
O silêncio do culpado
Não há coisa mais triste do que ver um eterno rebelde, que sempre desfrutou do caos e da confusão que lançou no seu partido ao longo de décadas, com as suas marcelices, desfazer-se agora em obséquios na esperança de agradar ao líder de turno: um “rural” de nome Montenegro.
O Marcelo que falava de tudo e tinha veneno na ponta da língua, agora mede as palavras e destila doçura. Por isso compactua com as previsões irrealistas do ministro das Finanças; por isso sugere pactos de regime para a Saúde, em vez de chamar o desgoverno pelo nome. Por isso ajudou como pôde Carlos Moedas. Por isso, também, fica agora em silêncio quando um candidato presidencial o acusa de perfídia política motivada por uma pequena vingança.
Marcelo cala-se agora porque sabe que tem culpas no cartório. Só lhe resta o prémio de deixar o seu partido no poder, e a esperança de algum reconhecimento por isso. É poucochinho, mas é o que há.
Se os dois candidatos anti-sistema (refiro-me a Gouveia e Melo e a Ventura) passarem à segunda volta, o falhanço de Marcelo será colossal. Dirá “morro bem, salvem a Pátria”, como disse outro que prometia muito e entregou pouco?
Aconteça o que acontecer na próxima noite eleitoral, já há uma medida do fracasso deste PR. Não há um único candidato que se apresente como herdeiro de Marcelo. Que prometa exercer o cargo de forma parecida com Marcelo. Cruzes canhoto! Nem o sempre leal Marques Mendes se revê nesta herança.
Parece igualzinho ao fim do mandato de Cavaco. Impopular, sem saber o que fazer com as palavras, e empurrado pelas circunstâncias, não no seu controlo. Marcelo vai pelo mesmo caminho. Quem é agora o manequim da Rua dos Fanqueiros? (Ainda há manequins na Rua dos Fanqueiros?)