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Comentador CNN

Que Se Lixem As Eleições | Como pode alguém desconfiar do Chega?

5 ago, 09:00
André Ventura no no debate do Estado da Nação (Lusa/António Pedro Santos)
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Porque é que alguém haveria de suspeitar da palavra de André Ventura? Só por ter construído toda a carreira política com base em enganos, fake news, manipulações e absolutas falsidades? 

O algoritmo é tramado. Conhece os nossos pontos fracos e sabe exatamente que conteúdos nos vão agarrar. Por isso estranhei que o Instagram me tenha presenteado com um vídeo do doutor Rui Gomes da Silva na SIC Notícias. A estranheza nem era tanto por eu ver poucos conteúdos desse canal (não desfazendo… é um facto), mas porque já nem me lembrava da existência do doutor Rui Gomes da Silva. E, contudo, ei-lo em todo o seu esplendor (salvo seja) a protagonizar um dos momentos mais divertidos a que assisti em muito tempo na televisão portuguesa.

O caso era sério: o alegado assalto e vandalização ao gabinete de André Ventura. Quando escrevo “alegado”, quero mesmo dizer alegado – temos a alegação de que isso terá acontecido, e nada mais do que a alegação, apoiada num vídeo feito pela alegada vítima. Quando escrevo “sério”, quero mesmo dizer sério – não é admissível, em qualquer circunstância, que o gabinete de um deputado na Assembleia da República seja invadido e vandalizado como alegadamente terá acontecido. O facto de esse deputado ser o líder do maior partido da oposição agrava o caso, mas não o muda na essência. A essência é que numa democracia liberal o local de trabalho de um representante eleito do povo é sagrado. E a verdade é que não há qualquer certeza sobre o que aconteceu neste caso.

Nada disto me distancia de Gomes da Silva. Nada disto estava sequer em discussão no vídeo que o algoritmo me serviu. A questão era outra. O doutor Rui Gomes da Silva estava muito indignado porque aparentemente há muita gente que não acredita que o alegado assalto tenha mesmo acontecido (para facilitar e poupar carateres, passarei a referir o alegado assalto apenas como “assalto”, entre aspas). Parece que há quem ache que tudo pode não passar de uma encenação do Chega. 

"Como não tendo importância"

Cito dois segmentos com o essencial do diálogo do doutor Rui Gomes da Silva com o jornalista Diogo Teixeira Pereira. Primeiro: 

– Porque é que acha que haverá tanta gente a achar que aquilo que aconteceu foi uma encenação?

– Há aqui uma tentação enorme de tudo aquilo que tem a ver com André Ventura e com o Chega ser desgraduado, ser desconsiderado, ser dado como não tendo importância. E mais, indo até ao ponto, neste caso, de achar que isto é uma inventona, que é inventado pelo Chega para criar esta sensação de ataque (...).

Interrompemos esta emissão para recordar que o Chega se poderá, talvez, queixar de muita coisa. Mas não de “ser desgraduado” ou de “ser dado como não tendo importância”. Pelo contrário: se há coisa que é dada de bandeja ao Chega é importância. Muito mais do que aquela que merece. Nomeadamente pela comunicação social. Em especial pelas televisões.

Era assim quando o Chega tinha apenas um deputado e era tratado como se tivesse o peso de um grupo parlamentar. Continuou a ser assim quando passou a ter 12 deputados e recebia atenção equivalente a uma grande força parlamentar. Quando elegeu 50 deputados, tinha mais destaque do que o maior partido da oposição. E hoje, que o Chega tem 60 deputados, André Ventura aparece mais do que o chefe do Governo. 

É o maior partido da oposição? Certo. Mas Ventura é, há anos, o político que merece o tempo de antena mais desproporcional em relação à sua representatividade política. No mês passado ficou à frente do primeiro-ministro, do Presidente da República e de toda a sorte de ministros, até os que estão no olho do furacão, como nos casos de Luís Neves e Fernando Alexandre. O jornalismo pátrio encontra sempre boas razões para pôr Ventura em destaque, seja em “notícias”, seja em “entrevistas” (uso aspas, porque nem sempre umas e outras são exatamente aquilo como se apresentam). 

Desgraduado? Sem importância? Importa-se de repetir?

"Um caso concreto"

Mas voltemos à conversa de Gomes da Silva com o seu entrevistador ocasional. Segmento dois:

– Há muitas pessoas que falam na possibilidade de isto ser uma encenação e que dizem isto porque o Chega já muitas vezes teve episódios em que não foi propriamente correto ou não foi propriamente verdadeiro nas alegações que fazia…

– Por morrer uma andorinha não acaba a primavera. E por ter acontecido uma vez… tem de me dizer quais são os casos, que eu não estou a ver… porque aquilo que aconteceu foi um caso concreto com um deputado e foi resolvido imediatamente. O Chega colaborou e expulsou-o.

Tanto para dizer sobre 43 palavras... Antes de mais, note-se que o doutor Rui Gomes da Silva “não está a ver” que casos foram esses em que o Chega “não foi propriamente verdadeiro” naquilo que disse – já lhe refrescaremos a memória. Depois, confunde deliberadamente as vezes em que Ventura e o partido mentiram, manipularam ou distorceram com aquela vez em que foram obrigados a aceitar a verdade, porque ela chocou de frente com eles. O caso de “um deputado” que foi “resolvido imediatamente” com a sua expulsão foi o de Miguel Arruda, eleito pelos Açores e que está acusado de furto de malas no aeroporto. Havendo meses de investigação e vídeos do deputado açoriano a levar dezenas de malas que não eram suas, o Chega optou por não contrariar o óbvio, e enxotou Arruda para fora do partido (embora o próprio jurasse que só poderiam “aparecer imagens de inteligência artificial a mostrar isso”).

"Eu não estou a ver"

O doutor Rui Gomes da Silva “não está a ver” em que circunstâncias alguém pode achar que o Chega, ou André Ventura, “não foi propriamente verdadeiro”. Ajudemo-lo, então, com alguns casos só para reativar a memória. Não são precisos muitos, para não maçar o leitor nem o doutor Rui Gomes da Silva.

Da primeira vez que foi eleito, Ventura defendeu que os deputados fossem obrigados a exercer o mandato de deputado em regime de exclusividade. Até estava escrito no Manifesto Eleitoral. Uma vez eleito, Ventura exerceu o mandato em acumulação com várias outras atividades remuneradas. Apanhado em falso, jurou que a medida estava no manifesto, sim, mas que ele, pessoalmente, não concordava e nunca tinha assumido o compromisso para si próprio. Não era verdade. Palavras exatas de Ventura na campanha: “Se for eleito deputado, como os números indicam, vou dar o exemplo comigo próprio, mantendo a exclusividade no Parlamento.”

Na campanha seguinte, em 2021, Ventura acenou de forma que alguns consideraram provocatória a manifestantes que protestavam contra a sua presença em Setúbal. A polícia manteve a manifestação à distância, com barreiras, mas no momento em que o líder do Chega disse adeus, os ânimos exaltaram-se e voaram em direção a Ventura duas caixas de pastilhas elásticas, “uma das quais lhe acertou na cabeça”. Um caixa de Smint, segundo o jornalista da Visão que relatou o episódio em grande detalhe, quase em câmara lenta. Ventura meteu-se no carro e depois viu-se uma pedra pelo ar, mais “isqueiros, garrafas de água, ovos e outros projéteis”. Nessa altura, atenção, Ventura já estava longe. Versão do Chega sobre o incidente: Ventura tinha sido “apedrejado”.

Três anos depois, noutra campanha, Ventura queixou-se de ter sido recebido com “tiros disparados para o ar” à chegada a Famalicão. A PSP, que acompanhou o evento, fez um comunicado a desmenti-lo: afinal, os tiros eram “rateres produzidos por um motociclo que seguia na caravana” do próprio Chega. Não era exatamente um atentado.

Mas nem só de campanhas eleitorais se fazem as realidades alternativas de André Ventura. Como escolher, entre tanta oferta?... Por exemplo, aquela vez, em 2024, quando Ventura jurou que nunca na vida tinha sido condenado por racismo e discriminação. “Fui a tribunal sempre que me acusaram de difamação, racismo, discriminação. Venci em todos os processos. Em todos, o tribunal deu-me razão”, afirmou em outubro de 2024. Por essa altura, já tinha sido condenado por ter ofendido a honra e o bom nome de uma família do Bairro da Jamaica, a quem se referiu na televisão como “bandidos”, mostrando a respetiva imagem. Recorreu para o Supremo, mas este manteve a decisão favorável à família Coxi. (Noutro caso, mas já este ano, Ventura-candidato-presidencial foi condenado por causa de cartazes que visavam “os ciganos”, com o Tribunal Cível de Lisboa e a Relação a concordarem que era “discriminatória” a mensagem de que “Os ciganos têm de cumprir a lei”. Mas Ventura insiste que nunca perdeu casos em que é acusado de racismo e discriminação…).

Será que Gomes da Silva não se lembra de quando Ventura pegou num raminho e foi colina acima, com alguém a filmá-lo, a fingir que apagava um foguinho em época de grandes fogos florestais? E o dia em que Ventura pôs no TikTok um vídeo em que carregava, com sofrimento, latas e garrafas de água para acudir às vítimas do comboio de tempestades, mas o vídeo mostrava chuva pesada que tinha sido acrescentada com recurso a inteligência artificial? E a quantidade de vídeos em que Ventura pega em imagens descontextualizadas, truncadas ou manipuladas para distribuir acusações em cascata?

Bem sei, são casos já com alguns meses, alguns até com anos. Então algo mais recente. O doutor Rui Gomes da Silva terá visto o vídeo em que o seu afilhado de casamento André anda pela Assembleia da República a bater nas portas de acesso aos grupos parlamentares (e não nas portas dos gabinetes) para fingir que não havia ninguém dos outros partidos a trabalhar naquela casa? “O país está como está (...) e o Parlamento, os deputados, nada, zero, uma vergonha”, foi a conclusão de Ventura com base em… nada, zero, pois não só não era dia de trabalhos parlamentares, como o líder do Chega não tinha batido à porta que qualquer gabinete.

"Precisa de uma limpeza urgente"

Pode escrever-se um livro com as verdades alternativas do Chega e de Ventura. Com todas as vezes que manipulou, distorceu, exagerou, se vitimizou sem razão e acusou outros sem fundamento (ainda há pouco Pedro Frazão foi condenado por acusações falsas contra José Manuel Pureza). Na sua versão do mundo, é muito alta a probabilidade de haver Mercedes à porta de barracas e fortunas na conta bancária dos beneficiários do rendimento mínimo. Seguramente está iminente a invasão de Portugal por marroquinos através de Ceuta, apesar de Ceuta ficar noutro continente. A julgar pelas redes sociais de Rita Matias, o Algarve já está a viver essa invasão, conforme demonstram imagens divulgadas esta semana pela deputada, e captadas… em Essex, Inglaterra. O Polígrafo desmonta a patranha.

Pode escrever-se outro livro com as “fake news” propaladas por contas ligadas ao Chega nas redes sociais e até no jornal oficial do partido. Por exemplo, aquelas “notícias” que têm exatamente o mesmo aspeto gráfico de órgãos de comunicação social legítimos, como o Público, ou a Renascença, ou o Expresso, só que com “informações” que estes media nunca publicaram. Não é por acaso que todos os estudos indicam o Chega como epicentro das maiores teias de desinformação em época de campanha eleitoral, por exemplo.

Querem saber como se faz? Ventura deu recentemente um exemplo perfeito. Publicou um vídeo em que a correspondente da RTP em Madrid, Ana Romeu, diz isto, falando dos grandes fogos em Espanha: “O negacionismo mata. O negacionismo de direita é o principal combustível destes fogos.” No vídeo, Ventura indigna-se: “Isto é uma jornalista da RTP, da televisão portuguesa pública. Como é que nós podemos querer ter um jornalismo de jeito?”. Na publicação, atiça o fogo: “Não acham que a televisão pública precisa de uma limpeza urgente? Não podemos continuar a pagar salários a ativistas mascarados de jornalistas.”

Acontece que a frase da jornalista foi truncada. Ana Romeu estava a citar Pedro Sánchez que, ele sim, correlacionou os fogos com o “negacionismo de direita”. A correspondente foi muito clara: “Há instantes, Pedro Sánchez falou sobre a questão dos incêndios…” e resumiu as palavras do PM espanhol. A história está toda aqui. Ventura transformou a opinião de Sánchez numa opinião da jornalista. Entretanto, apagou esse vídeo, depois de se tornar viral e ter milhares de visualizações.

Nove anos disto

De facto… como pode alguém achar que um político com este padrão de comportamento poderia mentir, simular ou manipular para enganar deliberadamente? Como não ser solidário com a perplexidade do doutor Rui Gomes da Silva, político experiente que noutros momentos da sua carreira nos brindou com episódios de alto coturno, como o princípio do fim do Governo Santana Lopes e o princípio do fim da liderança de Filipe Menezes no PSD?

Apesar de Gomes da Silva não estar lembrado de nada disto, é possível que muitos cidadãos olhem para as imagens da balbúrdia no gabinete de Ventura, o oiçam a queixar-se de que lhe foram roubadas pens e documentos gravíssimos que incriminam Luís Neves por coisas extraordinárias, e se limitem a achar que é mais do mesmo. E o “mesmo” todos percebem o que é.

André Ventura apagou a mentira que publicou há oito dias sobre a correspondente da RTP, mas não apaga a memória coletiva sobre o seu modo de atuação ao longo de nove anos. Sim, nove anos. Andamos nisto desde a campanha para a câmara de Loures, em 2017. Que lançou Ventura para o estrelato político e mediático com base… imagine-se!... numa mentira. Essa campanha foi o início das suas atoardas racistas e xenófobas, fazendo o país olhar para ele ao citar uma sondagem segundo a qual a insegurança, ligada à comunidade cigana, era a maior preocupação dos eleitores de Loures. Essa sondagem foi inventada.

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