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Comentador CNN

Que Se Lixem As Eleições | Ensaio sobre a sonsice

11 fev, 08:00
O primeiro-ministro indigitado, Luís Montenegro, cumprimenta o presidente do Chega, André Ventura (José Sena Goulão/LUSA)

E o Óscar de Melhor Desempenho Dramático na categoria Sonsice vai para ... Montenegro e Ventura

Como estamos quase na época dos Óscares, fica já atribuído a Luís Montenegro e André Ventura, ex aequo, o prémio de Melhor Desempenho Dramático na categoria Sonsice

  1. Lembra-se de Luís Montenegro, alegado chefe do Governo, a lavar as mãos da segunda volta das eleições presidenciais porque, explicou, precisava era de se “concentrar no trabalho” do Executivo, em vez de perder tempo a escolher entre um democrata e um proto-fascista de trazer por casa? Afinal, era só a escolha do próximo Presidente da República, nada de muito importante, e os dois candidatos seriam tão parecidos aos olhos do primeiro-ministro que ponderar prós e contras de um e de outro era coisa para lhe tirar muito tempo. O tal tempo precioso para “governar”.

Seguro ou Ventura? Era-lhe mais ou menos igual. Não distinguiria qualquer deles com o seu endosso. O importante era “governar”. 

Nas últimas três semanas ficou bem à vista como o Governo “governa”. Felizmente Montenegro não se distraiu com questões laterais – imagine-se se tivesse de acudir a um país em calamidade e, ao mesmo tempo, pensar noutra coisa qualquer… As coisas até podiam ter corrido mal, não é? Assim, arrumadinha a questão das presidenciais na neutralidade dos cínicos, Montenegro e a sua trupe governamental puderam dar o seu melhor na resposta à calamidade. Supõe-se que foi o que deram. O seu melhor e tudo o que tinham.

  1. Lembra-se de André Ventura numa lufa-lufa pelo país a carregar garrafinhas de água para as “vítimas da tempestade”? Lembra-se do ar de sofrimento que Ventura afivelou no rosto, como se carregasse a cruz de Cristo, conforme punha umas compritas na bagageira de um carro? Lembra-se da justificação de Ventura para esse teatrinho? Segundo ele, não sofria só pelo peso que carregava. Era também por causa da chuva inclemente que lhe caía em cima. Viam-se as imagens, e nem a carga era pesada, nem se via carga de chuva. O Chega resolveu a segunda parte: acrescentou um filtro de chuva no vídeo venturiano publicado no Tiktok, no Instagram e no X, para enganar os crentes. Uma chuvinha molha-parvos transformou-se numa chuvada engana tolos. Nada de mais. Qualquer pessoa compreende que nos filmes de hoje em dia os efeitos especiais são indispensáveis. E era apenas isso que Ventura estava a fazer: o seu pequenino filme-catástrofe, no qual ele era o protagonista, como sempre, a desgraça que atingiu Portugal era apenas cenário, e até a chuva era fake.

  2. Agora que nos aproximamos da grande noite dos Óscares, fica já entregue a estatueta portuguesa de Melhor Desempenho Dramático na categoria de Sonsice. Vai, ex aequo, para Luís Montenegro e André Ventura. Seguem-se as razões do júri (que, neste caso, é composto por uma pessoa).

  3. Comecemos por André Ventura, que é menos importante e se despacha mais depressa. Num instante, esqueceu-se do desastre que atingiu Portugal e dos seus muitos milhares de vítimas. Ele que disse que o importante era ajudar o povo que sofria e, por isso, “que se lixem as eleições” (obrigado pela publicidade gratuita a esta rúbrica, mas não acreditamos que toda a publicidade seja boa publicidade), na noite das eleições, não teve nem uma palavra para o povo que sofre. Repito: nem uma palavra sobre quem continua sem luz, sem água, sem teto, sem gasolina, sem casa, sem poder cozinhar, sem poder usar equipamentos médicos caseiros ou carregar um telemóvel ou ver notícias ou ouvir rádio, porque o Estado continua incapaz de lhes valer. Tanta correria para norte e para sul, com garrafas de água, litros de leite, conservas, e muita indignação postiça, e afinal esqueceu-se disso tudo na hora de inventar uma festa com a maior derrota eleitoral de um candidato na segunda volta das presidenciais.

  4. Ventura nunca quis saber das pessoas que sofriam com as tempestades. Note-se, aliás, a alegria desmiolada da deputada do Chega Cristina Rodrigues num vídeo a caminho de Leiria para se juntar à “campanha do André Ventura”, que por essa altura já tinha supostamente cancelado a campanha para poder valer aos desvalidos. Cristina não tinha recebido o email. Ventura só queria cenários e adereços para os seus vídeos de TikTok e para a sua caridade de pechisbeque. Os desalojados estiveram para a campanha como a Igreja de São Nicolau na noite eleitoral: meros adereços utilitários. Numa campanha que foi sempre um jogo de espelhos, Ventura também não queria saber das eleições presidenciais – todo o seu esforço visava acumular créditos para a sua candidatura a primeiro-ministro. Escrevi-o aqui. Ventura confirmou-o no seu discurso de derrota-que-parecia-vitória. Agora que o PCP já não ganha sempre, alguém tem de o fazer. É o Chega.

  5. Como quis fazer da sua declaração de derrota uma declaração de vitória, Ventura não teve vagar para dar uma palavrinha que fosse aos portugueses do Centro, do Norte, do Alentejo e do Algarve. Já não importam. Hão de voltar a importar hoje, no debate quinzenal, com Ventura já engravatado como líder do Chega. De volta ao papel de líder da oposição (que é) e de líder da direita (que não é). Espanta que alguém que fez milhares de eleitores de direita e centro direita ir a correr apoiar num candidato presidencial de centro-esquerda se presuma como líder da direita. 

Ventura teve o seu melhor resultado de sempre? Sim. Mas ficou muito aquém do acumulado da direita nas últimas legislativas e da soma dos votos da direita e suas redondezas na primeira volta das presidenciais. Boa parte da direita não lhe mostrou aderência, mas repugnância. E até os duzentos e tal mil eleitores que votaram nele pela primeira vez estão longe de ser voto em caixa. Se houve muito quem votasse Seguro para travar Ventura, também houve quem votasse Ventura para impedir que um terrível “socialista” fosse Presidente. Não é garantido, ao contrário do que supõe Ventura, que tenham passado a ser cheganos dos quatro costados.

  1. Dito isto, os 33% de Ventura foram uma derrota épica nas presidenciais, mas um resultado com muito futuro para o Chega nas legislativas. Quando quer que aconteçam. O Chega, naturalmente, terá pressa em precipitá-las. Pudera! Com um Governo em estado de calamidade, tudo é mais fácil para a oposição. Sobretudo se o guião do líder da oposição é acrescentar indignação à indignação que já existe no país pela incapacidade do Governo em responder a crises, mas também em gerir tarefas habituais. A ministra da Administração lá saiu pelo seu pé, mas a ministra da Saúde continua firme. E soubemos ontem, com dados oficiais, como vai o SNS: há mais doentes em lista de espera, mais utentes sem médico de família, menos consultas médicas e menos cirurgias, e as contas estão descontroladas. É ler para crer. Ao mesmo tempo, o Governo propõe-se rasgar ainda mais o tecido social, insistindo num pacote laboral que é um frete aos patrões. Terá muito trabalhinho o novo Presidente da República…

  2. Falemos então do Óscar da sonsice merecido por Luís Montenegro. Apostou num candidato presidencial que uma parte do PSD não queria, e que em geral os eleitores do PSD optaram por ignorar. O primeiro-ministro foi a comícios, os ministros foram a ações de campanha, mas o esforço caiu em saco roto. Talvez porque se topava que não era genuíno. Nestes anos, quantas ações políticas do Governo resultaram de sugestões de Marques Mendes, que todas as semanas falava sobre tudo na televisão? Zero. E quantas iniciativas eram decalcadas da agenda de André Ventura e do Chega? Basta apontar as mais icónicas: a lei da imigração, a lei da nacionalidade, as ordens para a polícia fazer operações de fiscalização com base em perfis raciais. Montenegro até podia abrir os comícios de Mendes, mas optou por um namoro com Ventura. Por isso desprezou sempre as propostas do PS, e deu sempre prioridade aos espalhafatos de Ventura, secundarizando sempre as alternativas avançadas por José Luís Carneiro.

  3. O cúmulo desse processo foram as presidenciais. Depois de dois anos a viabilizar o Chega, a seguir a agenda do Chega, a normalizar o Chega, e a dar colo ao Chega em autarquias sociais-democratas como Lisboa, Montenegro deixou-se ficar equidistante entre o homem que clamava por três Salazares e o que propunha o regresso da decência à política. O resultado é conhecido. Não há maior prova do desconforto de Luís Montenegro do que o seu patético comício de domingo à noite. Na hora H das presidenciais, o primeiro-ministro intrometeu-se em festa alheia para mudar de assunto: um relambório sobre a governação que, entre outros problemas, foi de um profundo desrespeito para com o povo que votou e o novo Presidente eleito. Tudo para tentar mudar de assunto e tentar mostrar quem manda.

  4. Passados dois dias, o Governo que tinha ficado no meio da ponte já só via vantagens na eleição de Seguro. Compreendo perfeitamente: por um lado, o ex-secretário-geral do PS é um institucionalista; por outro, seria impossível governar com um pirómano egomaníaco no Palácio de Belém. Não era preciso Seguro vencer, e fazer um discurso de vitória muito competente, decente, sereno e unificador, para se perceber isso. Mas foi isso que aconteceu: o Governo derreteu-se à vista das excelsas qualidades de António José Seguro. 

  5. Este texto de ontem no Público é o epítome deste cinismo, com fontes do Governo a cantar hosanas a Seguro. De acordo com essas fontes, o Presidente-eleito é mais calmo e previsível do que Marcelo, por isso há a “expectativa de uma relação institucional estável”. Seguro “não é de facção” e não irá “fazer fretes a ninguém”. Seguro é um “institucionalista” com a “grande vantagem” de ser “um desalinhado” do PS. No fundo, foi a melhor coisa que podia ter acontecido ao Governo, pois contribuirá para “um país liderado ao centro”. E há mais: Montenegro, em tempos classificado por Marcelo como “um rural”, vê no Tozé de Penamacor uma espécie de alma gémea, com “afinidade sócio-cultural”. Neste ponto, diria apenas que escusavam de ofender. 

  6. A questão é que este maravilhoso novo PR é o Tozé de sempre. Moderado, institucionalista, respeitador dos poderes e dos mecanismos democráticos. Ainda assim, foi alvo de um ou dois sociais-democratas que espumavam da boca quando falavam dele nas televisões. Ainda assim, não recebeu o apoio de Montenegro, estando do outro lado quem estava. No fim do dia, a neutralidade do PM foi a melhor coisa que podia ter acontecido a Seguro. Já imaginaram o embaraço de ter o apoio do chefe desta agremiação desnorteada a que chamamos Governo? 

Mas não foi por isso que Montenegro não tomou um lado. Foi pelo mais puro calculismo político. Temia que, se optasse por Ventura, escancarasse as portas do PSD para o seu eleitorado se juntar ao Chega. E temia que, se endossasse Seguro, Ventura ganhasse capital de queixa e se afirmasse como o único genuíno representante da direita. Não fazendo nem uma coisa nem outra, Montenegro revelou-se ao país como um sonso e teve como pagamento os dois resultados que temia: deu a Ventura a choradeira de que está sozinho contra o sistema, e empolou o seu pelo, emprestando-lhe eleitores da AD, o que explica o milhão e setecentos mil votos que recebeu. Foi o segundo grande erro de cálculo de Montenegro em relação ao Chega (o primeiro foi achar que o esvaziava adotando as suas bandeiras). 

Mas a maioria dos eleitores de Montenegro votou em Seguro, “o socialista”. Afinal, não temeram o “socialismo” de Seguro, que é moderado, solidário, nada tem a ver com Sócrates e não assusta ninguém. Já agora, é bom lembrar que o “socialismo” de José Luís Carneiro é da mesma estirpe. 

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