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Comentador CNN

Que Se Lixem As Eleições | O governo pré-chegano que virou pró-socialista

25 jun, 09:00
Luís Montenegro no debate quinzenal no Parlamento (LUSA)
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Numa semana o Governo teve três discursos e três estratégias. Entre o Plano A e o Plano C, foi humilhado e reuniu-se num velódromo. Não confundir com velório, embora parecesse

Estava o Plano A a correr tão bem... Sem maioria absoluta, sem acordos parlamentares, o Governo fingia que não tinha aliado preferencial, mas negociando com o Chega sempre que o Chega lhe dava trela. Seguindo a agenda do Chega sempre que a agenda do Chega pegava. E assim se passou um ano de alegadas “reformas”, que incluíram a lei da burca, a lei da imigração, a lei da nacionalidade, a lei do repatriamento, a lei das bandeiras, e até um acordo para avançarem juntos para a revisão da Constituição lá para o final do ano, quando a pressa do Chega convém ao PSD. 

Nesta azáfama de acordos, ficou em pousio a Prestação Social Única, o mais recente requinte sádico da ministra Palma Ramalho contra os pobres. Ficou uns dias a marinar entre a demagogia anti-imigração do Chega e a irresistível atração da ministra pelo cheganismo, até ao momento em que, entre uma tendência e outra, os bons espíritos se encontrassem... Voltaremos a este assunto.

Uma questão de conveniência

Estava tudo a correr tão bem até ao chumbo da reforma laboral… Aquela fatal sexta-feira (foi há menos de uma semana…), que devia ser o dia de consumação da união de facto de conveniência entre a AD e o Chega e foi, afinal, o dia do arrufo que convinha a André Ventura. As relações de conveniência têm este senão – por vezes a conveniência é só de uma das partes. Para Luís Montenegro, é muito conveniente ter um parceiro como Ventura, sem princípios, como algumas pessoas gostam da sua bica, e por isso moldável a qualquer política e pronto para qualquer flic-flac. 

A triste figura feita por Hugo Soares no Parlamento, contando com o ovo no dito da galinha, tipo Trump anunciando o que não podia anunciar, é compreensível e deve até merecer alguma empatia. Soares sabe, como sabemos todos, que Ventura podia ter deixado passar a reforma laboral. Aliás, Ventura fez um discurso todo a vangloriar-se pelas magníficas consequências para a classe trabalhadora do facto de o Chega deixar passar o código laboral. Votou contra com a mesma convicção com que podia ter votado a favor: zero. 

Não confundir, porém, zero convicção com zero conveniência. O que convinha a Ventura, naquela circunstância, era aplacar a revolta que começava a germinar entre os votantes do Chega – até eles, cegos, surdos e mudos aos factos, aos argumentos e à razão, perceberam que a reforma laboral não era flor que se cheirasse. E perceberam-no, curiosamente, não pela palavra do grande líder, mas por meses de luta sindical contra este embrulho de precariedade, desregulação das relações laborais, desrespeito pela vida familiar e cedência total aos empregadores. 

Talvez por isso, por reconhecer que a vitória se deveu a essa luta – que desmente a morte anunciada dos sindicatos – Ventura não teve vergonha de erguer o punho direito fechado enquanto sorria para o líder da CGTP, o verdadeiro vencedor dessa sexta-feira.

O Plano B: é tudo socialismo

Falhado o Plano A, o Governo ativou o B. E estava o Plano B a correr tão bem… Se o Chega não é um parceiro sério (oh surpresa!, oh inclemência!); se o Governo acusou o PS de tudo e de mais alguma coisa, mas afinal não podia confiar no Chega, então é porque… rufar de tambores… momento de suspense… o PS e o Chega são iguais! Ambos calculistas, ambos sonsos e, pior do que tudo, ambos socialistas!

Depois de um Plano A em que o Governo se colava ao Chega, veio o Plano B, que consistia em colar o Chega à “extrema-esquerda”. Acredite se quiser. Foi essa a brilhante narrativa que resultou da humilhação de sexta-feira passada. 

O PS, já se sabia, é de extrema-esquerda. Sim, este PS. O PS de José Luís Carneiro. José. Luís. Carneiro. Eis os factos: “O PS está hoje mais radicalizado do que no tempo de Pedro Nuno Santos”, já tinha acusado Hugo Soares, com a mesma perspicácia com que anunciou que o Código Laboral seria aprovado. “Aquilo que o senhor deputado José Luís Carneiro disse sobre legislação laboral soou a Paulo Raimundo”, notou também Luís Montenegro, igualmente fino na análise, e mostrando uma obsessão com o PCP e com Paulo Raimundo que estes seguramente agradecem. É que o mesmo primeiro-ministro tinha dito sobre o seu parceiro de negociações favorito: “O senhor deputado André Ventura tem ultrapassado o PCP pela esquerda.” Uma daquelas coisas que se dizem da boca para fora, só porque sim, mas sem consequências – afinal, o partido que “ultrapassava o PCP pela esquerda” era o partido com quem a AD queria negociar tudo, até a revisão constitucional.

Com o chumbo do pacote laboral, “confirmou-se”, digamos, a acusação. Para Hugo Soares, o punho fechado de Ventura era a prova que faltava: direita e esquerda era, afinal, tudo extrema-esquerda, tudo farinha do mesmo saco. Paulo Núncio, estrela cintilante do céu conservador e direitista, fez uma conferência de imprensa para anunciar que o Chega é marxista. Não é só socialista, ou esquerdista, é marxista, the real deal. “Não basta dizer que se é de direita e depois ser marxista na economia”, sentenciou Núncio, definitivo.

O velório de Sangalhos

Isto foi na sexta-feira. No sábado começou o congresso do PSD, no Velódromo de Sangalhos. Não confundir com velório de Sangalhos, embora o congresso parecesse isso mesmo. Em direto do velório, as televisões mostravam um partido e um Governo (e a confusão entre um e outro atingiu patamares nunca vistos) que umas vezes estrebuchava contra moinhos de vento, outras se exaltava com a excelsas virtudes do seu amado líder. Uma autêntica missa de fiéis de defuntos – todos fiéis a Montenegro, que remédio!, todos defuntos de ideias.

Na parada de ministros, houve de tudo. Os que apresentaram “obra feita”. Os que lambuzaram de encómios o primeiro-ministro – pela sua coragem, a sua visão, a sua liderança, a sua existência. Os que confundiram impopularidade com reformismo. Os que insistiram em reformas mortas e enterradas. Os que culparam os imigrantes pelos males da Pátria, sem dar conta de que o Chega, afinal, já não é o fiel amigo. E os que dispararam em todas as direções, a ver se acertavam.

No meio da desafinação geral, a ideia de que PS e Chega eram farinha do mesmo saco fez o seu caminho. A ideia de que era tudo socialismo também (mas, tanto quanto percebi, os delírios de marxismo ficaram apenas para Paulo Núncio). Segundo o ministro das Finanças, Ventura “juntou-se à esquerda e à CGTP”. Contudo, na ideia de Miranda Sarmento, José Luís Carneiro talvez seja apenas um radical contrariado: na sua versão, o líder do PS está, isso sim, “refém dos radicais, dos extremistas de Pedro Nuno Santos”. Miranda Sarmento é a prova de que não é Mário Centeno quem quer. Nem sequer é Paulo Rangel quem com este coabita. Pois o PS, na fértil imaginação de Rangel, é o partido do “radicalismo cândido”. 

No domingo o congresso acabou com amanhãs que cantam. E, para o provar, o primeiro-ministro, que também faz as vezes de líder do PSD mas não estava ali para isso, anunciou o que o Governo tenciona fazer a seguir. Querem reformismo? Querem combate corpo a corpo, todo-o-terreno, aos socialistas de extrema-esquerda e aos cheganos marxistas? Tomem lá um fundo soberano para o Estado se meter no capital das empresas.

O Plano C: somos todos socialistas

Estava a narrativa “que horror, eles são todos socialistas!” a correr tão bem, quando Luís Montenegro tira da cartola uma ideia socialista até ao tutano. Assim fica difícil. Não sou eu que classifico assim a ideia de o Estado escolher setores que considera estratégicos e injetar dinheiro público em empresas que consolidem esse desígnio. É a AD. Em 2024, há apenas dois anos, portanto, Pedro Nuno Santos (esse que dá chiliques a alguma AD) defendeu uma ideia parecida: o Estado tem “a obrigação de fazer escolhas quanto aos sectores e tecnologias a apoiar”. Segundo o então líder socialista, devia haver “mais dinheiro para menos sectores”, com um “sistema de incentivos” que reforce “o grau de selectividade”. O PSD e o CDS, claro, reagiram com escândalo a tanto estatismo, tanto socialismo, tanta economia dirigida. 

Uns meses antes, quando o PS ainda era Governo e Fernando Medina era ministro das Finanças, o governante sugeriu a criação de um fundo soberano precisamente para garantir investimento público quando terminassem as verbas do PRR. Seria um fundo de dois mil milhões de euros, essencialmente financiado com parte dos excedentes orçamentais que, por esses dias, pareciam ter voltado para ficar. Mais uma vez, a direita gritou “socialismo”, “estatismo” e talvez Paulo Núncio tenha gritado “marxismo”, embora não haja registo disso.

Vem agora Montenegro propor aquilo que antes criticou, mas em pior: sem detalhar valores, sem explicar de onde virá o dinheiro, e sem um plano que o sustente. Mais: a ideia, segundo Montenegro, é permitir ao Estado ter “participações accionistas relevantes em empresas estratégicas para o desenvolvimento do país e para a sua resiliência”, dando como exemplos “áreas como a energia”, mas também “a banca, as comunicações ou mesmo a gestão de infra-estruturas aeroportuárias”. É uma pena que nada disto bata certo com o que o Governo está a fazer: não é apenas estar em curso a privatização da TAP, é que o Executivo acabou de anunciar a concessão a privados de linhas de comboio suburbanas. Como diz o Livre, “não bate a bota com a perdigota”.

De mão dada com o “radical cândido”

Notícia de última hora: ontem, sem saber com o que contar do lado do Chega em relação à Prestação Social Única, o PSD ensaiou uns avanços em relação ao PS, a ver se safava a coisa. Sim, uns avanços em relação ao PS extremista, marxista, “radical e cândido”, mais pedronunista que o pedronunismo. O PS que andava mancomunado com o Chega, afinal, era a possível tábua de salvação de um Governo sem rumo.

E eis que, tratado com respeito, sem insultos, sem rótulos patetas, e sem congeminações absurdas, o PS se revelou um interlocutor disponível. É claro que, para deixar passar a PSU, o PS exigiu que desaparecessem os vícios sádicos introduzidos na proposta pela ministra Palma Ramalho. Desaparece a linha do bufo. Desaparece a obrigatoriedade de trabalho forçado até para quem não está em condições de trabalhar. Desaparece o castigo a quem tem um património mínimo, ainda que seja a viatura de que precisa para ir trabalhar. 

Surpresa das surpresas: é possível simplificar o sistema de prestações sociais não-contributivas, é possível apertar o controlo sobre eventuais fraudes, é possível usar esses subsídios como forma de reencaminhar cidadãos carenciados para o mercado de trabalho. Sim, e tudo isso é possível sem humilhar ou castigar os pobres por serem pobres. Com formação e reconversão profissional em vez de trabalhos forçados. O trabalho deixa de ser obrigatório, como contrapartida de um direito, mas é uma possibilidade, de acordo com o perfil do indivíduo e do seu agregado familiar. Como era até agora e como deve ser. A ministra Palma Ramalho deve estar abismada, mas aqui estamos, todos a aprender.

Hoje o Chega dirá que continuam os subsídios aos malandros, e o bar aberto, e os imigrantes isto e aquilo, e “50 anos de corrupção”. O PS poderá dizer que se manteve fiel ao que disse sempre sobre a PSU e que o Governo recuou. O Governo e a AD dirão qualquer coisa, e tudo e o seu contrário, sobre o Chega, sobre o PS, sobre o “radicalismo cândido” de José Luís Carneiro, ainda e sempre “refém” do pedronunismo. Vai ser aprovada uma lei equilibrada. É um ganho. Quanto ao dr. Núncio, poderá continuar a lutar contra o marxismo em cada esquina. 

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