A campanha presidencial de André Ventura nunca foi a sério, e terminou ontem. O líder do Chega sabe que não terá votos para ser Presidente, mas que pode ter votos para vencer as legislativas. E farejou a fragilidade da sua presa. A presa não é Seguro, é Montenegro. Ventura segue, pois, em contramão para São Bento. Belém foi só um reabastecimento
A campanha presidencial de André Ventura nunca foi realmente sobre as presidenciais. Dois dedos de testa bastavam para perceber isso logo no anúncio da candidatura. As intenções de Ventura sempre foram outras: não deixar dispersar o seu eleitorado de maio de 2025, aproveitar o palco mediático para amplificar a sua mensagem e seduzir mais eleitores, e desestruturar o espaço político à direita, tornando-se a grande referência dessa área.
Tanto Luís Montenegro como Cotrim Figueiredo acabaram por lhe dar uma mãozinha preciosa. Montenegro, metendo-se (a si e ao Governo) até ao pescoço na campanha de Marques Mendes, que nunca carburou. Depois, lavando as mãos da segunda volta, numa atitude de distanciamento em absoluto contraste com o empenho que tinha mostrado antes. Nesse lavar de mãos, colocou Seguro e Ventura no mesmo patamar, como se o vencedor fosse indiferente para o Governo, para a AD e para o país. Ventura só não agradeceu publicamente porque prefere fazer sempre de Calimero, coitadinho-de-mim-que-estou-contra-todos.
Cotrim Figueiredo fez pior. Primeiro não excluiu a possibilidade votar Ventura na segunda volta, depois não sabia o que lhe passou pela cabeça para dizer tal coisa, depois armou-se em Ibrahimovic, “um mundial sem mim não vale a pena ver”, e por fim, ontem, fez o que tem sido interpretado como uma declaração de apoio a Seguro. Nessa declaração, disse que não votará em branco e que, entre um candidato que deixa “o país parado” e outro que faz “o país andar para trás”, mal por mal, votará no que deixa o país parado. É isto uma declaração de voto em Seguro? Ou será só mais um exercício sonso de narcisismo?
Tenho a vaga ideia de que Cotrim foi um dos propagadores da ideia de que Seguro representa o regresso de Portugal ao “socialismo”. E que “o socialismo” faz o país “andar para trás”. Enfim, deixo para especialistas em cotrinês a hermenêutica deste enigma embrulhado numa charada. Talvez os mesmos especialistas que entendem de que forma Cotrim formar um movimento egocêntrico ajudará a IL e a sua (ainda) líder a chegar a algum lado.
O André “moderado” evaporou-se. Até lhe fugiu a boca para o Estado Novo
Recapitulando: manter intacta a base eleitoral do Chega era o primeiro objetivo; alargá-la era o segundo – se conseguisse que eleitores da AD ou da IL votassem em si pela primeira vez, Ventura ganhava a terminação. Porque a sorte grande, para Ventura, só sai mais tarde. Quando houver legislativas. Esse sempre foi o prémio que Ventura teve em vista; sendo as presidenciais apenas uma etapa dessa corrida.
A prova de que o líder do Chega desistiu das eleições presidenciais, é que deixou ontem de interpretar o papel de candidato moderado, que assumiu durante uns dias na primeira volta. Se bem se lembra, João Cotrim Figueiredo quase se comoveu com a transfiguração de André Ventura, que conseguiu manter mínimos de elevação durante “quatro dias”. Deve ter sido um desgosto para o eurodeputado da IL perceber ontem que tudo não passou de encenação de conveniência.
Agora que já enganou alguns com a sua versão civilizada, e ganhou tudo o que ambicionava ganhar – a passagem à segunda volta – Ventura pode voltar a ser igual a si próprio: um troll da política, um terrorista verbal, uma metralhadora de maledicência.
No debate de ontem, o candidato que há duas semanas queria “debater os assuntos que interessam à pessoas” passou quase todo o tempo a tentar achincalhar o adversário. Seguro juntou “um sistema de interesses” que inclui, imagine-se, o PCP, o BE, o PS, Marques Mendes, Paulo Portas e até Cavaco Silva. Todos muito juntinhos, e com muitos “interesses”, farão com que Seguro fique “capturado”. Isto foi dito, sem se rir, por um líder partidário, que representa os interesses do seu partido e dos seus financiadores (sobre isso, que não é aqui o tema, recomendo a leitura do livro “Por Dentro do Chega”, do jornalista Miguel Carvalho – e noto que nada do que aí está escrito foi desmentido). E foi dito no mesmo debate em que Ventura propôs que o Procurador-Geral da República passe a ser escolhido pela “corporação do Ministério Público”. Até lhe fugiu a boca para o Estado Novo ao falar de “corporação”. Quem está capturado por interesses?
A rebarbadora falante
Outras coisas que Ventura considerou importante dizer no debate de ontem, porque são “os assuntos que interessam às pessoas”:
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Seguro deixou o PS “numa confusão” (LOL),
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“não sabe se quer rever a Constituição”,
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“é como o Melhoral, não faz bem nem faz mal”,
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“não decide”,
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“não tem ideias sobre nada”;
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“Se é para estar lá a fazer nada votem no Seguro”;
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“Seguro não vai fazer exigência nenhuma ao Governo”;
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Segundo uma pesquisa rápida no Google (ou no ChatGPT; não ficou claro onde é que Ventura pesquisou “António José Seguro + saúde”), nos dez anos em que esteve fora da política Seguro “não disse nada sobre saúde”;
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Seguro “só fala quando lhe pagam”,
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“quer a bandalheira”,
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é “arrogante”,
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é “impreparado”,
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“está um pouco desatento”,
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“nem sequer sabe o que é que o Presidente pode fazer”,
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“é constrangedor”.
É mesmo constrangedor. O presidente do Chega voltou a ser a rebarbadora falante de sempre: vai tudo raso, o que quer que o oponente diga (ou não diga). O ex-secretário-geral do PS limitou-se a sorrir e a prometer que “elevaria o debate”. Mas nos momentos em que saiu da sua persona de “busto da República” (peço a imagem emprestada ao Anselmo Crespo), e conduziu a conversa, Seguro encostou Ventura às cordas na questão da nomeação do PGR, e deixou-o desarmado no populismo das subvenções aos antigos políticos: “Quando saí do Parlamento, há 11 anos, para a minha vida privada, podia ter pedido essa subvenção. Contas por baixo, teria recebido 300 mil euros de subvenção. Sabe quanto recebi? Zero. Fui à minha vida. Porquê? Porque enquanto eu tiver cérebro e mãos para trabalhar, continuarei a fazê-lo.”
O candidato que mudou de guerra
Mas Ventura não se limitou a enterrar a sua, chamemos-lhe assim, “versão moderada”. Abdicou da campanha presidencial e mudou a agulha, focando-se em apresentar serviço como líder da oposição a Luís Montenegro. É possível até fazer uma autópsia do candidato presidencial. Por volta dos 12 minutos de debate, Ventura elencou as suas prioridades na oposição ao Governo: Saúde, Justiça, e “as pensões miseráveis”. Adiante, aos 15 minutos, desfiou os males bem conhecidos do Serviço Nacional de Saúde e as suas razões para correr com a ministra da Saúde. Adiante, afirmaria orgulhoso: “eu consegui dizer aqui vinte tópicos” sobre o estado do SNS. Esse foi o momento em que foi declarado o óbito da campanha presidencial. Seguem-se as legislativas.
Curiosamente, para essas eleições o líder do Chega está bem lançado. O seu primeiro tiro nesta segunda volta das presidenciais correu-lhe mal; queria uma polarização Esquerda vs Direita, mas nem tem figuras de peso que o apoiem nesse espaço (tirando Cinha Jardim), nem as sondagens lhe dão grande crescimento desde o dia da primeira votação. É isso que diz, para já, a tracking poll da TVI/CNN.
Como aquela não lhe estava a render, Ventura mudou de guerra: foi às definições e reconfigurou a coisa para Povo vs Elites. O populismo em estado puro. E ele, Ventura, que queria ser o homem que arregimenta toda a direita contra “o socialismo”, passou a ser o homem só que combate o sistema, e tudo, e todos. Como diz o seu cartaz novo, “Quando estão todos contra um homem é porque está no caminho certo”.
Não será suficiente para ganhar umas eleições presidenciais, mas pode bastar para ganhar umas legislativas, quando quer que estas aconteçam. E será mais cedo do que mais tarde, pois Ventura voltará ao Parlamento empoderado pelo seu resultado de dia 8. Até lá, pode seguramente crescer em relação aos 26,5% que a tracking poll lhe deu ontem. Todos os votos que amealhar são dele, mesmo dele. E darão juros nas eleições para primeiro-ministro.
O exame que importa: o do “Tio Jaime”
Estarei a ver coisas? Não é impossível. Em todo o caso, estou a ver a mesma coisa que Jaime Nogueira Pinto, carinhosamente apelidado no Chega como o “Tio Jaime” (mais uma vez: quem quer perceber, leia o livro do Miguel Carvalho. É esclarecedor). Sem demérito para outros examinadores de serviço na antena da CNN, o exame que é preciso ouvir é o do historiador e municiador intelectual de André Ventura.
O que disse Jaime Nogueira Pinto? Cito algumas frases:
“Para o André Ventura esta eleição é ótima, porque vai aumentar com certeza a votação que o partido teve e definitivamente ganha o controlo da direita, porque isto coincide com uma grande infelicidade para o Montenegro e para o PSD, porque o candidato [Marques Mendes] teve praticamente um terço da votação que tinha tido [a AD].” Nogueira Pinto exprime-se mal, mas pensa bem. Note-se que dá a questão presidencial como arrumada, e nem perde tempo com isso. Os olhos estão postos no “controlo da direita” e na votação de Ventura e do “partido”.
“Não há controlo na votação da AD. (...) De certo modo [Luís Montenegro] ficou muito enfraquecido, porque numa corrida decisiva que é a Presidência da República desertaram dois terços do eleitorado com que ele devia contar.” Parece que estamos num documentário BBC Vida Selvagem: o predador fareja a fraqueza da presa. Montenegro teve a soberba, e a insensatez, de pensar que agarrando as bandeiras do Chega o poderia esvaziar. Limitou-se a promovê-lo. Talvez o primeiro-ministro já tenha percebido que, afinal, não é ele o predador.
“É muito importante [Ventura] ter pelo menos 30% da votação final. E se for 35% é magnífico.” Se for 35%, é o resultado da AD. É magnífico, claro.
O condutor em contramão sabe para onde vai
Voltemos ao novo slogan de André Ventura. Parece um daqueles condutores que entram na autoestrada em contramão e acha que se estão todos contra ele, é porque só ele é que está certo. Mas, ao contrário de muitos desses condutores, Ventura não está perdido nem senil. Está simplesmente no atalho mais conveniente para alcançar a sua presa.
É em contramão? Seja. Ventura já mostrou muitas vezes que se importa pouco com as regras. Se não respeita a Constituição, porque haveria de respeitar outras normas menores? O condutor que vai contra todos sabe bem para onde vai. O seu destino é São Bento. A campanha para o Palácio de Belém foi só um reabastecimento.