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Comentador CNN

Que se Lixem As Eleições | Portugal está na guerra? Fora da guerra? Ao lado da guerra? Está onde Trump mandar

8 abr, 08:00
Donald Trump (Getty)

Trump prometeu destruir uma civilização e as aeronaves para esse crime de guerra continuaram a fazer escala nas Lajes. Que é feito das condições “impostas” pelo Dr. Rangel aos EUA? Portugal não só dá apoio a uma guerra ilegal: senta, rebola e faz de morto

O Governo escolheu ser um farsante na guerra israelo-americana no Irão. Não é um mero observador, jura que não é interveniente, é apenas farsante. A farsa está no facto de Luís Montenegro e Paulo Rangel fazerem tudo o que está ao seu alcance para facilitar a operação militar norte-americana, ao mesmo tempo que Portugal “não acompanha, não subscreve e não está envolvido nesta operação” (palavras de Montenegro).

Que acompanha, é uma evidência – a Base das Lajes não vive há semanas em hora de ponta por causa do anticiclone; é mesmo por causa da “Fúria Épica”. Portugal facilitou todos os pedidos do Pentágono relacionados com esta guerra sem mandato internacional (presumindo que foram feitos pedidos, e que os yankes não se limitaram a pôr e dispor à sua vontade) e, como é evidente, facilitar é acompanhar. Que Montenegro não subscreva é irrelevante; que não esteja “envolvido”, é só mais uma daquelas habilidades do primeiro-ministro que envolvem tortura de palavras.

O torturador de palavras

Tortura de palavras é uma especialidade também de Paulo Rangel que, já não bastando ser jurista e político, é agora também diplomata de passagem. Com o savoir faire de todas estas funções, Rangel jurou no Parlamento que Portugal não está envolvido na operação contra o Irão. Terá sido precisamente por isso que o nosso ministro dos Negócios Estrangeiros recebeu há dias um telefonema do seu homólogo norte-americano, agradecendo a ajuda de Portugal nesta hora de necessidade. Enquanto a maioria dos membros da NATO leva reprimendas públicas de Donald Trump, por não fazerem as vontades ao presidente-que-queria-ser-rei, Portugal recebe um xi coração por telefone, numa conversa privada entre “Little” Marco Rubio e o nosso Paulo Rangel. Privada é como quem diz: o MNE tratou logo de partilhar com a Pátria o benfazejo momento em que recebeu um telefonema amoroso diretamente dos States. Vai buscar, Pedro Sanchéz! 

Resumindo o que se consegue compreender da esdrúxula posição portuguesa: Estamos na guerra? Não. Facilitamos um dos lados da guerra? Sim. Concordamos com a guerra? Coiso. Gostamos de receber telefonemas como quem recebe um biscoito do dono? Siiiiiiiiimmm!

Nem maniqueísmos nem aproveitamentos

Mas compreendamos as palavras de Paulo Rangel: não devemos entrar em “maniqueísmos fáceis e aproveitamentos político-partidários, numa matéria que devia ser tratada com pinças”. Bravo!

Olhemos então para as letras miúdas com que se faz a diplomacia, e a guerra e a paz, ao mais alto nível, sem maniqueísmos fáceis nem aproveitamentos político-partidários. 

Antes de prosseguir vale a pena assinalar a inutilidade do exercício, estando nós a falar de uma guerra desencadeada no terreno e alimentada nas redes sociais por um Presidente dos EUA que promete "terraplanar”, “obliterar” e “mandar de volta para a Idade da Pedra” o adversário, o Irão. Donald Trump tratou o governo inimigo como “filhos da p*t@ malucos” e exigiu-lhes que desobstruíssem o “c*r*lho do Estreito” de Ormuz. O mundo de Trump é a preto e branco, maniqueísmo e aproveitamento político-partidário são os nomes do meio do homem a quem Rangel concede as vontades.

Como uma força que ninguém pode parar

Mas sejamos sofisticados, como exige a diplomacia do croquete. Foi o senhor ministro à Assembleia da República jurar que, ao permitir a utilização das Lajes aos americanos, não vergou a espinha, mas fez o contrário disso: vergou Trump. Não acredita, caro leitor? Eu percebo. Eu também não. Mas está dito: "O que fizemos foi justamente impor os critérios do Direito internacional” aos EUA. Rangel elaborou: por imposição portuguesa, essa utilização só pode acontecer “em resposta a um ataque sofrido, [deve ser] necessária e proporcional e [desde que] não vise alvos civis”.

Portugal concretizou, finalmente!, a profecia versejada de Camões, comportando-se “como uma força que ninguém pode parar”. Ou será esse verso da Nelly Furtado?...

Seja como for, terá sido com mão trémula que Trump se vergou às condições impostas por Lisboa.

“Se essas garantias nos forem dadas e puderem ser observadas, estamos tranquilos”, foi a frase lapidar com que Rangel quis encerrar o assunto. Infelizmente, o assunto é teimoso.

Vamos fingir, a bem do argumento, que o Governo português não sabia a razão de toda aquela movimentação de aviões militares norte-americanos nas Lajes antes do início da guerra. Essa possibilidade, só por si, faria de Montenegro & Rangel a dupla mais néscia na história da diplomacia portuguesa. Trump já tinha anunciado a guerra em termos inequívocos, o mundo inteiro ouvia os tambores da guerra, mas Luís & Paulo, benza-os deus, achavam que tanto avião era para um encontro anual de escuteiros. Kumbaya, kumbaya.

Começada a guerra, o caso tornou-se outro, como assumiram o n⁰1 e o n⁰2 do nosso Executivo. Enquanto outros países recusavam a Trump o sobrevoo do respetivo espaço aéreo ou a utilização de bases militares para uma guerra que violava o Direito Internacional, nós por cá “obrigámos” Trump a cumprir o Direito Internacional.

E assim continuamos. Nos últimos dias o presidente dos EUA deu largas à sua espiral de alucinação bélica, prometendo destruir “pontes muito bonitas”, e centrais elétricas, e todas as infraestruturas civis do Irão. Mandar o país de volta para a tal “Idade da Pedra”. Destruir, numa noite, “uma civilização inteira”. 

Devia ter sido na noite passada. Não foi. Trump, mais uma vez, acobardou-se na hora h, depois de ter ameaçado com o Armagedão. O ponto é que Portugal assistiu a tudo isto sem um murmúrio, e permitiu o uso da Lajes para colaborar no que seria uma carnificina.

Senta, rebola, faz de morto

Antes de destruir totalmente o Irão, Trump destruiu totalmente a história da carochinha contada pelo Dr. Rangel. Porque, conforme Trump anunciava todo um catálogo de crimes de guerra, e até declarava “não estou preocupado por cometer crimes de guerra”, Portugal continuava a comportar-se como o caniche do ditador, sentando, rebolando, fazendo de morto.

Foi para esta ofensiva que visava dizimar uma civilização milenar que os generais americanos mandaram os seus aviões para o teatro de guerra, muitos com escala em Portugal. Sabemos que, entre muitas aeronaves norte-americanas que têm usado as Lajes a caminho da guerra, estão os temíveis drones MQ9 Reaper, vulgarmente apelidados “drones assassinos”.

Por quanto mais tempo manterá o Dr. Rangel a patranha de que as Lajes só são utilizadas de acordo com o Direito Internacional? Quem o confronta, a ele e ao seu chefe, sobre esta farsa em que meteram Portugal, quando cada vez mais países se distanciam de Trump e dos seus desvarios? Um telefonemazinho vale tudo?

E a seguir?

O que faremos a seguir para termos as boas graças do nosso precioso “aliado”? Edificar uma estátua de Trump, enquanto salvador da cultura ocidental? No Marquês de Pombal ou na Rotunda da Boavista? Na última reunião do seu gabinete, Trump mostrou-se muito honrado porque alguém na Venezuela queria construir-lhe uma estátua com o argumento de que Donald seria, numa qualquer cabeça desmiolada, o novo Simon Bolívar. Ninguém se riu, Trump ficou ainda mais inchado, pedindo detalhes desse empreendimento… Porque não Trump como novo Nuno Álvares Pereira, reencarnação do Mestre de Avis, ou até o próprio Dom Sebastião, inebriado com sonhos de conquistas, voltando no meio do nevoeiro das redes sociais?

O Dr. Montenegro aprova e o Dr. Rangel já deve estar a fazer os esquiços.

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