Fernando Alexandre avaliou-se e concluiu que é ótimo. O Estado é que falhou. É fácil falar em meritocracia quando é o próprio a avaliar o seu mérito. O ministro matou a confiança e suicidou a reputação. Eis a obra de um bombeiro pirómano
“Se isto tivesse corrido muito mal, não haveria dúvidas de que a minha posição estaria em causa.” A frase foi dita na segunda-feira pelo ministro da Educação, Fernando Alexandre. “Isto” é a forma como decorreu o processo de digitalização dos exames do secundário, avaliação online e lançamento das respetivas notas. Um processo que falhou em todas e cada uma das fases em que podia ter falhado, derrapou em todos os prazos estabelecidos (tanto previamente como durante a debacle), criou problemas que nunca existiram antes, manteve e mantém ainda hoje alunos e pais com o credo na boca, e está longe de estar terminado.
Apesar de já estarmos em plena segunda fase de exames, há alunos que ainda não sabem a nota da primeira chamada. Outros, têm fundadas dúvidas sobre as notas que receberam e esperam a sua revisão. Apesar de já estar a decorrer o processo de candidaturas ao ensino superior, há centenas, milhares de alunos que não sabem que nota terão depois dessa reavaliação das suas provas. Pedir a revisão das notas não é capricho, é um imperativo, tendo em conta o caos que foi o processo de avaliação, com enunciados trocados, respostas incompletas e até notas alteradas já depois de publicadas.
Isto foi como as coisas aconteceram… correndo bem. Imagine-se, como disse Fernando Alexandre, com toda a lata do mundo, “se isto tivesse corrido muito mal”...
O Professor Alexandre, como bom liberal dos quatro costados, é um apóstolo da “meritocracia”. É fácil ser um defensor da “meritocracia” quando se é em simultâneo o avaliador do próprio desempenho. Fernando Alexandre acha que é ótimo e que tem feito coisas excelentes. O amor próprio é importante numa atividade de alto desgaste como a política. Já a cegueira é perigosa. A incapacidade de autocrítica também.
Parece que há umas almas da sua seita que acham o mesmo sobre o nível de excelência do ministro que lançou a reputação do Ministério da Educação na lama. Constato que este tipo de atitude não é exclusivo nosso. Há uma palavra inglesa que tem sido muito usada quando se fala de Trump e dos seus fanáticos: “delusion”. Não é fácil de traduzir para português, porque é um conceito complexo, um misto de ilusão, autoengano e delírio. Em todo o caso, não é o tipo de atitude que se recomende para alguém que esteja em funções de governo.
O ministro que não sabia de nada
Aqui chegados, a palavra de Fernando Alexandre vale zero. Z-e-r-o. Uma prova fresquinha: ontem o ministro foi ao Parlamento jurar aos deputados que, coitado, nunca foi informado sobre os problemas que afetaram, há um ano, a experiência-piloto de avaliação digital feita com os exames de Filosofia. É estranho. Eu, que não era ministro da Educação, soube. Li nos jornais. Vi na televisão. Ouvi na rádio. O presidente do Júri Nacional de Exames (JNE) até se demitiu quando percebeu que o ministro ia insistir, este ano, em generalizar um modelo que, num teste tão limitado, tinha dado tão maus resultados. Parece que Fernando Alexandre era o único que não sabia, coitado.
Mas a alegação do ministro, como tudo o que este tem dito desde que começou este desastre dos exames, traz água no bico. Um formalismo para enganar tolos. “O Governo não tem relatório nenhum” do Júri Nacional de Exames sobre teste piloto do ano passado, foram as palavras de Fernando Alexandre. “A verdade é que ele [o ex-presidente do Júri de Exames], não deixou relatório nenhum. Se tinha informação e não partilhou, nem sequer com a Direção-Geral de Educação ou com o Eduqa, vai ter mesmo de explicar isso”, acrescentou Fernando Alexandre, o homem que mais explicações deve ao País, e mais gosta de fazer voz grossa a exigir explicações aos outros.
Nem precisámos de ouvir o contraditório do ex-presidente do JNE, que seguramente terá algumas coisas a dizer. Na mesma comissão parlamentar, o secretário de Estado da Educação, Alexandre Homem Cristo, nº2 do Ministério da Educação, confirmou que não existiu “um relatório formal” mas que os serviços do ministério, obviamente, receberam “informação sobre como correu o [teste] piloto”. E, ainda antes do ministro ter apontado o dedo a mais um bode expiatório, o próprio presidente do EduQa (organismo que, segundo Fernando Alexandre, também nada soube sobre os “grave erros” da prova de 2025) desdramatizou o que o governante havia de dramatizar. Sim, “houve articulação” entre o JNE e o EduQa. “A articulação é óbvia e necessária, e houve essa articulação”.
Nem confiança nem reputação
Com “relatório formal” ou sem ele, a nova desculpa do ministro vale zero. As suas garantias valem zero. Os seus desmentidos valem zero. A sua censura a terceiros vale zero. A sua aparente autoconfiança vale zero. E a sua capacidade de analisar o seu próprio desempenho e a situação política em que se meteu são iguais a zero.
Infelizmente, esta arrogância, esta soberba, este amadorismo e esta incompetência deixaram ao nível do zero a confiança de alunos, pais, e educadores no Ministério da Educação. Os ministros vêm e vão, e acabam sempre por passar, por muito autoconvencidos que sejam. Mas o mal que está a ser feito por Fernando Alexandre, desmantelando organismos, destruindo know-how, e minando a mais elementar confiança no ministério que dirige, vai permanecer. Será difícil de recuperar. Muito dependerá de como corra a segunda época de exames em que o ministro, mais uma vez contra toda a prudência, insiste que siga os mesmos procedimentos que tão miserável resultado deram até agora.
A confiança é da essência da democracia, e a reputação é preciosa. Fernando Alexandre matou a primeira e suicidou a segunda. É obra.
Este nível de caos é inédito e não tinha de acontecer. Decorre apenas e só de decisões do ministro. Que de tanto falar em rigor tirou sentido à palavra. Na sexta-feira, quando fez toda a pressão política, até em tom de ameaça direta aos diretores das escolas, para que as pautas fossem afixadas, Fernando Alexandre não queria saber de rigor – queria saber única e exclusivamente de tentar salvar a pele. Não há vestígio de rigor em pautas afixadas com notas “suspensas” ou com notas que depois foram sendo corrigidas. A única prioridade foi tentar cumprir o único prazo que o ministro ainda podia tentar cumprir. Com isso, agravando o caos e criando desigualdades entre alunos. Rigor? Onde?
O momento mais parecido de que há memória no Ministério da Educação foi a dramática abertura do ano escolar 2004/05, também por causa de uma transição digital mal preparada. Milhares de professores ficaram por colocar devido a um sistema informático que não tinha sido devidamente testado, pondo em causa o arranque das aulas. Houve adiamentos. Houve passa-culpas. Por fim, houve um recuo do Governo. Mas isso aconteceu no célebre Governo Santana, que ficou na história como o governo das trapalhadas. O impacto do que está agora a acontecer é maior, e mais grave, e o ministro não tem sequer a humildade de dar um passo atrás. Como trapalhada, é abaixo de Santana. Mais uma vez: é obra.
A cartilha do bombeiro pirómano
Conforme o ministro da Educação tenta sobreviver politicamente, em sucessivas fugas para a frente, vale a pena dar atenção aos principais argumentos que o próprio ou outros por ele têm apresentado em sua defesa e em defesa disto a que chamam reforma estrutural.
Quem espera condições perfeitas nunca faz nada
Ou, nas palavras de Fernando Alexandre: “Quem estiver à espera que estejam reunidas todas as condições para fazer alguma coisa, nunca vai fazer nada na vida”. A frase soa bem, e até tem ressonâncias bíblicas: “Quem só observa o vento nunca semeará; o que só olha para as nuvens nunca faz a colheita” (Eclesiastes 11:4). Há diversas traduções possíveis, mas a lição no Antigo Testamento é sempre a mesma: se estiveres à espera das condições ideais para realizar alguma coisa, nunca farás nada. Foi essa a defesa de Fernando Alexandre na sexta-feira passada, quando já era inescapável o fracasso da sua reforma. Mas o ministro não se deu por derrotado: "Neste caso, não correu bem, mas corrigimos, vamos aprender com a experiência e é assim que se avança".
Escrever “sua reforma” é uma força de expressão, pois o processo foi lançado ainda pelo Governo PS, com a ideia da prova-piloto em 2025. Mas demos de barato que Alexandre, fazendo jus ao seu nome de conquistador, tem tanta ambição de fazer reformas no seu ministério que não se deixou ficar a olhar para o vento, nem a contemplar as nuvens. Pode alguém ser quem não é? Pode Fernando Alexandre ser senão um reformista?
A questão, contudo, nada tem a ver com ficar à espera das condições perfeitas para fazer uma reforma. A questão tem a ver com garantir condições mínimas para avançar com essa reforma. Ora, foi isso que Fernando Alexandre não acautelou. Pior: desmantelou organismos com experiência, depauperou os quadros do seu ministério e entregou a uma empresa externa sem currículo na matéria uma parte essencial do processo. Diz agora que vai “aprender com a experiência” do que está a correr mal, mas não foi capaz de o fazer antes de alargar de 20 mil para quase 300 mil exames um modelo que tinha falhado e cujas correções não estavam garantidas.
Os ministros estão aqui para resolver problemas
Ou, citando Hugo Soares, o homem que acode a todos os fogos e defende até o indefensável: “Os ministros de um Governo devem corrigir problemas e fazer mudanças”. Tudo certo. Mas antes de corrigirem problemas, talvez fosse boa ideia os ministros não os criarem. Verão que têm a vida facilitada. Como se referiu acima, foi Fernando Alexandre quem deu a ordem pouco ponderada de avançar com uma reforma sem condições garantidas, e que a máquina do Estado manifestamente não estava pronta para concretizar. Vem agora o ministro dizer que “o Estado falhou”. Sendo um liberal que abomina o Estado, é fácil a Fernando Alexandre dizer isto. Até encaixa na sua agenda de progressivo desmantelamento do Estado. Mas quem falhou foi ele. Quem criou os problemas foi ele – e quem teve de fazer horas extraordinárias para amenizar os impactos de uma decisão política imponderada e arrogante foram os professores, os funcionários e os diretores das escolas. Não foi o Estado que falhou, foi o Governo.
Fernando Alexandre vai agora “resolver” os problemas que criou? Muito bem: será como o bombeiro-pirómano, que deita fogo à mata para depois o apagar e passar por herói da história.
Não há mudanças sem dor
O Governo é “reformista”, faz “mudanças” e mete “a cabeça no cepo” pelas suas consequências, doa a quem doer: esta foi a mensagem deixada por Luís Montenegro em plena crise dos exames nacionais. Ou, voltando a citar Hugo Soares, “esta é uma mudança grande, que evidentemente tem implicações e nem tudo correu bem”. Que é como quem diz: não há reformas estruturais sem dor. Nada que trave o Executivo, jura o primeiro-ministro: “Eu digo aos meus colegas no Governo que não tenham receio de modernizar os serviços que tutelam, que não tenham receio de enfrentar as resistências que há dentro dos seus serviços”. E que não tenham receio do que “não corre bem”. Afinal de contas, ninguém cresce sem sofrer dores de crescimento.
Por muito que Fernando Alexandre jure que “nenhum aluno será prejudicado”, já há hoje alunos prejudicados. E pais. E professores. A ideia de que não há reformas sem dor é uma nova versão do bom velho princípio da “destruição criativa”, a máxima dos Neros da política moderna que deixam arder para reconstruir à sua vontade.
A conversa de que não há reformas sem dor deve, no mínimo, deixar-nos alerta. Primeiro, porque há dores que podem e devem ser evitadas. Mas sobretudo porque quem acredita nisso não olha a meios para atingir os seus fins. É gente que até pode dormir descansada, mas que não nos deve deixar dormir descansados.
