Estamos a meio do ciclo de debates presidenciais. Serão 28 ao todo, ontem aconteceu o décimo quarto, entre António José Seguro e Luís Marques Mendes. Análise das prestações dos cinco candidatos melhor posicionados nas sondagens
E que melhor do que um balanço quando vira o campeonato? Estamos a meio do longo ciclo de debates presidenciais, e vi-os todos. Segue a análise da prestação de cada um dos cinco candidatos melhor colocados nas sondagens, ordenados alfabeticamente, pelo sobrenome. Cotrim Figueiredo, o gingão; Gouveia e Melo, o vago; Mendes, o experiente; Seguro, o homem no meio da ponte; Ventura, o bully.
João Cotrim Figueiredo
É provavelmente o candidato com maior desenvoltura em estúdio. Responde, interage e interpela os adversários diretamente como se estivesse em casa. Ter sido em tempos administrador de uma televisão (a TVI, do mesmo grupo da CNN) ajuda-o a conhecer o métier como poucos. Ter liderado um partido deu-lhe experiência frente Às câmaras. Ter feito várias campanhas, para diferentes cargos, com opositores de todo o tipo (incluindo o freak show dos debates dos “pequenos partidos”), acrescentou-lhe voltas ao conta-quilómetros.
Acresce a tudo isto que Cotrim está bem treinado. Tão bem treinado que por vezes a artificialidade, que costuma ficar bem escondida, mostra as costuras. É quando parece mais plástico. Mas têm sido momentos raros.
O ritual de começar todos os debates com a mesma frase, falando aos “que acham que Portugal pode ser mais e melhor”, talvez resulte. Ou talvez resulte apenas irritante. A insistência em reiterar que é otimista e enérgico talvez se dispensasse – essas caraterísticas ficam à vista, não precisam de ser alardeadas. Vá lá, ainda não tentou "gingar” nos debates, como fez ou tentou em entrevistas – deus o conserve assim, sentado e sem abanar os bracinhos.
A parte mais gaga dos seus debates tem sido a tentativa de jurar que será independente na Presidência da República, apesar de ser um candidato obviamente partidário, e fortemente ideológico. É como António Filipe, Catarina Martins ou Jorge Pinto quererem convencer-nos de que a ideologia ficará na calçada da Praça Afonso de Albuquerque se um dia entrarem como Presidente no Palácio de Belém. Não cola.
Henrique Gouveia e Melo
Continua a ter dificuldades muito concretas sempre que é confrontado com questões concretas. Quer sempre falar daquilo que não está em debate. Ainda esta semana, a sua intervenção inicial no debate com António Filipe foi (outra vez) a pedir para que se falasse das questões “relacionadas” com o Presidente da República – poucos minutos depois, estava a atirar ao candidato comunista as suas opiniões (suas, do almirante) sobre o regime de Fidel Castro e os riscos da ditadura do proletariado, caso António Filipe chegasse a Belém. O militar na reserva leva sempre um número destes para todos os embates, e raramente lhe corre bem.
O que ninguém lhe arranca é uma posição clara sobre o pacote laboral apresentado pelo Governo. Foge de tomar posição como o diabo da cruz. Argumenta até que, se se pronunciar em concreto sobre a discussão em curso, pode interferir no seu desfecho. Presunção e água benta… Num debate, para fugir às questões da Lei Laboral, chegou a parar uma frase a meio e mudou de assunto. Foi assim: “Nesta fase ainda não tenho a certeza [se promulgaria as alterações à lei laboral na redação proposta pelo Governo], porque não tenho mesmo o… Já agora, deixe-me falar sobre uma coisa que nós não falamos…” Gouveia e Melo fazia questão de “começar a alertar” para esses problemas ignorados. Quais? desigualdade salarial homem/mulher, antigos combatentes e violência doméstica…
Para além da tendência para generalidades, Gouveia e Melo parece nos debates um peixe fora de água. Supostamente é por vir de “fora do sistema”, um argumento estranho vindo de quem é militar de carreira, tem o apoio de gente bastante sistémica e é olhado com inusitado desvelo pela maçonaria…
Quanto muito, Gouveia e Melo é alguém que vem de fora do sistema mediático. E nota-se. Já não lê papéis de fio a pavio, como no primeiro debate, com Cotrim Figueiredo. O media training começa a ter algum efeito. O problema é que quase sempre transparece o esforço do candidato para se lembrar do que aprendeu nas lições… O olhar perdido, o discurso aos solavancos, as guinadas súbitas de assunto, dificilmente o farão recuperar a vantagem que teve nas sondagens quando estava num pedestal.
Marques Mendes
O candidato mais experiente de todos apresenta como grande trunfo ser o mais experiente de todos. Não há como negá-lo. Mendes, filho de político, anda na política desde pequenino (piada não intencional). Foi quase tudo, menos primeiro-ministro (que não será) e Presidente da República (que pode ser). Tem traquejo de debates, sabe da poda, conhece os dossiês, e se não conhece disfarça bem. Vantagens de comentador televisivo... Está à vontade nos estúdios, o que não admira para alguém que os frequenta há tantos anos e que, “alegadamente”, chegou, em tempos, a ditar alinhamentos de telejornais.
Infelizmente a vantagem da experiência tem a desvantagem do alinhamento político. Mendes não teve cargos por obra e graça do Espírito Santo, mas do PSD. O seu caderno de encargos, nesta primeira volta, é convencer o eleitorado da AD que é um deles, e convencer o eleitorado não-AD de que é independente. Não é, como se tem visto, tarefa simples.
Manda a verdade reconhecer que Mendes nem é o paladino da independência, como se apresenta, nem a marioneta do PSD, como alguns o caricaturam. Manda o rigor confirmar que algumas vezes, nos seus comentários na SIC, Mendes se demarcou dos governos de Luís Montenegro. Não foi assim tantas vezes, mas aconteceu. Como, pontualmente, defendeu os governos de António Costa. Com uma diferença essencial: quando Montenegro tomou posse, já Mendes estava, mais do que evidentemente, de olhos postos em Belém. O cálculo político, arte que pratica há décadas, recomendava que aqui e ali se demarcasse do Governo, para piscar o olho ao eleitorado moderado que não vota PSD.
Mas sempre que é confrontado com a questão essencial da atualidade política – o pacote laboral –, Mendes está no essencial do lado do Governo. Apesar desta legislação nunca ter sido sufragada pelo eleitorado. Para Mendes, e cito, “mais do que a transparência [com os eleitores]” é importante que se façam reformas. Disse-o ontem no debate com Seguro: está farto disto de “toda a gente pedir sempre reformas, e, quando as reformas são feitas, Aqui d’el Rei.” É um argumento no mínimo pueril. No limite, é perigoso: qualquer reforma é boa. Se o PCP ganhasse as eleições e reformasse a economia nacionalizando as empresas, Mendes bateria palmas?
Mas, no geral, os debates têm-lhe corrido como a sua longa carreira: sem brilho nem sobressaltos. Talvez chegue.
António José Seguro
Antes sequer de começarem os debates, Seguro teve a insensatez (ou a franqueza) de recusar o rótulo de homem de esquerda. Para um eventual leitor jovem, ou desmemoriado, falamos de alguém que viveu a maior parte da sua existência na Juventude Socialista e no Partido Socialista, que chegou a liderar. Não renegou três vezes as suas origens, mas com uma declaração apenas o mal ficou feito. Nos debates, Seguro tem tentado corrigir esse tiro. Ma non troppo. Ontem, assumiu-se de “centro-esquerda”, o que é um salto quântico para quem recusava “gavetas”.
O discurso da independência e do fazedor de pontes apenas parece deixá-lo no meio da ponte. Não é que Seguro tenho perdido os debates em que participou até agora (o melhor foi o primeiro, contra Ventura – um adversário truculento, mas bom para demarcação de águas). Mas também não é seguro que tenha ganho algum. Quando “dá-me licença que termine?” é o seu soundbite mais bem sucedido, algo está errado.
Apesar de tentar projetar uma imagem de firmeza, é tudo morninho, certinho, poucochinho, como diria alguém. Pelo que se viu até agora, é duvidoso que Seguro convença os socialistas reticentes com a sua candidatura, e é ainda mais duvidoso que cative os eleitores à sua esquerda, que têm muito por onde escolher. O mesmo à sua direita.
Porém, o que quer que faça nos debates, uma coisa é certa: a prestação de Seguro será sempre melhor do que os outdoors que espalhou pelo país. Nunca se tinha visto um candidato, que precisa do voto dos eleitores, a olhá-los de cima para baixo. Esta é, provavelmente, a única grande novidade que a campanha de Seguro trouxe. Mais valia não ter trazido.
André Ventura
O bully constante, o espalha-brasas de sempre, o truculento habitual, o grosseiro do costume. Seja por egotismo, seja por conhecer o que a casa gasta no Chega, André Ventura candidata-se a tudo o que é cargo. Com isso garante os eleitores habituais (que se dispersam quando o candidato é outro), mas também prova que o que é demais é moléstia. Já lhe conhecemos os truques, as interrupções permanentes, as caneladas ocasionais, o rebolar na relva com esgares de dor de cada vez que alguém lhe aplica o mesmo tratamento. Em debate, Ventura ou faz bullying ou se faz de vítima. Não há meio termo.
O discurso, esse, está conservado em formol: os imigrantes, os ciganos, os corruptos, o sistema… Vindo do líder do segundo maior partido do sistema, da vedeta dos media do sistema, do homem cuja bancada inclui não apenas quem foi imigrante ilegal, como a maior quantidade per capita de gente a braços com a justiça. O próprio Ventura tem mais um processo à perna.
É o candidato que tem mais horas de frente a frentes televisivos (os debates da bola apuraram-lhe as técnicas), mas isso também o expõe. E permite aos adversários desmontar-lhe as fintas habituais.
Seguro desarmou-o simplesmente pedindo licença para falar – uma vez, e outra, e outra, e outra… Catarina Martins limitou-se a rir na cara de Ventura. Esse foi um debate para esquecer, mas deixou uma lição para lembrar: para políticos de recorte autoritário como Ventura, nada é mais perturbador do que ver alguém rir-se dele. Ao ponto de ter atirado um papel contra a sua interlocutora. Às vezes, rir é mesmo o melhor remédio.