O que têm em comum Luís Montenegro e Pedro Nuno Santos (e também Álvaro Santos Pereira)? Dão razão a uma máxima carregada de sabedoria
É de Georges Clemenceau a frase que inspirou o título desta crónica. “A guerra!... É uma coisa demasiada grave para ser confiada aos militares”, afirmou o político francês, que em intervenções públicas ia demolindo o governo e as chefias militares de França durante a I Grande Guerra. Da mesma forma se pode dizer que escolher líderes partidários é um assunto demasiado sério para ser confiado aos partidos. Dou apenas dois exemplos recentes e, julgo, esclarecedores sobre o assunto, um do PSD e outro do PS.
Em maio de 2022 (como o tempo passa até quando não nos estamos a divertir…), o PSD escolheu Luís Montenegro para suceder a Rui Rio. Era evidente que Montenegro seria o vencedor – cacicou tantos apoios ao longo de anos, fez tantos cálculos, deixou tantos apoiantes pendurados em momentos decisivos… e esperou até que as estrelas estivessem alinhadas para a sua vitória.
Também era evidente que Montenegro não era o melhor candidato que o PSD podia escolher. Não falo de abstrações do género “fulano podia ter avançado”, “sicrano desperdiçou uma oportunidade”. Facto: havia outro nome nessa disputa, Jorge Moreira da Silva.
A diferença de competência, de currículo, e de experiência política entre Moreira da Silva e Montenegro era abissal, a favor de Moreira da Silva. Entre outros pontos, já havia exercido cargos governamentais (experiência que faltava a Montenegro), e tinha sido conselheiro da Presidência da República. Mais: Moreira da Silva, que tal como Montenegro emergiu na política pelas escadinhas da juventude partidária e depois subiu nos vários níveis de poder no partido, mostrou-se sempre mais independente, mais proativo, e com mundo para além do PSD. Antes de disputar o partido com Montenegro, fundou o think-tank Plataforma para o Desenvolvimento Sustentável, foi conselheiro de diversas organizações internacionais, e Diretor da Cooperação para o Desenvolvimento na OCDE, onde liderou o Secretariado do Comité de Ajuda ao Desenvolvimento. Abdicou desse cargo para se candidatar ao PSD.
Montenegro, depois de ter atingido o estrelato como líder parlamentar de Passos Coelho, eternizando-se pela frase “Portugal está melhor, os portugueses é que não”, fez a sua vidinha de advogado em Espinho, onde fundou a famosa (e infame) Spinumviva. Pelo meio, em 2019, fez um curso rápido de gestão avançada para executivos do Instituto Europeu para Administração de Empresas — INSEAD, em Fontainebleau, França. Oh lá lá!. À época, o Expresso escreveu: “Luís Montenegro vai estudar… para suceder a Rio e a Costa”. Dificilmente um título seria mais certeiro, mas não gosto de elogios em causa própria.
O das gasolineiras e o da ONU
Os partidos são como são, e ganha quem tem o aparelho na mão. Montenegro tinha, Moreira da Silva não. Montenegro passou os anos de Rio a calcorrear o circuito da “carne assada”, Moreira da Silva entrou tarde na corrida, e sem cacicagem que chegasse. O desfecho foi o que foi.
Vem isto a propósito da entrevista que Jorge Moreira da Silva deu esta semana ao Público, depois de uma outra que deu há dias à CNN Portugal. O homem que podia ter chegado a primeiro-ministro (tivesse o PSD apostado nele em 2022… depois, era só uma questão de estar na cadeira quando António Costa caíu) é hoje Sub-Secretário-Geral das Nações Unidas e Diretor Executivo da UNOPS, a agência da ONU para Projetos e Serviços, que acorre a situações de emergência e garante os básicos em países em vias de desenvolvimento: escolas, pontes, estradas, saneamento, e outra infraestruturas essenciais. Não faltam dramas a que acudir.
Moreira da Silva não foi nomeado: candidatou-se, num concurso internacional, e ganhou por mérito. Ninguém daria um lugar destes ao Jorge de Famalicão se não fosse por mérito. Tudo isto enquanto Montenegro prestava serviços variados a casinos e gasolineiras. Com todo o respeito, não é a mesma coisa.
A prova de que não é a mesma coisa está na incapacidade de Montenegro produzir um pensamento elaborado sobre o mundo em que vivemos. Mas também na fragilidade dessa agremiação que dirige, e a que chamamos governo, com fracos quadros e pior liderança – esse Governo que ontem estava muito contente por apresentar uma sigla vistosa que parece que vai ajudar os portugueses afetados pelas tempestades de fevereiro. De fevereiro!!!
A prova de que não é a mesma coisa é o envolvimento de Moreira da Silva no apoio a Gaza e o desassombro com que fala desse crime contra a humanidade, para nomear apenas um exemplo notório. Ou o facto de ter sido agora nomeado para dirigir um grupo de trabalho com o objetivo de conseguir que o Estreito de Ormuz se volte a abrir à passagem de fertilizantes – acontece que no berbicacho de Ormuz, no lado B da crise energética há o risco de uma catastrófica fome global, porque os fertilizantes para a agricultura estão igualmente impedidos de passar.
É difícil discernir o que ganhou o país com a escolha do PSD há quatro anos, quando achou que bom bom era Luís Montenegro em vez de Moreira da Silva. E lá emigrou mais um português altamente qualificado, com a vantagem adicional de ser vertical e íntegro. Ah!, e com o gosto de celebrar o 25 de abril. Este sábado, Moreira da Silva desceu a Avenida com a família, de cravo ao peito, e colocou a foto no Twitter. “Celebrar o 25 de Abril, sempre!”, escreveu na legenda. Ao contrário de Montenegro, que esconde a festa revolução por detrás da “festa da família”, ou da “festa do teatro”, como quem tem vergonha de Abril.
O bom rapaz contra o enfant terrible
Em anos recentes não foi só o PSD que cometeu um erro na escolha do seu líder cujas consequências todos sentimos. O PS não sai melhor na fotografia. Em 2023, quando António Costa saiu de cena e Marcelo Rebelo de Sousa fez o favor de convocar eleições, apesar de haver uma inquestionável maioria absoluta, o PS deixou-se capturar pelo aparelho partidário e pelo barulho das luzes.
Nas eleições internas em que venceu Pedro Nuno Santos, também havia alternativa. Era José Luís Carneiro. Era óbvio que a vitória estava no papo para Pedro Nuno – tal como Montenegro, foram muitos anos a amealhar promessas de votos no aparelho partidário, e a impor-se como a escolha óbvia e necessária. Pedro Nuno fê-lo apoiando-se na “sua” JS, que em tempos dirigiu e que, como ele, cresceu depois para cargos de poder do partido.
Apesar de o campo estar inclinado contra si, José Luís Carneiro entrou nessa disputa – sem uma geração a levá-lo no andor, sem anos a bater cada secção do partido, sem a verve, a garra, o carisma do jovem turco que prometia devolver ao PS as insígnias de esquerda, só esquerda e nada mais do que esquerda.
E, contudo, Pedro Nuno era o pior candidato que o PS poderia apresentar a votos naquelas eleições. O seu orgulhoso discurso de esquerda, em vez de atrair eleitores, afastava – não tem, nem nunca teve, o talento de Costa para ser de esquerda quando convém e centrista quando é preciso. Tinha currículo governativo que parecia cadastro, desde logo a calamitosa gestão do dossiê TAP e do despedimento milionário da ex-CEO francesa. O caso foi tal que levou à saída do ministro. As promessas na habitação ficaram por cumprir, bem como a melhoria do serviço da CP.
Pedro Nuno era um alvo sentado. Era fácil acusá-lo de ser um governante incompetente e pouco confiável, era impetuoso demais para a política adulta, era “esquerdista” demais para o eleitorado moderado. Nenhum destes problemas assombrava José Luís Carneiro: moderado, ponderado, com ar de bom rapaz, e não de bom rebelde, tinha passado pela prova de fogo de ser ministro da Administração Interna sem se queimar.
Santos era um licenciado tardio, com fama de gostar pouco de estudar dossiês; Carneiro era o aluno certinho, que cedo começou a dar aulas. Até nisso eram diferentes. José Luís era o perfeito oposto de Pedro Nuno, a quem todas as críticas se podiam colar. E colavam.
A oportunidade perdida do PS
Achei sempre – é uma opinião, mas é a minha e não mudou – que José Luís Carneiro poderia vencer essas primeiras eleições contra Luís Montenegro, em 2024. Seria uma disputa equilibrada, sem que alguém beneficiasse de ser o incumbente (situação que não se repete, agora que Montenegro tem o super-poder de ser primeiro-ministro). Nenhum se mostrava especialmente carismático, mas isso do carisma tem muito que se lhe diga, e há-o com aspetos diferentes. Pedro Nuno era muito carismático muito carismático, e entregou o PS como terceiro partido...
A canga que António Costa deixou na sua saída atribulada não pesou assim tanto aos socialistas: em 2024 o PS ficou a menos de 1 ponto percentual da AD. O fosso para a AD só se cavou depois, sob os comandos de Pedro Nuno. Este mostrou-se sempre tolhido pela indecisão: ser igual a si mesmo, sanguíneo, enfant terrible, ou parecer mais moderado e menos “radical”? Nunca resolveu esse dilema. Voltou a deixar-se enlear nele nas legislativas antecipadas de 2025. Dilema que com Carneiro nunca existiu: what you see is what you get.
Agora que Pedro Nuno voltou com estrondo ao Parlamento, mostrou as suas verdadeiras cores: é um populista de esquerda. Se calhar nunca deixou de ser o puto reguila que sonhava “fazer tremer as pernas dos banqueiros alemães”. Acha-se ungido como espécimen raro de “social-democrata de esquerda” dentro do PS (e com isto, supõe que existam sociais-democratas de direita, raça de gente que só existirá na sua cabeça).
Nada demonstra melhor a minha teoria de que José Luís Carneiro teria sido a escolha certa em 2024 do que esta estrepitosa reentrada em cena de Pedro Nuno. disparando em todas as direções (contra o Governo, António Costa, até contra velhos compagnons de route no PS). Até deixou uma bicada a Carneiro, por ser “centrista”, mas também um inesperado elogio: “Tenho muito mais respeito pelo José Luís Carneiro do que pelos tacticistas que estão à espera que venham tempos mais fáceis para o PS avançar.”
De tudo o que PNS disse, tiramos duas conclusões: 1) Pedro Nuno ainda não teve vagar para reconhecer os erros que cometeu à frente do PS; 2) o PS voltou a ser o bom velho ninho de conspirações, como nos tempos do sótão de Guterres. Não sei se há sótão, mas há Duarte Cordeiro, Fernando Medina e Mariana Vieira da Silva, obviamente os três principais visados quando Pedro Nuno aponta o dedo aos “tacticistas” que esperam ventos de feição para tomar o poder.
Esse foi o truque de Costa para apear Seguro. À primeira, surpreendeu e resultou – mas os eleitores não terão achado assim tão brilhante, tendo em conta que Costa não venceu as eleições (o que o obrigou a inventar a geringonça). À segunda, não surpreende e cheira a velho. Já todos toparam a manobra de Duarte Cordeiro, e para quem não tinha percebido, Pedro Nuno pôs a boca no trombone.
O beneficiado acidental
Há quem ache que, com este clima no PS, ganha Montenegro. Duvido. Montenegro ganha se governar bem – se responder às crises a tempo, com atos e não com palavras, se conseguir travar o desaire do SNS, se garantir professores aos alunos da escola pública, se desistir de uma lei laboral impopular e desnecessária, se deixar de seguir as pisadas do Chega. Se continuar pelo atual rumo, de nada valem ao primeiro-ministro as atribulações socialistas.
E no PS ganha alguém com este estado de coisas? Talvez. Entre prima-donnas despeitadas e conspiradores atrás da moita, talvez ganhe o líder em funções que, regra geral, se comporta como o adulto na sala, ponderado, moderado, ainda que lento a afirmar-se como alternativa. Contudo, já lidera algumas sondagens. Talvez seja isso que agita os demais.
PS: O Álvaro vai à bolsa
Breve nota final para referir outro caso clamoroso de escolha de um líder errado. Já sabíamos que não temos o melhor governador do Banco de Portugal que poderíamos ter. Se o cargo fosse ocupado por concurso, com critérios rigorosos, Mário Centeno nunca teria sido substituído pelo “Álvaro”. Não há um único critério, do percurso profissional ao currículo académico, em que Álvaro Santos Pereira fique à frente de Centeno (há uns meses escrevi aqui sobre isso). Mas esta semana o “Álvaro” deu-nos uma amostra grátis do que a casa gasta: não só não tem currículo nem preparação para ser governador do Banco de Portugal, como não tem noção.
A história das ações que Santos Pereira comprou quando já era governador é má demais. Diz-nos que não conhece as regras do BCE nem as implicações do cargo que ocupa, mas também nos diz que, pensando pela sua cabecinha, o “Álvaro” não chegou lá. Não conseguiu ver que se coloca um problema quando o líder máximo de um banco central investe no mercado de ações. É este o homem que gere as nossas reservas.
Infelizmente, há aqui um padrão. Santos Pereira foi nomeado por Luís Montenegro, que não via problema nenhum em ser primeiro-ministro e ao mesmo tempo ter uma avença através da empresa que criou. Se o primeiro-ministro pode ganhar uns trocos à parte, porque não poderá também o governador? Azar: no caso do governador, o BCE existe e fiscaliza mesmo.