Agora que assentou a poeira, se calaram as sirenes e começam a baixar os decibéis da primeira vaga do debate (a primeira, porque o debate irá pelo menos até ao dia das eleições autárquicas) podemos olhar para a Calçada da Glória, para a Praça dos Restauradores, sobrevoar a Baixa até à Praça do Município e, deste plano-olho-de-pássaro, resulta uma e só uma conclusão: a grande vítima do acidente do Elevador da Glória foi Carlos Moedas.
“Eu sinto-me verdadeiramente de luto. E esse luto é profundo.” Moedas disse mesmo isto, como se lhe tivesse morrido um parente na Calçada da Glória. Com a voz mais embargada do que se lhe tivesse morrido um parente na Calçada da Glória. Alguém avise os seus media trainers de que estão a exagerar.
Ouvimos Carlos Moedas, no pouco tempo livre que teve para dar duas entrevistas televisivas, fazer duas declarações sem responder a perguntas e um discurso numa sessão da Câmara de Lisboa, e quase esquecemos que morreram 16 pessoas inocentes, dezenas ficaram feridas, inúmeras ficaram com um trauma para sempre. Quase nos esquecemos da ferida que se abriu no coração da cidade, da desconfiança que cresceu sobre o serviço da Carris, da má publicidade de que Lisboa e Portugal foram alvo devido às notícias desta falha monumental e mortífera. Quase. Depois lembramo-nos do que é realmente importante.
Mas no túnel mediático em que vive Carlos Moedas, cujo destino é a gloriosa carreira política que ele sonha para si mesmo, tudo é sobre ele. É ele a vítima. Porque no mundo de Carlos Moedas, tudo é sobre ele.
Só ele sabe o que sofreu. Só ele sabe o que hesitou. Só ele sabe os discursos que reescreveu, os soundbites que ficou na dúvida sobre lançar ou não, a dramatização com que teve de carregar a voz e a teatralidade que lhe tomou conta do corpo. Stanislavsky ensinou muitos truques, mas nunca avisou o quanto custa fazer um papel como este. Mas valeu a pena. Ouvindo Moedas, ficamos convencidos de que existe uma VDT. Uma vítima disto tudo. Vinte vezes vítima.
- É Moedas a vítima do descarrilamento do Ascensor da Glória. Logo agora, a pouco mais de um mês das eleições autárquicas, que Moedas já imaginava como um passeio triunfal, depois da vitória à unha de há quatro anos. Logo agora, que Moedas ia apresentar um programa eleitoral cheio de amanhãs que cantam, unicórnios que saltitam e chaves de casas que brotam em cada esquina. Logo agora, que vão começar as sondagens, e tendo em conta de que nas mais recentes, embora a vitória fosse certa, se notava o desencanto de eleitores que esperavam de Moedas o que ele nunca soube fazer nem nunca foi capaz de cumprir.
- Moedas é vítima das suas primeiras declarações, em que pelo meio de palavras necessárias (o reconhecimento da gravidade da tragédia, a declaração de luto, o elogio a quem protagonizou as operações de socorro, a necessidade de investigar tudo até ao fim) enxertou soundbites de oportunismo eleitoralista. “Este é o momento de ação, de fazer, de concretizar, de ajudar”, até de “estar aqui a tratar” – e outros verbos de ação que enchem o discurso político de quem finge que não está a fazer política. Mas o aproveitamento político topa-se à légua.
- Moedas é vítima de não lhe reconhecerem o mérito de ter sido o pequeno grande protagonista de tudo, aquela pecinha que fez tudo funcionar. Se não vejamos: “desde a primeira hora” esteve “em contacto com o Presidente da República, o primeiro-ministro, e todo o Governo”. “Naquela noite eu tive de tomar muitas decisões. E as pessoas não sabem o que foi a capacidade de tomarmos decisões muitas vezes sem toda a informação. (…) Eu tomei essa decisão num cenário que não pode imaginar.” Começamos a imaginar que Moedas tenha decidido destacar bombeiros, Proteção Civil municipal e INEM para o local, pois sem ele nada disto aconteceria. Fantasiamos que tenha sido Moedas a decidir os cortes de ruas para facilitar a circulação dos veículos de emergência, a convocar a Judiciária para investigar no local, a mobilizar seis hospitais para receberem feridos, a dar o alerta ao Instituto de Medicina Legal para acolher os mortos.
Para além de ter sido ele, fazendo voz grossa, quem exigiu “respostas”. “A cidade precisa de respostas. Sou, em nome dos lisboetas, o primeiro interessado em que tudo, tudo, seja apurado” – curioso que se tenha colocado do lado dos lisboetas que exigem respostas, como se a Carris lhe fosse coisa alheia, quando ele é um dos poucos lisboetas que tem obrigação de as dar.
- Mas, depois, Moedas é vítima de Luís Montenegro, que lhe faz esmaecer o brilho e ofuscar o protagonismo. Segundo o primeiro-ministro, o Governo acompanhou “desde a primeira hora” a tragédia de Lisboa, “transmitindo as orientações essenciais para a prestação de todo o apoio necessário”. O chefe do Governo até nomeou, um por um, os ministérios que permitiram que tudo funcionasse: Administração Interna, Saúde, Justiça, Infraestruturas, Trabalho, Solidariedade e Segurança Social. Foram os serviços tutelados por estes ministérios que responderam, funcionaram, estiveram à altura, “sempre estreita colaboração com a Câmara Municipal de Lisboa”, disse o primeiro-ministro.
- Moedas foi vítima de ter ido a um Conselho de Ministros e ser referido pelo PM como um rodapé. Pior: como um funcionário que deve dar explicações. “Convidei o senhor presidente da CML, engenheiro Carlos Moedas, para estar hoje no Conselho de Ministros para podermos fazer um ponto de situação e também para lhe podermos transmitir toda a nossa solidariedade e apoio do Governo”, disse Montenegro. Moedas agradeceu e pediu ajuda. “Vim hoje aqui informar o Governo da situação, tendo em conta que é um acidente sem precedentes, e para pedir o apoio e celeridade na investigação. Precisamos da ajuda de todos.” Ouvimos todos, vimos todos, deu nas televisões todas.
- Mas depois Moedas achou que estava a ser vítima de uma interpretação errada daquela estranha ida ao Conselho de Ministros. Aquilo não lhe estava a correr como ele imaginara. E foi à televisão pôr os pontos nos is. “O Conselho de Ministros era importante porque eu estive a noite a trabalhar com entidades como o Instituto de Medicina Legal, a Polícia Judiciária, estive horas e horas com a ministra da Saúde ao telefone, com a ministra da Administração Interna, tudo isso era importante, nós ainda estávamos a articular. … Eu não fui ao Conselho de Ministros para informar os ministros. Eu fui trabalhar com os ministros porque estávamos de igual para igual a trabalhar numa tragédia que estava a acontecer. (...) Temos estado a trabalhar de igual para igual com o Estado. Eu não fui lá para prestar vassalagem a ninguém.” Pobre Moedas, vítima da ideia de que pudesse, alguma vez!, prestar vassalagem a alguém ou trabalhar com quem quer que seja sem ser “de igual para igual”. Era um esclarecimento que se impunha e que impunha presença televisiva.
- Parece que Moedas também foi vítima da acusação de ir pouco à televisão. De ter mandado para a linha de fogo o presidente da Carris, primeiro, e o vice-presidente da Câmara, depois. Como nenhum foi convincente, o presidente da Câmara viu-se na obrigação de mudar de prioridade. A sua “prioridade foi estar no terreno”, sem ter “a prioridade de estar a falar nem para os políticos nem para os media”. Mas o que tem de ser tem muita força e Moedas lá deu a primeira entrevista televisiva, aceitando até, imagine-se!, responder a perguntas. O resultado foi inesperado…
- Moedas foi vítima da sua própria entrevista televisiva à SIC. A gravata preta, o ar excessivamente pesaroso, tudo parecia demasiado ensaiado. Como era ensaiado o ataque à oposição, por estar a fazer “aproveitamento político” de uma tragédia. A esquerda que pedia a sua demissão, o PS que exigia responsabilidades políticas, lembrando palavras de Moedas no passado, e a comunicação social que apontava a incoerência entre o que Moedas disse em 2021 sobre Fernando Medina, exigindo a sua demissão no caso “Russiagate”, e o que dizia e fazia agora.
- Como diria Moedas noutra entrevista, à CMTV: “Eu estive quatro dias a ser atacado, a ser atacado no meu carácter, a ser destruído, por máquinas políticas que querem ganhar votos, que querem politizar uma tragédia desta dimensão e eu não queria acreditar que isso podia estar a acontecer no meu país.” Algo tão inédito não podia passar impune, e Moedas não ficaria calado como vítima desta cabala.
- Curiosamente, Moedas foi vítima do facto de a candidata do PS à Câmara de Lisboa, Alexandra Leitão, e o secretário-geral do PS, José Luís Carneiro, serem uns perigosíssimos moderados. Não pediram a sua demissão. Essa foi talvez a maior perfídia sofrida por Carlos Moedas em todo este processo. Ele que se preparava para se vitimizar no momento em que a sua adversária lhe exigisse responsabilidades políticas, e demissão, nos mesmos termos em que Moedas exigiu em 2021 a Medina, deparou-se com uma Alexandra Leitão comedida, pesando cada palavra, e um José Luís Carneiro que dizia, preto no branco, “não ver neste momento” qualquer razão para exigir a demissão do autarca lisboeta.
- Desnorteado, sem poder martelar na tecla do “radicalismo”, Moedas disse-se vítima do “cinismo” de Alexandra Leitão, que quer a sua demissão apesar de dizer o contrário. A tese, algo lunática, é a seguinte, segundo o próprio Moedas: “O PS tem uma candidata que não vem pedir a minha demissão, mas encarrega todos os seus sicários e todos os seus apoiantes para virem por trás, como Pedro Nuno Santos, como Brilhante Dias.” Uns “dissimulados”, portanto.
- Moedas é, obviamente, vítima do facto de Pedro Nuno Santos já não representar ninguém a não ser ele próprio.
- Também é vítima do facto de José Luís Carneiro ser o líder do PS, e a voz que define as posições do partido. Não podendo acusar Carneiro de ser um radical (havia de ser bonito…), Moedas deu assim a volta ao texto: “Eu faço uma grande diferença entre o PS deste líder, que é um homem centrista, e o PS de Lisboa, que é um bloco da esquerda, aliado ao BE, que se radicalizou. Portanto, há dois PS diferentes. Foi muito cínico [Alexandra Leitão não ter exigido a sua demissão], foi dissimulado, e isso revolta-me.” Por muito que Leitão repita que não quer demissão nenhuma, Moedas não sai da sua.
- Mas por que razão alguém haveria de exigir a demissão de um presidente de câmara que não teve nada a ver com um eventual “erro técnico”? Porque foi isso que Moedas exigiu a Medina em 2021, no caso “Russiagate”. E até invocou o passado, “quando políticos, incluindo do PS, quando houve erros técnicos, erros graves, se demitiram. É bom que Fernando Medina se lembre desses políticos, que se demitiram e tomaram as suas responsabilidades políticas”. Este era o Moedas20.21, referindo o exemplo de Jorge Coelho no caso da ponte de Entre-os-Rios. A referência podia parecer genuína; era só demagógica. Moedas é vítima da sua demagogia.
Não deveria o Moedas20.25 seguir também o exemplo de Coelho? A pergunta, vamos a ver, não faz sentido.
- Primeiro, porque agora Moedas entende que demitir-se é “cobardia”. Moedas é, portanto, vítima da sua “coragem”.
- Mas também é vítima da sua mentira. Porque Moedas vem dizer, agora, que Jorge Coelho se demitiu porque estava a par do estado de degradação da ponte e sabia que ela estava em risco de cair. Conclusão: “Responsabilidade política é quando o político sabe e não atua.” Acontece que não é verdade o que diz Moedas. Eram conhecidos problemas no tabuleiro da ponte, mas esta ruiu porque a retirada de areia no leito do rio tirou sustentação aos pilares. Disto ninguém sabia. Aliás, um mês antes do desastre, um relatório da Junta Autónoma de Estradas dava luz verde à continuação da circulação na ponte. Apanhado na mentira, Moedas fez três piruetas. De certa forma, é vítima de a história não se deixar reescrever tão facilmente como ele gostaria.
- Moedas também é vítima do Presidente da República, que disse, preto no branco, que há responsabilidade política neste caso, e essa é do edil de Lisboa. Mas, enfim, quem nunca foi vítima de Marcelo?...
- Moedas é vítima de uma sensação de insegurança. Não aquela sensação gasosa e evanescente, fantasiosa, de que falava quando lhe convinha, para parecer (vá lá saber-se porquê…) que Lisboa é mais insegura do que dizem as estatísticas. Mas uma sensação de insegurança resultante de mortos reais e feridos verdadeiros. Gente autêntica, que morreu num transporte público de que a Câmara de Lisboa é o único acionista. Uma sensação de insegurança que vem do que vimos, do que sentimos, e de uma dúvida que envenena – se uma autarquia que dá tanta prioridade aos turistas, que autoriza mais e mais hotéis e alojamentos locais, que trata os bairros turísticos de uma forma tão diferente dos bairros dos moradores, não é capaz de garantir a segurança de uma das principais atrações turísticas da cidade, é capaz de assegurar a segurança de quê? Do 750? Do 783?
- Moedas é vítima da sua pressa e da sua insustentável leveza. Garantiu que não houve, neste caso, erro humano. Sem base para essa garantia a não ser uma leitura apressada. Pelo contrário. Uma inspeção apressada, uma manutenção insuficiente, uma peça mal calibrada, o que quer que tenha acontecido (sendo certo que não houve atentado, ao contrário do que sonharam comentadores que sonham com o Hamas), mesmo que tenha sido pura e simplesmente o facto de não existirem redundâncias de segurança que pudessem evitar esta tragédia – foi um erro e foi humano. Aquelas máquinas não se fizeram a si mesmas, não se moviam por vontade própria, não transportavam mais ou menos gente (e era sempre mais) por capricho de máquina. Houve erro. E foi humano. Resta saber de quem.
- Por fim, e porque este texto já vai longo, Moedas é vítima de um, e apenas um, extremo. Andou o homem durante estes anos a fazer equivalências entre extremos, garantindo que extrema-esquerda e extrema-direita são igualmente irresponsáveis, demagógicas e censuráveis, igualmente perigosas, igualmente ativas a minar a democracia. Vai-se a ver, e só um extremo – curiosamente, o único que tem relevância política real, mas também o único com que o PSD está disposto a namorar – se presta a apresentar uma moção de censura contra ele. O Chega apresentou e votou a favor de uma moção de censura a Moedas, que recebeu o desprezo da abstenção dos partidos da esquerda (e, naturalmente, o voto contra da coligação PSD-CDS).
Cito, uma vez sem exemplo, as sábias palavras de Manuela Ferreira Leite: Carlos Moedas parece o rapaz que mata o pai e a mãe e depois se queixa de ser órfão, coitadinho.