Resposta do Irão aos EUA está no estreito de Ormuz. Rússia seria quem mais ganhava, mas China pode ser o improvável aliado do Ocidente

23 jun 2025, 07:00
Estreito de Ormuz (Getty)

Num momento em que o Kremlin se depara com a possibilidade de sanções de 500% a todos os seus parceiros comerciais, a hipótese de uma escalada no preço dos combustíveis não podia vir numa melhor altura, apontam os especialistas. No entanto, a China pode aparecer como um aliado improvável do Ocidente: “Pequim poderá ter mais influência sobre Teerão do que aparenta”

O regime iraniano aparenta estar a preparar-se para um contra-ataque aos bombardeamentos norte-americanos que pode colocar toda a indústria do petróleo num impasse e levar os preços dos combustíveis a disparar. Este domingo o parlamento do Irão aprovou o encerramento do Estreito de Ormuz, a via marítima vital por onde passa cerca de 20% do petróleo comercializado diariamente no mundo - uma medida que pode colocar o preço do barril de petróleo nos 120 dólares, segundo uma avaliação do banco norte-americano JP Morgan anterior aos ataques comandados por Donald Trump a três instalações nucleares do Irão. 

Mas, no meio de todo o perigo inflacionista que surge de uma decisão que ainda é incerta, há uma potência que pode acabar por vir a ser beneficiada: a Rússia. Putin, que lida com uma economia fragilizada por causa do esforço de guerra, pode vir a ser favorecido com um aumento significativo das receitas com exportações de petróleo, num momento em que o crude da região dos Urais, uma das principais referências russas, já subiu 26% no último mês

Para José Filipe Pinto, professor catedrático e especialista em Relações Internacionais, Putin só tem a ganhar com uma possível inoperabilização do estreito de Ormuz, ainda que temporária. “À primeira vista, a Rússia está interessada nessa decisão porque terá a hipótese de exportar muito mais petróleo, a um preço muito mais elevado”. “E Putin necessita disso, especialmente agora, porque está em estudo no Congresso norte-americano a proposta de sanções de 500% sob os países que façam comércio com a Rússia”. 

Este pacote de sanções, que foi apresentado em maio no Senado pelo republicano Lindsey Graham, serviu como a resposta norte-americana à recusa de Moscovo de colocar um ponto final nos ataques à Ucrânia e avançar para negociações de paz. Adicionalmente, a União Europeia prepara-se para aplicar o 18.º pacote de sanções ao regime de Putin, definindo como alvos o setor bancário, mas também os gasodutos Nord Stream

Assim, como aponta José Tomaz Castello Branco, especialista em assuntos do Médio Oriente e investigador no Centro de Investigação do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica, a Rússia pode revelar-se como um verdadeiro “amigo da onça” do Irão. “Não sendo um interveniente direto, tem um interesse direto neste conflito, porque pode vir a conseguir, através dele, um impacto importante no orçamento para o esforço de guerra”. “No fundo, pode acabar na mó de cima”. 

A Rússia é, de resto, um importante aliado do Irão. Teerão tem sido um dos fornecedores estratégicos de Moscovo no decorrer da invasão à Ucrânia, nomeadamente abastecendo as tropas russas com drones Shahed, de longo alcance. E, em troca, o regime de Ali Khamenei tem recebido apoio do Kremlin no seu programa nuclear. 

Poucas horas após o ataque norte-americano às instalações nucleares iranianas, o Ministério dos Negócios Estrangeiros anunciou que iria reunir-se esta segunda-feira com Vladimir Putin, em Moscovo. “Consultamos sempre um com o outro para coordenar posições”, justificou o ministro Abbas Araghchi aos jornalistas em Budapeste.

No polo oposto, a esperança dos Estados Unidos para que se evite um encerramento unilateral do estreito de Ormuz - algo que seria visto pelas autoridades norte-americanas como “suicida” - reside num dos atores que mais pode vir a ser prejudicado por essa decisão: a China. Este domingo, Marco Rubio, Secretário de Estado, apelou a Xi Jinping a abrir uma nova via de diálogo com o Irão. “Incentivo o governo chinês em Pequim a contatá-los sobre isso, porque eles dependem fortemente do Estreito de Ormuz para seu petróleo”.

A China é, hoje, de longe o maior comprador de crude ao Irão, perfazendo mais de 90% do mercado, segundo a Kpler, empresa de analistas de matérias primas. “Ao contrário da Rússia, a China não está minimamente interessada em que se feche o estreito, porque recebe muito petróleo do Irão”. “Portanto, vamos ter de perceber claramente qual é que é a influência que tanto a China como a Rússia exercem sobre Teerão”, sublinha José Filipe Pinto.  

Um confronto de influências entre aliados próximos

Vladimir Putin e Xi Jinping (EPA)

À primeira vista, a Rússia terá mais influência, ao posicionar-se como protetora do Irão no dossiê nuclear e ao receber armamento iraniano durante a guerra na Ucrânia. No entanto, o mesmo especialista recorda que foi a China quem conseguiu sentar à mesa o Irão e a Arábia Saudita, num encontro histórico no ano passado que retomou as ligações diplomáticas cortadas há sete anos. “Pequim poderá ter mais influência sobre Teerão do que aparenta”.

Também nesta questão a Arábia Saudita pode vir a ter um impacto importante. Mas, como aponta José Tomaz Castello Branco, é expectável que a influência de Mohammad bin Salman seja exercida na mesma linha de Moscovo. “Por causa de toda a despesa que a Arábia Saudita tem de enfrentar graças às obras faraónicas a que se comprometeram, nomeadamente o The Line”, uma cidade linear futurista projetada para ter 170 km de comprimento

Certo é que a decisão tomada no domingo pelo parlamento iraniano, que ainda terá de passar pelo Conselho Supremo de Segurança, terá um impacto devastador na economia já isolacionista do Irão. “A economia iraniana, por força das sanções e deste bloqueio e isolamento a que está submetida, está muito fraca”. “Encerrar o estreito, significa estrangular ainda mais a capacidade económica do Irão e isso não vai ser nada favorável”.  

Fica neste momento a incógnita sobre como o Irão poderá, efetivamente, assumir o encerramento do estreito de Ormuz, já que o divide com os Emirados Árabes e com o Omã. “Podem minar o estreito, colocando-lhes grandes entraves, mas isso colocaria o Irão numa posição de isolamento quase completo”. 

Para já, a única garantia que existe é que, se este bloqueio for concretizado, a vida ficará muito mais cara. Como salientou o antigo ministro da Economia, António Costa e Silva, à CNN Portugal, o Estreito de Ormuz “representa mais de 80% das importações do Japão e da Coreia do Sul, 42% da China e 25% da Europa”. “Um bloqueio seria extremamente danoso para a economia mundial”.

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