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Comentador CNN

Que se Lixem as Eleições | O Ronaldo amnésico e a Kátia anémica

31 dez 2025, 10:00

A mensagem de Natal de Luís Montenegro, querendo ser um folheto de autoajuda, foi um programa de cinismo. Mas, pior, foi esquecida logo de seguida pelo PM, como demonstra a nomeação da nova administração do Metro de Lisboa. Não há nova mentalidade vencedora, só há amnésia, anemia, e a velha mentalidade do amiguismo

Antes de escrever este texto, revi a mensagem de Natal de Luís Montenegro. Confirmei: foi um texto lido por um chatbot, tal o tom robotizado com que Montenegro debitou o que lia no teleponto. Mas pior do que a forma foi o conteúdo. O que pretendia ser um folheto de autoajuda não foi mais do que um programa de cinismo.

Não falo apenas da conversa de termos todos a “mentalidade de Ronaldo”. Essa foi a pior parte da arenga, é verdade. E eu, como bom madeirense, até sou fã do Ronaldo (já fui mais, é verdade, mas ainda sou…). 

A conversa da “mentalidade de Ronaldo” é o salvo conduto para um país de gente que só pensa em si, nos seus recordes, nos seus triunfos, na sua glória, sem pensar nos demais. Um pesadelo individualista, na linha do pior liberalismo selvagem. No reverso dessa obsessão umbiguista, ficam os outros: os que não nasceram com talentos extraordinários, os que não tiveram uma mãe com a mesma capacidade de entrega e sacrifício, os que não tiveram a sorte de ser topados por um olheiro talentoso. O Francisco Rodrigues dos Santos, esse perigoso esquerdista, explicou este fim de semana, na antena da CNN, tudo o que está errado na metáfora ronaldista de Montenegro. 

O lado mais sinistro desta aspiração de um país de Ronaldos é a sua consequência: a ideia de que quem não se deu bem na vida foi por culpa sua. Porque não ambicionou o suficiente, não se esforçou o suficiente, não tinha talento suficiente nem o sublimou como deveria. No fundo, ficou para trás por culpa própria. E aqui temos, outra vez, o quadro típico do liberalismo selvagem. No fundo, é a velha conversa da “meritocracia”, elevada à “ronáldica” potência.

 

“Jogar sempre para ganhar”

Mas quem não gosta de “elevar a fasquia e fixar novas ambições”? Até Ronaldo que, tendo já mais dinheiro do que conseguiria gastar, fugiu aos impostos. Até Ronaldo, o “símbolo nacional” que antes era embaixador do Turismo de Portugal, mas se tornou embaixador do turismo saudita, porque lhe rende mais. Até Ronaldo, que serve de “garoto propaganda” para um xeique totalitário, corrupto e com sangue nas mãos, porque isso lhe rende milhões. Até Ronaldo, que vai à Casa Branca prestar vassalagem a Trump, porque é isso que manda o xeique que lhe paga. Ronaldo não tem só lado A. Também tem lado B, e não é bonito. É por um país à Ronaldo, “a elevar a fasquia e fixar novas ambições”, que Luís Montenegro suspira.

“É a diferença entre jogar para empatar ou ter a mentalidade vencedora de jogar sempre para ganhar”, ensinou-nos o primeiro-ministro. Sabe do que fala – foi graças à sua “mentalidade vencedora de jogar sempre para ganhar” que o Luís criou, com as mãozinhas que deus lhe deu, uma empresa de consultadoria como há poucas no mundo: capaz de fazer consultadoria em todas as áreas e mais alguma, só com administradores (o próprio Luís mais a família lá de casa), e apenas com funcionários em outsourcing (deve ter vindo daí uma das ideias “transformadoras” das suas alterações ao código laboral). Mentalidade vencedora, fasquia alta, ambição desmedida: este Ronaldo tem a cara de Montenegro. Tanto que manteve uma avença a pingar na sua empresa quando já era primeiro-ministro. O “avençado central do regime”, como escreveu ontem Miguel Carvalho.

 

As lições do Luís

Há mais na mensagem de Natal de Luís Montenegro do que o fascínio pelo Cristiano Ronaldo dos petrodólares e da fuga ao fisco.

O discurso do PM incluiu soundbites como este: “Portugal é hoje uma referência a nível europeu e mundial” (e lá veio, mais uma vez, a ladainha da “distinção” da revista The Economist). Referência-referência, seremos em matéria de deixar colapsar o controlo de estrangeiros e fronteiras, seja porque o sistema “pifa”, seja porque não é capaz de dar resposta a picos de entradas, embora em épocas tão previsíveis como o Natal e Ano Novo. E tudo isto apesar de já não existir SEF que, no seu tempo, marcava sempre greves em épocas críticas. Agora, com a PSP e GNR a controlar as entradas de estrangeiros, não há greves – nem há política, nem planeamento, nem meios, por isso Portugal suspende em cima do joelho o sistema europeu de controlo de fronteiras para cidadãos extracomunitários, pondo em causa a interoperacionalidade entre agências de segurança. Que ironia, no país onde tanto se fala de “bar aberto” no controlo de fronteiras e de “entrada descontrolada de criminosos”. Bruxelas já avisou que quer mais explicações, e garantiu que o problema não é do funcionamento do sistema europeu. Do ministro Leitão Amaro, tão ladino na hora de propagandear as maravilhas do novo sistema de controlo de entradas, ainda não se ouviu um pio.

Outro soundbite: “Estamos no caminho certo (...) da execução de uma agenda transformadora que está a tornar-nos mais fortes e mais resilientes”. Verdade seja dita, há duas grandes transformações em curso, e ambas nos estão a tornar mais fortes e resilientes, mas apenas no sentido em que “o sofrimento forma o caráter”, como dizia o pai do Calvin, na BD “Calvin & Hobbes”. Essas grandes transformações são a desregulação do mercado de trabalho, para grande alegria dos patrões, e o afundamento do SNS, para grande lucro dos prestadores privados de saúde – segundo esta notícia, em 2025 o Hospital da Luz, em Lisboa, fez pela primeira vez mais partos do que a Maternidade Alfredo da Costa. E, “perante a incerteza do SNS”, são cada vez mais os portugueses que recorrem aos privados para consultas, exames e cirurgias. A “mentalidade de Ronaldo” dos operadores privados nunca ousaria sonhar tão alto sem a ajuda preciosa da alegada “ministra da Saúde”.

 

Amnésia e anemia

Ainda que a mensagem de Natal do PM fosse uma obra-prima de retórica e de humanismo (e foi o contrário disso), teria sempre um problema: o teste do tempo. Logo depois da mensagem natalícia, Luís Montenegro mostrou que já a tinha esquecido. Não tem uma nova mentalidade ambiciosa ou vencedora; tem apenas a boa velha mentalidade do amiguismo e compadrio. A prova está na nova administração do Metro de Lisboa, que será chefiada por Cristina Vaz Tomé. E na vassourada (mais uma) nas administrações dos hospitais, para dar mais “jobs for the boys”. E “for the girls”. 

Fixemo-nos, por alguns parágrafos, no caso da nova direção do Metropolitano de Lisboa. Com o seu consabido pragmatismo, o jornal Correio da Manhã deu assim a notícia: “Governante polémica premiada com cargo dourado”. Seguia-se um resumo do que está em causa: “Governo que afastou [Cristina] Vaz Tomé nomeia-a agora para cargo em que ganha mais. Metro de Lisboa paga-lhe ainda as despesas de casa.”

Foi isso, mas foi mais. Para além de nomear uma nova presidente e vogal, o Governo criou o cargo de vice-presidente do Metro de Lisboa, À medida para mais um boy. Mais: segundo o Público, a nova administração vai ganhar bastante mais do que a administração cessante. Porquê? Porque graças ao bom desempenho, nos últimos dois anos, da administração agora parcialmente despedida, o Metropolitano de Lisboa subiu na classificação das empresas públicas, o que equivale a salários superiores para os respectivos administradores. Por azar dos Távoras, a presidente interina responsável por esse bom desempenho foi dispensada, e quem vai faturar é Cristina Vaz Tomé, que entra em funções com o ano novo.

Segundo o Governo, a sua nomeação, e dos restantes novos administradores, baseia-se na "idoneidade, experiência e competência profissionais para o desempenho dos cargos". Ora, que competência tem a atual deputada do PSD para o novo cargo que vai desempenhar? À primeira vista, tudo. É gestora, tem uma impressionante lista de títulos académicos, e é professora nas universidades mais reluzentes do país (para não privar a pátria desse tesouro, o Governo permitiu-lhe continuar a dar aulas). Infelizmente, Vaz Tomé nunca trabalhou em mobilidade urbana, nem nada parecido. Sabe zero sobre a área que vai tutelar. Mas é uma gestora como Montenegro gosta: “joga para ganhar”, “fixa ambições” novas e velhas, e “eleva a fasquia” – com isto quer-se dizer que não tem medo de assumir responsabilidades em áreas de que nada sabe.

Aconteceu o mesmo em 2024, quando aceitou ser secretária de Estado da Gestão da Saúde, sabendo nada de gestão da saúde. Depois, foi o que se viu. Entre outras façanhas, ignorou um pré-aviso de greve do INEM, não preparou um plano de contingência, e por coincidência morreram nesse dia onze pessoas que precisavam de assistência da emergência pré-hospitalar. Questionada sobre a situação de rutura no INEM, que tutelava diretamente, Vaz Tomé respondeu que os problemas já tinham muitos anos e que os jornalistas estavam com "anemia". Queria dizer que estavam com amnésia. Quem nunca confundiu anemia com amnésia sendo governante na área da saúde que atire a primeira pedra.

 

A "ministra das Finanças do SNS"

Depois deste interlúdio humorístico, a ministra da Saúde retirou a Cristina Vaz Tomé o importante pelouro do INEM. Mas manteve-a secretária de Estado – contudo, em regime “ficas-ali-sentadinha-e-não-estragas-mais-nada”. O INEM não ficou melhor. Cristina Vaz Tomé também não. Quando Ana Paula Martins foi reconduzida como ministra, no segundo Governo Montenegro, a gestora foi, naturalmente, dispensada. 

Vá lá que a nova presidente do Metropolitano de Lisboa, embora não saiba da poda, é uma gestora competente. Pelo menos é o que garantem no seu círculo de amigos (que é grande) e no seu círculo de interesses (que é ainda maior). Infelizmente não há provas públicas dessa competência nem na administração do Estado nem na gestão de empresas. Nos últimos anos passou por duas de grande dimensão e com muitos problemas por resolver: RTP e SIC. Na RTP conseguiu o impensável, pois após o seu primeiro mandato de três anos como administradora financeira, não foi reconduzida – mas a restante equipa de administração foi. Na SIC, confirmou o padrão e saiu ao fim de um mandato de três anos. Antes de se reinventar como gestora de saúde, era administradora financeira de uma empresa de comunicação social de dimensões mais modestas. O jornal online dessa empresa escreveu sobre a sua ida para o Governo: “Na prática, será a ‘ministra das Finanças do SNS’, uma das principais fontes de preocupação do ministro de Estado e das Finanças.” Com o tempo, também passou a ser uma das principais fontes de preocupação da ministra da Saúde.

Mas mais vale cair em graça do que ser engraçado. Também ajuda ter um primeiro-ministro que não segue aquilo que ele próprio diz. Montenegro, que prega aos portugueses sobre exemplos de excepcionalidade fora de série, esquece-se de “elevar a fasquia” na hora de distribuir lugares pelos seus. É um Ronaldo com amnésia. Cristina Vaz Tomé nem se qualifica como Ronaldo. Será, quanto muito, uma Kátia Aveiro. Mas, tendo em conta o seu desempenho como administradora, será uma Kátia com anemia.

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