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Comentador CNN

Que Se Lixem As Eleições | Os ministros que não sabem nada e o ministro que sabe demais

25 fev, 08:00
Tomada de posse de Luís Neves como ministro da Administração Interna (JOÃO RELVAS/LUSA)

Este é o Governo onde tantos ministros dão provas de saber tão pouco. Ou de não quererem saber. Nesta desolação, destaca-se agora Luís Neves. Porque vem da direção da PJ e graças a isso sabe demais. Parece uma coisa boa? Não é

Chegou finalmente ao fim o folhetim que animou o país nos últimos dias. Não me refiro ao mano-a-mano entre Benfica e Real Madrid, mas ao outro folhetim que animou o Portugal político: temos ministro da Administração Interna. Luís Neves foi o escolhido para suceder a Luís Montenegro, que sucedeu a Maria Lúcia Amaral. Ao fim de dois anos, duas ministras desastrosas e consequências graves da sua incompetência, o primeiro-ministro talvez tenha acertado na escolha para uma pasta tão central e desafiante.

Escrevo “talvez”, apesar dos elogios quase generalizados de especialistas, comentadores e do líder do PS. Em contravapor a esta missa cantada, tivémos o Chega a desfazer esta escolha, o sintoma mais seguro de que pode mesmo ter sido uma escolha acertada. Se o Chega está contra, é porque deve ser bom.

Não maçarei os leitores com metáforas estafadas de ministros que são como melões e que só se conhecem depois de abertos. Até porque não se aplica a este caso em concreto. Conhecemos razoavelmente Luís Neves. Não como ministro, não como político, mas como líder cuja ação teve impacto social e político. 

Os processos com que lidou e que liderou na PJ, o seu empenho na vigilância aos grupos de ódio que rasgam uma fratura cada vez maior na sociedade, o seu combate a organizações como o 1143, caracterizado pela Judiciária como associação criminosa neonazi com planos de “combate urbano”, e o favor que fez à Pátria ao explicar, com dados, que não existe mesmo qualquer relação entre imigração e aumento da criminalidade. Fê-lo quando era mais difícil e mais necessário: quando o Governo agarrou com fervor as bandeiras xenófobas e racistas do Chega, com Leitão Amaro a fazer de boneco do ventríloquo André Ventura.

As leis do mercado trataram de demonstrar o erro que foram as políticas anti-imigração aprovadas por este Governo em cima do joelho – as sucessivas correções e aditamentos à dita “via verde” são um atestado de incapacidade ao ministro da Propag… Presidência e ao seu gabinete. As tempestades encarregaram-se de escangalhar toda a narrativa sobre a necessidade de recebermos apenas trabalhadores “altamente qualificados”, como papaguevam os governantes. 

Mas antes disso, Luís Neves desmontou a maior patranha abraçada por uma certa direita nos últimos anos: o binómio imigração/ insegurança. Ou, como plano B, o binómio imigração/ perceção de insegurança. Uma falsa narrativa lançada por Ventura, abençoada por Passos Coelho, acelerada pela AD e pelo Governo.

Luís Neves conhece os desafios de segurança interna, as instituições, os agentes. os mecanismos e o seu funcionamento, os casos de sucesso (e insucesso) de outros países. Só vantagens em relação aos antecessores.

Mas… 

Há sempre um mas. O primeiro é constatar que o primeiro-ministro continua a olhar para a Administração Interna como o ministério das polícias. É muito isso, mas não é só isso. Como qualquer português sabe hoje de experiência feita, o MAI também é o ministério da Proteção Civil, dos bombeiros, da articulação com os autarcas e com os militares em momentos de calamidade. O MAI é o ministério que tem de preparar, prevenir, estar em prontidão e reagir aos fogos do verão e aos temporais e inundações do inverno. O secretário de Estado da Proteção Civil falhou clamorosamente antes, durante e depois da tragédia que se abateu há quase um mês sobre Portugal. A sua entrevista naïve a uma televisão, garantindo que tudo estava controlado no preciso momento em que o centro do país se começava a afundar, é o pior cartão de visita para alguém na sua posição. Porém, foi reconduzido.

O mesmo em relação ao comando da Proteção Civil. Quem viveu os acontecimentos por dentro sabe o quanto a Proteção Civil desvalorizou informação que devia levar a sério. Não fez avisos com a gravidade que devia ter feito. O quanto demorou a reagir. E, quando o fez, já com o sistema de comunicações em falência na área crítica do país, foi em boa medida arrastada por ações que já estavam em curso por iniciativa de autarcas ou de corporações de bombeiros. A lentidão na articulação com as Forças Armadas foi a cereja no topo do desastre.

O novo ministro, que sobre esta frente tão crítica da sua tutela pouco sabe, manteve um secretário de Estado herdado. Irá manter também quem falhou na Proteção Civil?

Outro mas…

A segunda reserva sobre a indicação de Luís Neves tem a ver com a troca de cadeiras que implicou. Não, não é normal que o diretor nacional da PJ num dia seja ministro da Administração Interna no dia seguinte. Pedro Passos Coelho disse isso ontem, e nada me impede de concordar com o que disse o D. Sebastião da direita.

A PJ tem muitas investigações em curso, incluindo sobre suspeitas que envolvem a empresa do primeiro-ministro e a casa do primeiro-ministro. O diretor da PJ não investiga, mas sabe o que está a ser investigado e acompanha o decurso das investigações. É o seu trabalho. Seria bom acreditar na “estanquicidade” de que falou Luís Neves, alegando que nada conhece sobre investigações em curso, mas tal seria mesmo um caso de crença. Um salto de fé, quase.

Para acreditar que Luís Neves não sabe o que é altamente provável que saiba, teríamos também de esquecer que estamos em Portugal, e que o país é como é, as instituições são como são, e a Justiça “funciona” como “funciona”. Tudo sopesado, é mais fácil uma crença cega do que fechar os olhos ao que nos rodeia no país onde vivemos.

Não saber e não querer saber

Este é o Governo onde tantos ministros sabem tão pouco. A antecessora de Luís Neves não sabia “o que correu mal” na resposta à calamidade, porque simplesmente desconhecia o que deveria ter corrido bem. 

A ministra da Saúde, que folga as costas quando outros estão debaixo de fogo, não sabe explicar por que razão todos os indicadores do SNS se degradam, incluindo o dos gastos (a área “está num caminho de insustentabilidade financeira”, vaticinou ontem o oráculo Passos Coelho).

O ministro da Agricultura, mais um em tournée nacional para mostrar que o Governo “está no terreno”, chega a Coimbra para um encontro com autarcas e desata a perorar para a comunicação social, sem dizer água-vai aos presidentes de Câmara que o esperavam. Se não sabe o básico, haja alguém que o ensine. Foi o que fez Ana Abrunhosa com uma descompostura em público como nunca se viu um autarca dar a um ministro. Carregadinha de razão, como o próprio ministro admitiria.

O ministro dos Negócios Estrangeiros, cuja única ambição parece ser receber o prémio de funcionário do mês da Casa Branca, garante que o acordo das Lajes não diz o que o acordo das Lajes diz. Lê-se no papel, preto no branco, que “qualquer utilização pelos EUA das instalações” das Lajes que não cumpra determinados requisitos “deverá ser objeto de autorização prévia”. Que requisitos? No essencial, utilizar a base no âmbito de missões ou operações militares aprovadas pela NATO ou por “outras organizações internacionais de que ambas as partes sejam membros”. E o que diz o Dr. Rangel quando os EUA utilizam as Lajes para um eventual ataque ao Irão sem qualquer mandato internacional? Que Trump pode fazer nas Lajes o que lhe aprouver.

No meio de tantos ministros que não sabem, e de outros que não querem saber, Luís Neves destaca-se. Por saber demais.

Chamem as maquilhadoras

Parte-me o coração contrariar tanto comentariado deslumbrado com a jogada de mestre de Luís Montenegro ao tirar este MAI da cartola. Até pode dar muito boa conta do recado; veremos, e oxalá assim seja. Mas é uma escolha intrinsecamente errada, inaugurando uma porta rotativa que nunca antes alguém se lembrou de abrir – e por boas razões nunca foi aberta. 

Para além disso, veremos se a tomada de posse de segunda-feira não irá causar problemas dispensáveis com a escolha de um novo diretor-nacional da PJ. Irá Montenegro mais uma vez escolher um amigo, como fez com o Procurador-Geral da República?

Se assim for, onze mil euros em maquilhagem não vão chegar.

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