O Governo chega ao Estado da Nação sem liderança, sem rumo nem ideia de jogo. Sem saber como avançar pelo centro, espalha-brasas pela extrema-direita, para gáudio da claque radical. E é incapaz de tirar de campo os pesos-mortos
E tudo a realidade levou. As ilusões, por muito lustrosas que fossem, não resistiram a umas pazadas de real. A fasquia, colocada lá em cima, não sobreviveu à mediania. Parece a nossa sina: acreditar que desta vez pode ser diferente; que o que lá vai lá vai; que desta vez é que é, até porque há protagonistas que prometem muito e há uma maioria que acredita, e enquanto há crença há esperança.
Não falo do desempenho da Seleção Nacional de Futebol. Falo do desempenho do Governo no último ano político, que termina amanhã com o ritual do debate do Estado da Nação.
Pouco importa como corra o debate – é como aquele jogo com a Colômbia. O último da fase de grupos, que não decidia apuramentos e que a nossa equipa manifestamente não queria jogar e claramente não saberia ganhar, mesmo que quisesse. O que importava nessa altura era o jogo seguinte, na fase a eliminar. Mata-mata. Também no caso do Governo, o que importa não é a retórica do Estado da Nação, é o mata-mata do dia seguinte.
Sexta-feira, 17 de julho, data prometida para a afixação dos resultados dos exames nacionais do secundário. Ou há pautas ou não há. Mas não basta isso. Os resultados terão de ser os corretos, o seu a seu dono, sem baralhar provas, sem misturar alunos, sem notas trocadas e respostas truncadas. Depois do que se viu nas últimas semanas, se tal acontecer será um quase-milagre. Mas, sem isso, o Ministério da Educação continuará a afundar-se na incompetência que foi todo este processo, desde o primeiro dia. Mata-mata.
O ministro que tinha boa imprensa
Não é só o ministro Fernando Alexandre que está em causa. É o que resta da credibilidade deste Governo. Ao ministro Alexandre têm valido, desde que tomou posse, os seus muitos amigos muito influentes e com muito acesso ao comentariado político. Pois se os amigos do ministro dizem que ele é de uma capacidade, e competência, e excelência acima de qualquer dúvida, como questionar-lhe a capacidade, a competência e a excelência?
Talvez começando por notar que, com um truque de secretaria, o ministro fez desaparecer um problema que assombrou todos os seus antecessores: antes sabíamos quantos alunos estavam sem aulas por não terem professores atribuídos. Fernando Alexandre resolveu esse problema suprimindo a divulgação desses dados. E, puf!, desapareceu o problema dos alunos sem professores.
A chico-espetice resultou tão bem que o ministro da Educação adotou-a como modus operandi político. Com costas largas nos media, atirou-se de cabeça para uma magnífica reforma que consistia em digitalizar a avaliação dos exames nacionais do secundário. Não falamos de um processo totalmente digitalizado, mas uma coisa a meio caminho: provas feitas à mão, no bom velho papel, mas avaliação online.
Tudo quase high-tech, digital, internético e outras coisas que emanam modernidade. Nada grita “espírito reformista” como digitalização e coisas online, certo? É o Governo acusado de não promover reformas ou de falhar redondamente quando nelas se aventura? Fernando Alexandre, coqueluche absoluta da equipa governativa, saiu do banco para mostrar como se faz.
Apesar de estar a lidar com coisas muito sérias – exames que deixam em suspenso milhares de alunos e pais, sobretudo aqueles que têm pela frente uma candidatura ao ensino supeiror– o Ministério da Educação mandou às urtigas a prudência e a experiência. A experiência dizia-nos que, num primeiro teste deste modelo, feito no ano passado com a prova de Filosofia, aquilo que podia correr mal correu mal. A prudência mandaria que uma alteração tão radical na avaliação dos exames não se fizesse em pleno processo de mudança do sistema do Ministério da Educação. Foi o secretário de Estado da Educação, também abençoado com muito boa imprensa, quem o admitiu: “Há uma plataforma em desenvolvimento, com verbas do PRR, que irá substituir essa [que existia antes] mas não está pronta ainda, não está a funcionar.” Cito uma notícia do Expresso que elenca o rol de asneiras cometidas neste processo.
E, já agora… Um módico de humildade talvez desaconselhasse estes saltos de fé depois de uma reforma interna no próprio Ministério que destruiu o Instituto de Avaliação Educativa (IAVE), a estrutura que poderia garantir o bom funcionamento do sistema ou que haveria de acudir no caso de as coisas correrem mal. O importante é que “o mapa de pessoal das direções-gerais e institutos da Educação foi reduzido em 50%”. Palavra de ministro.
Felizmente Fernando Alexandre é professor. Felizmente Fernando Alexandre é economista. Quem diria que desmantelar um ministério, depauperando-o de recursos humanos, poderia ter consequências desastrosas no desempenho desse ministério? Ao professor-economista Alexandre não ocorreu…
Por fim, mínimos de cautela talvez desaconselhassem que uma empresa externa que ninguém percebe bem como e porque foi escolhida tivesse um papel essencial em todo o processo. Mas foi assim, com arrogância, descuido e amadorismo, que a coisa avançou.
O resto da história, até agora, é conhecido. Poupo nos detalhes sórdidos dos pais que são culpados de terem confiado no calendário oficial do Ministério, ou dos professores que queimam horas a tentar aceder ao sistema, a avaliar e a reavaliar itens, a ser chamados em cima do joelho ou a receber provas que não são das suas disciplinas. Um degredo. Como escreveu no Público a Ana Sá Lopes, se a “reforma do Estado é isto”, deus nos guarde das reformas do Estado. Mais: se este é um dos melhores ministros deste governo, deus nos livre e guarde deste governo.
"Mentalidade de Cristiano Ronaldo"
Pensando bem, o Governo que amanhã se apresenta no debate do Estado da Nação não é assim tão diferente da Seleção Nacional que até à semana passada fez tão fraca figura no Mundial.
Não tem liderança. Nem um rumo nem uma ideia de jogo. Espera sobreviver a cada embate com aquele mix muito português de fezada e improviso. Quando as coisas correm mal, vem o chefe de banda com uma torrente de palavreado que faz pouco sentido. Quando precisa de explicar o que correu mal, garante que tudo decorreu no melhor dos mundos e que só por má fé alguém pode dizer o contrário.
Quando não dá mesmo para disfarçar que as coisas correram mal, encontra bodes expiatórios. Podem ser bombeiros, socorristas do INEM, sindicalistas, encarregados de educação ou agrafadores. Vale tudo, desde que a culpa nunca seja do Governo.
Hesita entre jogar pelo centro, onde se esperava que houvesse mais ideias, ou apostar nos extremos, onde não faltam espalha-brasas inconsequentes. As jogadas pela extrema-direita tiveram como único resultado excitar a claque mais radical. Marcar golos é que está quieto.
Quando decide mostrar serviço, inventa, como o governo inventou uma reforma laboral, e confunde arrogância com determinação, como alguns ministros fazem a cada dia que entram em campo.
Não é exatamente uma equipa. Parece cada vez mais uma coleção de intocáveis, incapaz de tirar de campo os pesos-mortos, que desgastam mais do que ajudam, e afundam o coletivo a cada jogada que protagonizam. Quando Montenegro defendeu um país com “mentalidade de Cristiano Ronaldo”, talvez não se esperasse que fosse tão literal. E talvez ninguém acreditasse que estava a falar deste Cristiano, de 2026, fechado na sua bolha de ego e sem resultados que se apresentem.
O ministro em tabelinhas com o construtor civil
Uma agremiação que insiste em modelos gastos e que já provaram a sua ineficácia – não é por acaso que os preços das casas continuam a subir, é por causa das “reformas”. Não é por acidente que os indicadores da saúde pioram, é por opções políticas.
Um conjunto que tem medo e se limita a navegar à vida. Os apupos que chegam da bancada – e que no caso do Governo se medem pelas sondagens e pela descrença que começa nos próprios eleitores da AD – farão com que o medo de agir seja cada vez maior, perante adversários que se sentem revigorados pelos estudos de opinião. Se até agora foi o que se viu, daqui em diante nada se pode esperar senão uma equipa a fazer passes para o lado, e para trás, e a queimar tempo simulando lesões. O novo porta-voz do Governo, que é também porta-voz do PSD, terá muito que rebolar no chão. O líder parlamentar do PSD, que também faz as vezes de porta-voz do partido e do Governo, idem.
Não é que não haja jogadores com qualidade. Alguns poderiam salvar a honra do convento. Mas ou não têm espaço para brilhar, ou se perdem driblando-se a si próprios, como se viu fazer esta semana com o ministro da Administração Interna, entretido em tabelinhas com o seu grande-amigo-homem-das-obras-do-MAI. As falsidades das explicações do ministro, já desmontadas pela CNN/TVI, são razão de escândalo e de pena.
Um caso sintomático de lassidão moral? Sem dúvida. Mas coisa pouca em comparação com um primeiro-ministro que recebia uma avença de um casino…
Assim não há reputação que resista nem equipa que se liberte do sufoco. E vêm aí sufocos, dos verdadeiros, duros, que vão pesar na governação e na vida dos portugueses. O problema é que a equipa que nos governa já está esgotada, sem norte, e ainda agora chegámos ao primeiro intervalo para hidratação. Vão ser mais três anos disto. E, neste caso, nem a fé em Jesus salva.
