É com o Chega que Montenegro quer governar e é com o Chega que governa de facto. Com a vantagem de que entre o primeiro-ministro Montenegro e o vice-primeiro-ministro Ventura não há irrevogáveis. Até porque nada do que Ventura diga é irrevogável
O primeiro-ministro e o vice-primeiro-ministro estiveram ontem reunidos na Residência Oficial de São Bento para discutir o futuro da grande reforma estrutural do Governo: as alterações ao Código Laboral. A gravidade do momento, imposta pela relevância do assunto, permite ir mais longe sobre o que estava em causa na conversa de ontem: Luís Montenegro e André Ventura estiveram reunidos para discutir o futuro da união de facto em que vivem. Não é uma coligação, nem sequer um acordo de incidência parlamentar, mas é efetivamente um casamento por conveniência – e uma das conveniências deste casamento é não ter, como os casamentos, papel passado.
Todos nos lembramos de um tempo, não assim há tanto tempo, em que um entendimento entre estes dois homens parecia impossível. Era o tempo em que, questionado sobre a hipótese de governar de braço dado com o Chega, Montenegro respondia “Não é não!”. Para garantir que era mesmo a sério, e até veio a terreiro o homem que de facto manda no PSD, Hugo Soares de sua graça, acrescentando que “Não é não!”. Assim, à bruta, apesar de Ventura insistir em oferecer-se publicamente para esse enlace, fazendo figuras que noutros tempos o teriam levado a pedir o seu internamento compulsivo num manicómio, por indecente e má figura (foi ele quem o disse, limito-me a recordar o seu próprio pedido, que a internet não deixa desaparecer).
Sempre a marca do Chega
O que se constata, ao fim de mais de um ano deste Governo, é que tudo o que de marcante a AD tem para apresentar foi aprovado com o Chega, e em muitos casos seguindo ideias “originais” do Chega. Coloco a palavra originais entre aspas, porque sabemos que nunca André Ventura apresentou uma ideia original – limita-se a pôr no Google Translate, e depois nas suas redes e na comunicação social, qualquer atoarda lançada por Donald Trump e pelo seu exército MAGA, ou pelo Vox, ou pela Rassemblement National que era da Sra. Le Pen e agora é do Sr Bardella, ou pela Sra. Melloni nos dias em que ainda lhe foge o pé para o chinelo, ou pelo Reform UK, o antigo partido Brexit do inefável Mr. Farage, que só parará quando implodir com o Reino Unido de vez.
Foi desta “Internacional” populista e racista que saíram as magníficas teorias que estiveram na base das grandes reformas do atual Governo (e, na verdade, também das pequenas, pois não há muito mais a apresentar), como a Lei da Imigração, a Lei da Nacionalidade, a Lei do Repatriamento, e agora o Pacto para as Migrações. Tudo com a marca PSD & Chega. Da mesma forma que PSD & Chega já acertaram agulhas para que a Revisão Constitucional arranque no início de 2027. A Revisão Constitucional – coisa pouca.
Até a delirante “Lei das Bandeiras”, que não passa de uma tentativa de dar uma camada de verniz à discriminação homofóbica e transfóbica, se deve ao ascendente que o Chega tem sobre este Governo: em rigor, a iniciativa que o Presidente da República vetou, por razões de elementar humanismo e bom senso, não é do Chega, mas do CDS – mas só foi aprovada com os votos do Chega, e só existiu porque o CDS teve um acesso de ciúmes e quis demonstrar que já era Chega antes do Chega existir.
Enfim, oxalá estes pequenos prazeres consolem os Doutores Melo, Núncio e Almeida, e lhes dêem a doce ilusão de que riscam alguma coisa na política portuguesa. Porque na verdade não riscam coisa alguma. O CDS vive no bolso do casaco do primeiro-ministro como o recibo esquecido de um espiralizador de legumes: é verdade que o recibo serve de garantia, mas não só já ninguém se lembra dele, como um espiralizador de legumes não é assim tão importante.
Só nós dois é que sabemos
A melhor prova disso é que na hora de tomar as grandes decisões que marcarão esta governação, a conversa de Luís Montenegro é a dois, com o parceiro que realmente importa – André Ventura – sem lhe ocorrer, obviamente, convidar para a charla o líder do parceiro júnior da coligação.
Já tinha sido assim quando foi preciso andar com a ignóbil Prestação Social Única. Montenegro convidou Ventura para São Bento, permitiu-lhe ser fotografado a subir e a descer a meia dúzia de degraus que leva à entrada principal, ser filmado na sala onde há as conversas das pessoas importantes, com ar de estadista, e depois, já sem câmaras, combinaram os passos de dança para consumar a crueldade absoluta de pôr em trabalhos forçados doentes oncológicos, deficientes, viúvas e pré-reformados, em troca de uns miseráveis subsídios não-contributivos que significam, na prática, mão de obra bem abaixo do preço por hora que corresponderia ao salário mínimo nacional. Depois de marinar em comissão, para afinar os temperos, teremos PSU.
O PS não existe
Note-se que Montenegro não teve para com José Luís Carneiro nem o tempo nem a deferência que dedicou a André Ventura. Por ser impossível alcançar acordos com o PS? Nem por isso. Afinal, foi o PS que viabilizou o Orçamento do Estado de 2026, para assegurar a estabilidade política. Embora os socialistas estivessem encostados às cordas e vergados às circunstâncias, foi o seu voto, e não o voto contra do Chega, que garantiu o principal instrumento de trabalho de qualquer governo.
Poderia o PS viabilizar a Prestação Social Única? Obviamente que sim – aliás, a iniciativa original foi do último governo socialista, mas com contornos radicalmente diferentes daqueles que a ministra Palma Ramalho impôs (contrariando até as indicações da OCDE). Poderia José Luís Carneiro, o mais moderado dos moderados dentro do PS, negociar alterações às leis do trabalho que atualizassem a anterior reforma laboral, a Agenda do Trabalho Digno, de marca socialista? Sim – se não se tratasse de uma contra-reforma, podia haver base de diálogo com o PS, como poderia haver condições de aproximação à UGT.
A vantagem de ser sempre revogável
A questão é que Luís Montenegro sabe com quem pode contar a troco de muito pouco. O CDS não acrescenta nada. A Iniciativa Liberal não chega para coisa nenhuma. O PS daria muito trabalho. Ou seja, Passos Coelho escusa de fazer ataques semanais ao Governo por não existir a coligação PSD-Chega com que o ex-primeiro-ministro sonha. É com o Chega que Montenegro quer governar e é com o Chega que governa de facto. Com a vantagem de, não havendo papel passado, as brigas não terem o drama dos divórcios litigiosos. Entre o primeiro-ministro Montenegro e o vice-primeiro-ministro Ventura não há irrevogáveis. Até porque nada, absolutamente nada, do que Ventura diga é irrevogável.
Por isso, tudo é ameno nesta união de facto. Parece que ontem ainda não houve acordo sobre o Código Laboral. Ainda. Mas Montenegro promete que “tudo fará” para conseguir essa reforma solitária da sua governação. E Ventura garante que continuarão a garimpar cedências “nas próximas horas”. Enquanto há parceria há esperança. Onde não há princípios há revogáveis.
Para além da retórica inflamada, que tem o seu lugar na marcação da agenda; para além das propostas impensáveis, que têm a função de esticar os limites daquilo que é pensável ou não; para além das picardias parlamentares que não passam de fitness performativo, no fim do dia, o Chega é o rival do PSD que impõe o caminho e o parceiro da AD que viabiliza as “reformas”.
Se calhar não estávamos atentos. O “não é não” tinha uma vírgula e as vírgulas, no discurso oral, são por vezes apagadas por aquilo que os nossos ouvidos gostariam de ter ouvido. Vamos fazer como nos flashbacks dos filmes, quando o protagonista percebe finalmente aquilo que lhe tinha escapado da primeira vez.
Façamos o exercício de repetir mentalmente a pergunta: “Senhor primeiro-ministro, quando diz sobre o Chega que ‘não é não’, isso significa que é impossível governar com o apoio de André Ventura?”
“Não é, não.”
Percebemos todos mal. Ou isso, ou fomos mesmo enganados.
