Dependendo da pessoa, há quartos de hotéis que podem ser um sonho ou um pesadelo
Vamos imaginar o seguinte cenário. O leitor namora com alguém há alguns meses, as coisas estão a correr bem. Chegou a altura de dar o próximo passo: um fim de semana a dois.
Encontra um ótimo hotel que cumpre todos os requisitos: bairro agradável, opções tentadoras de comida e bebida e avaliações fenomenais pelos seus elementos de design "divertidos".
Assim, fazem o check-in. Ao entrarem juntos no quarto, percebem logo que as coisas vão ficar um pouco mais íntimas do que o planeado.
A sanita, numa pequena cabine, está protegida apenas por um fino painel de vidro com uma película fosca estrategicamente posicionada, a poucos passos da cama. A forma humana, embora desfocada, será certamente vista, independentemente do local onde se está no quarto, com os pés do utilizador totalmente visíveis porque, por algum motivo, o designer achou que a parte inferior da cabine não precisava daquela película fosca. Pense também nos possíveis problemas de áudio.
Primeiro, quero deixar claro: sem julgamentos, se isso for do seu agrado.
As minhas próprias expectativas de privacidade durante as viagens dissiparam-se há muito tempo. Sou casada há quase 20 anos e tenho dois adolescentes quase adultos. Ao longo dos anos, deparámo-nos com designs de casas de banho de hotéis incrivelmente bizarros, em todas as gamas de preços.
Salas de estar com banheiras à vista. Estores do lado de fora da janela que dá para a casa de banho. Portas de correr que deixam amplas fendas - um sonho para as crianças pequenas que não abdicam de nada ou para os curiosos que ainda não aprenderam sobre os limites pessoais. A lista continua.
Eu sempre aceitei tudo isto, ainda que a contragosto, como parte da experiência de viagem. Mas basta uma pesquisa rápida em sites de avaliações como o TripAdvisor ou em fóruns de viagens no Reddit para perceber que existem muitos outros turistas frustrados por aí.
Bem, tenho boas notícias para todos vós, cansados da falta de privacidade. Está a formar-se um movimento e a ajuda chegou sob a forma do Bringbackdoors.com, que tem uma base de dados de hotéis que garantem ter portas nas casas de banho dos quartos, bem como aqueles que não têm.
Sadie Lowell, uma profissional de marketing norte-americana que vive na Europa, lançou o site no final do ano passado. Tendo viajado a maior parte da sua vida, Sadie diz que se habituou a ver cenários estranhos nas casas de banho dos hotéis. No entanto, em 2024, enquanto visitava Londres com o pai para um evento, deparou-se com o absurdo da situação.
“Reservamos um quarto com duas camas de solteiro e, quando entrámos, não havia porta na casa de banho, nem sequer algo parecido com uma porta”, conta à CNN.
Sadie não conseguia parar de pensar no quão estranho tudo aquilo era: ela tinha reservado duas camas de solteiro, então porque é que não havia porta?
“Não sei se foram os construtores, os designers ou os arquitetos que fizeram esta escolha, mas afastaram-se muito daquilo que as pessoas realmente querem e procuram – não compreendem”, diz. “Ter duas camas de solteiro no quarto significa que precisa, com certeza, de privacidade na casa de banho.”
Meses depois, enquanto planeava outra viagem, a experiência com o pai ainda estava fresca na sua memória e pensou: “Quem me dera que houvesse uma forma de verificar isso”.
Em meados de outubro de 2025, o site Bringbackdoors.com já estava no ar. Sadie conta que começou a publicar vídeos no TikTok para chamar a atenção para o problema e, em pouco tempo, as reações e os envios começaram a chegar em grande número.
“Tem sido uma verdadeira montanha-russa desde então, ganhando cada vez mais impulso”, reflete.
Até à data, Sadie diz ter recebido cerca de 800 subscritores de todo o mundo, e o Bringbackdoors.com foi divulgado em vários meios de comunicação internacionais.
“Isto supera em muito a minha imaginação do que este site poderia vir a ser”, confessa. “É uma sensação muito boa porque escolhi um tema tão invulgar. Uma parte de mim pensava: ‘Será que as pessoas se vão importar com isto? Talvez sim, talvez não.’ E a repercussão que está a ter diz-me que sim, muita gente se importa com isso.”
De quanta privacidade precisamos?
Como existem diferentes níveis de privacidade com os quais as pessoas se sentem confortáveis, o Bringbackdoors.com separa as divisões em categorias.
Em primeiro lugar, há aqueles a quem Sadie chama “os piores infratores”.
“Se quiser ficar aqui com pessoas com quem não se sente confortável a usar a casa de banho, terão de se revezar para ir ao lobby”, lê-se na descrição.
E depois há aqueles que oferecem “50% de privacidade: portas de vidro com paredes”.
“As portas em si não oferecem muita privacidade. No entanto, com um pouco de jeito, pode criar privacidade nestes quartos pendurando toalhas ou sentando-se num canto específico do quarto.”
E, por fim, a última categoria na secção ‘sem portas’ aborda preocupações sensoriais adicionais: “Estes hotéis tendem a oferecer privacidade visual, mas todos os outros tipos de privacidade estão fora de questão. Poderá ouvir e cheirar tudo o que está a acontecer na casa de banho”.
Eis uma comodidade divertida e inesperada.
Sadie utiliza vários métodos para verificar as inscrições, dependendo da categoria, incluindo a pesquisa de fotografias ou a confirmação direta com o hotel de que todas as casas de banho são totalmente privadas.
Certamente há momentos em que pode querer uma casa de banho integrada. Por exemplo, se estiver numa suite grande num resort tropical, com muito espaço, ter uma banheira ou um chuveiro exterior num canto do quarto pode ser muito agradável.
Quando se trata de um quarto individual com duas camas de solteiro que está a partilhar com um colega numa viagem de negócios, e não há nenhum lugar para se esconder enquanto resolve assuntos pessoais, pergunta-se realmente o que está a acontecer.
Para obter informações sobre o mundo do design de casas de banho de hotéis, contactei a premiada designer Paula O’Callaghan, sócia da HBA, uma empresa global responsável por alguns dos hotéis e resorts de luxo mais famosos do planeta.
Paula lembra-se de ter visto vidro fosco numa casa de banho de um hotel pela primeira vez há quase 30 anos, no Park Hyatt original, em Tóquio.
“Quando surgiu esta tendência, todos comentavam como a casa de banho era vanguardista, com aqueles boxes de vidro fosco”, conta.
“E lembro-me claramente do painel de vidro fosco que dividia a área do duche da cabine da sanita, e tanto a porta do chuveiro como a da cabine da sanita tinham painéis foscos. E toda a gente dizia: ‘Uau, isto é tão inovador e diferente’ – pelo menos toda a gente no mundo do design. Acho que foi a primeira vez que me lembro disto, porque era algo realmente diferente e original.”
Paula acrescenta ainda que nem todo o vidro fosco é criado da mesma forma, apresentando diferentes graus de opacidade e espessura, e que existem várias formas de lidar com as questões acústicas e de ventilação.
“Acho que talvez o problema esteja nas interpretações e nas variações”, responde a designer, quando questionada sobre algumas das invulgares casas de banho de hotel que estão a ser criticadas online.
“Se tiver uma casa de banho pequena, talvez não seja apropriado fazer este tipo de aplicação. Imagino que as pessoas se sintam obrigadas a fazê-lo também, porque não querem que a casa de banho pareça demasiado pequena.”
Algumas regras para as casas de banho simplesmente não devem ser quebradas, defende Paula O’Callaghan. Por exemplo, a sanita não pode estar exposta como nalguns dos casos relatados no Bringbackdoors.com.
“Mesmo que seja uma marca orientada para um estilo de vida mais sofisticado, e talvez não tão luxuosa, ainda assim insistimos num resguardo de duche fechado”, afirma.
“Nunca utilize vidro transparente e nunca permita que alguém veja diretamente do quarto. Mesmo que a casa de banho esteja completamente fechada, como uma casa de banho tradicional, ainda preferimos que a área da sanita seja delimitada”.
Nos últimos anos, a maioria das cadeias hoteleiras em muitos dos principais destinos globais têm-se mostrado favoráveis às casas de banho abertas, observa a designer. E algumas – particularmente as marcas orientadas para o estilo de vida – estão interessadas em ter a banheira separada do chuveiro/sanita e integrada no quarto.
“É uma tendência que se tem vindo a tornar cada vez mais ousada, pelo menos nas últimas três décadas”, indica Paula O’Callaghan, referindo que muitos designers provavelmente ficarão surpreendidos com a reação contrária.
Uma coisa que notei pessoalmente ao longo dos anos é que é menos provável encontrar um design de casa de banho extravagante num hotel histórico – mesmo naqueles que passaram por grandes renovações.
Paula O'Callaghan, que inclui no seu currículo projetos como o histórico Waldorf Astoria, em Xangai, afirma que, enquanto designer, as suas prioridades “mudam completamente" quando trabalha num hotel situado dentro de um edifício histórico.
“Há mais partes a considerar; além do operador e do proprietário, pode haver o conselho de preservação histórica, que também terá as suas opiniões sobre como um interior deve ser restaurado, preservado ou renovado”, explica a designer.
E antigamente, talvez não houvesse ar condicionado, mas as casas de banho tinham portas. Por isso, para os designers que procuram recriar a história da era dourada das viagens que atrai os turistas a estes hotéis, é pouco provável que façam alterações drásticas ao projeto – aliás, nalgumas cidades, certos edifícios históricos estão protegidos por lei.
Mas, como nem sempre temos a oportunidade – ou o orçamento – para nos hospedarmos em propriedades históricas ou em hotéis de luxo espaçosos e sofisticados com design cuidadosamente elaborado, quem procura privacidade garantida pode agora encontrar alívio no Bringbackdoors.com.
Viva a Revolução!