ANÁLISE || Recuo nas tarifas aplicadas à China evita escalada de preços
Já vamos olhar melhor para esta fotografia estilo macho men. Para já, responda por favor ao seguinte questionário:
Pois. A resposta certa na sexta era de que os preços iam subir, no sábado era de que iam ficar na mesma, no domingo não sabíamos e esta segunda é de que estamos à espera de confirmação oficial de novas tarifas daqui a um mês ou dois. Ou seja, a resposta depende dos dias.
Não é só o mercado de capitais que é volátil, é-o também Donald Trump. E quando o Presidente dos Estados Unidos e Wall Street se juntam na mesma frase, as Bolsas saltam de um dia para outro entre as costas do urso e o dorso do touro: o gráfico das bolsas desenha uma montanha russa própria para amantes do risco.
Mas estas decisões não são só para investidores. No lugar-comum norte-americano que compara “Main Street vs. Wall Street” - e que pode ser traduzido "os bolsos vs. as bolsas" ou "o mercado da fruta vs. o mercado de ações" -, os barcos são diferentes mas o mar de incerteza é o mesmo.
Na sexta-feira, um iPhone ia aumentar para 1.760€
Pegando nesse símbolo da tecnologia norte-americana que é o iPhone, quanto é que ele vai custar depois das tarifas?
Explicámo-lo aqui no sábado às 8 da manhã:
Cerca de 90% da produção e montagem dos iPhones é feita na China, estima a Wedbush Securities, citada pela CNN. A aplicação de tarifas de 145% nas importações americanas da China, que foi anunciada na semana passada, faria um iPhone 16 Pro Max passar do preço de venda ao público atual nos EUA de cerca de 1.199 dólares (1.055 euros) para 1.999 dólares (1.760 euros), ou seja, mais 67% (ou seja, mais cerca de 700 euros). A estimativa foi feita na semana passada pelo departamento de análise do banco UBS.
Note-se que, na Europa, não haveria aumentos do preço, pelo que o mesmo modelo de iPhone continuaria a custar 1.055 euros (numa conversão direta do preço nos EUA, sendo que um iPhone 16 Pro Max é comercializado em Portugal, depois de impostos, a partir de 1.499 euros - e assim se manteria). Deste lado do Atlântico não haveria aumentos porque, mesmo sendo de uma marca americana, o produto viajaria da China para a Europa e não houve neste espaço alteração da pauta aduaneira, ao contrário do que aconteceu nos EUA. Se é que aconteceu.
No sábado à tarde, o iPhone afinal ia continuar a custar 1.055€
A meio da tarde de sábado, o nosso texto matinal ficou desatualizado: uma nota do serviço das Alfândegas e Proteção de Fronteiras dos EUA dava conta que, afinal, os produtos eletrónicos importados para os Estados Unidos estariam isentos das tarifas recíprocas.
Nesse caso, o iPhone não sofreria aumentos de preço final: o 16 Pro Max continuaria a custar os atuais 1.199 dólares (1.055 euros) nos EUA. OS investidores aliviaram. A Apple - que tinha açambarcado o seu próprio produto em stock para ganhar tempo face ao aumento de tarifas - deve ter ficado feliz. Mas Trump foi amplamente criticado pelo que a todos pareceu um claro recuo. A todos menos um: ele próprio.
No domingo, o iPhone ia custar talvez 1.055€, talvez 1.760€
Até que, no domingo, Donald Trump fez o que faz muitas vezes: disparou uma publicação na sua rede social para fazer desmentidos:
Traduzindo a publicação de Donald Trump na rede Truth Social, que controla:
"NINGUÉM se vai “safar” das balanças comerciais injustas e das barreiras tarifárias não monetárias que outros países usaram contra nós, especialmente a China que, de longe, nos trata pior! Não foi anunciada nenhuma “exceção” tarifária na sexta-feira. Estes produtos estão sujeitos às Tarifas de Fentanil de 20% existentes, e estão apenas a passar para um “ cesto ” tarifário diferente. As notícias falsas sabem disso, mas recusam-se a noticiá-lo. Vamos olhar para os semicondutores e para toda a cadeia de abastecimento da eletrónica nas próximas investigações sobre as tarifas de segurança nacional. O que foi denunciado é que precisamos de fabricar produtos nos Estados Unidos e que não vamos ficar reféns de outros países, especialmente de nações comerciais hostis como a China, que fará tudo o que estiver ao seu alcance para desrespeitar o povo americano. Também não podemos deixar que continuem a abusar de nós no comércio, como têm feito durante décadas, ESSES DIAS ACABARAM! A Idade de Ouro da América, que inclui os próximos cortes nos impostos e na regulamentação, uma parte substancial dos quais acabou de ser aprovada pela Câmara e pelo Senado, significará mais e melhores empregos remunerados, fabricando produtos na nossa Nação, e tratando outros países, em particular a China, da mesma forma que nos têm tratado. O resultado final é que o nosso país será maior, melhor e mais forte do que nunca. Vamos FAZER A AMÉRICA GRANDE OUTRA VEZ!"
E foi assim que os mercados financeiros acordaram esta segunda-feira. A subir, sobretudo as empresas tecnológicas, mas não muito. Porque as coisas ainda não são claras.
"Ninguém sabe quais são as regras daqui a cinco dias"
Howard Lutnick, secretário do Comércio, tentou clarificar: “Os produtos electrónicos estão isentos das tarifas recíprocas, mas estão incluídos nas tarifas sobre os semicondutores, que devem ser aplicadas dentro de um ou dois meses”, disse Lutnick à ABC News no domingo. Um alívio temporário, portanto.
Citada pela CNN, a senadora democrata Elizabeth Warren afirmou no domingo: “Ninguém consegue perceber quais serão as regras daqui a cinco dias, muito menos daqui a cinco anos”.
Larry Summers, ex-secretário do Tesouro,a afirmara no programa “Fareed Zakaria GPS” que a política tarifária é “a pior ferida autoinfligida pela política económica” desde a Segunda Guerra Mundial: “Está errada em termos de competitividade, de desemprego, de inflação... O melhor que podemos esperar é que as pessoas comecem a ter juízo e a inverter estes erros”, afirmou Summers.
Já o investidor bilionário Ray Dalio, no programa “Meet the Press”, considerou as políticas comerciais de Trump “muito perturbadoras” até agora. Mas “pode ser parte de um processo”, acrescentou. “Depende de onde estivermos no final dos 90 dias.” O empresário afirmou que a América está “muito perto de uma recessão”. “Se considerares as tarifas, se considerares a dívida, se considerares o poder crescente que desafia o poder existente - se considerares esses fatores, essas mudanças nos sistemas são muito, muito perturbadoras”, disse Dalio. “A forma como lidares com isso pode produzir algo muito pior do que uma recessão ou pode ser bem gerida.”
Na CNN, Stephen Collinson escreve esta segunda-feira em análise que Trump "está a entrar em mais uma semana volátil nas suas guerras comerciais, enfrentando a necessidade urgente de desanuviar o confronto que desencadeou com a China, antes que este cause danos profundos à economia dos EUA."
"O impasse é tão grave porque as economias dos EUA e da China estão intrinsecamente ligadas. Os EUA dependem da China para a eletrónica de consumo; minerais de terras raras utilizados no fabrico de veículos eléctricos e para aplicações militares e robótica; produtos farmacêuticos utilizados em medicamentos que salvam vidas; e produtos mais básicos da vida quotidiana, incluindo vestuário e calçado. As exportações americanas de produtos como a soja e o sorgo para a China são vitais para a subsistência dos agricultores americanos, mas os direitos aduaneiros impostos por ambas as partes são tão proibitivos que o comércio pode efetivamente parar", escreve Collinson. Que remata:
"Apesar da incerteza, Trump está a dar mostras de gostar dos múltiplos combates que desencadeou e foi aplaudido de pé quando se sentou ao lado da jaula num evento de artes marciais mistas da UFC na Florida, no sábado à noite. O Presidente, que se considera um lutador político por excelência, disse aos jornalistas que a sua receção foi “algo lendária” e mostrou que “estamos a fazer um bom trabalho”."
A foto dos macho men
Finalmente, a fotografia do topo, tirada por Mandel NGAN para a AFP. É deste sábado e nela vê-se Donald Trump, Elon Musk e o seu filho X Æ A-12 na primeira fila, frente à jaula onde decorre um combate de artes marciais.
"Trump trocou a Sala Oval pelo Octógono", escreveu a CNN, referindo-se ao recinto desportivo do Kaseya Center, em Miami, onde Trump chegou "sob aplausos estrondosos", tornando-se o primeiro presidente dos EUA em exercício a assistir a um evento da UFC.
O Presidente não foi acompanhado apenas de Elon Musk, mas também de de altos funcionários da administração, incluindo o secretário de Estado Marco Rubio, o secretário de Saúde e Serviços Humanos Robert F. Kennedy Jr., o diretor da Inteligência Nacional Tulsi Gabbard e o diretor do FBI Kash Patel. Trump foi visto a abraçar o CEO da UFC, Dana White, bem como o apresentador de podcast Joe Rogan e a lenda do basquetebol Shaquille O'Neal.
Fundado em 1993, a UFC emergiu como organização desportiva mainstream e importante nos últimos anos - em paralelo, de certa forma, com a ascensão política de Trump. Em 2019, o desporto anunciou um acordo com a Walt Disney Company para transmitir os seus eventos “Fight Night” na ESPN+, e as transmissões da UFC chegam agora a um número estimado de 975 milhões de lares em 170 países, de acordo com um comunicado de imprensa recente ..
Nota final: o iPhone custa menos 108 euros a um turista europeu
Os preços acima em dólares foram convertidos para euros ao câmbio atual de 1 dólar igual a 0,88 euros. Mas as decisões de Trump também têm desvalorizado a moeda norte-americana, que há cerca de dois meses (a 8 de fevereiro) valia 0,93 euros. A desvalorização de 9,3% em dois meses embaratece os produtos em dólares comprados por europeus.
Assim, se o iPhone 16 Max Pro do exemplo acima custava em fevereiro o mesmo que custa hoje nos Estado Unidos, 1.199 dólares, ele tornou-se mais barato para um europeu que compre nos Estados Unidos: em vez de 1.163 euros há dois meses, o modelo custa agora 1.056 euros.
Agora aplique isto ao comércio internacional: com a desvalorização da moeda, os produtos americanos tornam-se mais competitivos para exportações, mas importá-los torna-se mais caro. São vários os lados desta "jaula" em que decore a guerra comercial.
Nota: a imagem no questionário é uma montagem feita com recurso a ferramentas de inteligência artificial.