Como o bloqueio ocidental à Rússia está a prejudicar a ciência

CNN , Katie Hunt
3 abr, 13:00
Uma visão geral da caverna e detetor ALICE - Uma experiência em larga escala de colisão de iões - (A Large Ion Collider Experiment) no CERN, o maior laboratório de física de partículas do mundo em Meyrin, Suíça. O trabalho dos cientistas russos foi suspenso no CERN. Dean Mouhtaropoulos/Getty Images

Os cientistas russos estão a ficar isolados à medida que invasão à Ucrânia está no seu segundo mês.

O projeto Mars rover da Rússia com a Agência Espacial Europeia está interrompido. As instituições russas foram suspensas do CERN, o maior laboratório de física de partículas do mundo, na Suíça. Uma prestigiada conferência de matemática foi transferida de São Petersburgo para uma reunião virtual, e as revistas científicas russas estão suspensas nas principais bases de dados internacionais.

Revistas científicas de alto nível, tais como Science and Nature, não rejeitam a investigação apresentada por cientistas russos, mas as sanções financeiras impostas à Rússia podem tornar complicado o pagamento de taxas de publicação nas revistas. Os investigadores ucranianos apelam a um boicote completo das instituições e dos investigadores russos.

No entanto, enquanto se saúda a eficácia do apoio aos cientistas ucranianos por todo o ocidente, alguns investigadores acham que cortar com todos os cientistas russos pode ser contraprodutivo.

"Cessar toda a interação com os cientistas russos seria um sério retrocesso numa grande variedade de interesses e valores ocidentais e globais, que incluem desenvolver rápidos progressos nos desafios globais relacionados com a ciência e a tecnologia, manter linhas de comunicação não ideológicas que atravessem fronteiras nacionais, e opor-se aos estereótipos ideológicos e à perseguição indiscriminada", lia-se numa carta publicada recentemente na revista Science, da autoria de cinco cientistas proeminentes dos Estados Unidos, Canadá e Reino Unido.

John Holdren, professor de investigação em ciência e política ambiental na Harvard Kennedy School e conselheiro científico do antigo Presidente dos EUA Barack Obama, é um dos autores. Afirmou que queria garantir o equilíbrio nas medidas tomadas para punir o Presidente russo Vladimir Putin e o seu regime.

"Valorizo muito a cooperação em ciência e tecnologia", disse Holdren. "Os meus colegas e eu escrevemos essa carta conjuntamente porque ficámos alarmados com relatos de que o que estava em curso era uma total demonização e isolamento dos cientistas russos".

"Profundo pesar"

A Alemanha assumiu uma das posições mais rápidas e duras. A 25 de Fevereiro, a Aliança das Organizações Científicas na Alemanha recomendou que toda a cooperação académica com instituições estatais e negócios empresariais na Rússia fossem interrompidos com efeito imediato e que os fundos alemães de investigação deixassem de beneficiar a Rússia.

Um telescópio espacial construído na Alemanha, que faz o maior mapa de buracos negros do universo, foi desativado. O telescópio de deteção de buracos negros, conhecido como eROSITA, abreviatura da designação, por extenso, de ROentgen Survey, um Telescópio Imagiológico Array de longo alcance, foi lançado em 2019 a partir do Cosmódromo de Baikonur no Cazaquistão a bordo do satélite Spectrum-Roentgen-Gamma, numa missão científica conjunta russo-alemã apoiada pela Roscosmos, a agência espacial russa.

A DFG, ou Fundação Alemã de Investigação, que tinha financiado mais de 300 projetos de investigação germano-russos com um volume total de mais de 110 milhões de euros nos últimos três anos, suspendeu todos os seus projetos de investigação com a Rússia.

A editora científica Clarivate anunciou no início de Março que tinha cessado toda a atividade comercial na Rússia, tendo encerrado a sua agência no país. A sua influente base de dados de publicações da Web of Science não incluirá novas publicações sedeadas na Rússia ou Bielorrússia, que tem apoiado a invasão russa. A base de dados identifica citações - um parâmetro-chave de sucesso científico - que ajuda os cientistas a serem reconhecidos.

Nos Estados Unidos, o MIT terminou a relação que tinha com Instituto Skolkovo de Ciência e Tecnologia (Skoltech) em Moscovo, embora tenha salientado que estava orgulhoso da investigação que esta colaboração produziu durante a última década.

"Este passo é uma rejeição das ações do governo russo na Ucrânia. Encaramo-lo com profundo pesar devido ao grande respeito que temos pelo povo russo e à nossa profunda gratidão pelas contribuições de muitos colegas russos extraordinários com quem temos trabalhado".

A Nature, uma importante editora britânica de revistas científicas, afirmou que o apelo a um boicote abrangente e mundial a toda a investigação russa, bem como a recusa das revistas científicas em analisar artigos de investigadores russos é “compreensível”. No entanto, disse que vai continuar a analisar manuscritos de todo o mundo.

"Isto porque acreditamos que neste momento um boicote seria mais nocivo do que benéfico. Dividiria a comunidade global de investigação e restringiria o intercâmbio de conhecimentos académicos – ambos fatores que poderiam prejudicar a saúde e o bem-estar da humanidade e do planeta".

A NASA afirmou que ainda está a trabalhar em estreita colaboração com a agência espacial russa na Estação Espacial Internacional, apesar das crescentes tensões políticas. Na quarta-feira, o astronauta da NASA Mark Vande Hei vai regressar à Terra ao lado dos cosmonautas russos Anton Shkaplerov e Pyotr Dubrov.

Possíveis repercussões a longo-prazo

A ciência é, desde há muito, um compromisso que ultrapassa fronteiras, e muitos cientistas russos têm laços estreitos com os seus congéneres nos Estados Unidos e na Europa.

Mikhail Gelfand, um professor russo que estuda genómica comparativa e evolução molecular, é um deles. Gelfand disse que até agora o seu trabalho quotidiano não foi afetado, mas que esperava que algumas das suas experiências ficassem suspensas porque as sanções internacionais dificultariam a aquisição de alguns materiais de laboratório.

Acrescentou, ainda, que tem passado muito mais tempo a escrever cartas de recomendação para colegas e estudantes que estão a tentar sair da Rússia.

Um boicote completo aos cientistas e instituições russas seria injusto, afirmou.

"Ao contrário de outras ações, isto não vai influenciar a guerra; isto vai ajudar o regime opressivo a ter um controlo ainda mais firme sobre o que ainda se mantém vivo na Rússia; e prejudicará principalmente as pessoas que se opõem à guerra", disse Gelfand.

Gelfand ajudou a organizar a redação de uma carta contra a guerra que, segundo o mesmo, foi assinada por mais de 8.000 cientistas russos. Desde então, tem sido bloqueada online pelas autoridades russas, afirmou.

Na carta à Science, Holdren e os seus colegas consideraram que, embora a colaboração entre governos estivesse "compreensivelmente suspensa", "nem todo o trabalho desenvolvido com cientistas russos deveria estar", sublinharam. As alterações climáticas e o Ártico são duas áreas em que os esforços científicos russos são particularmente importantes, disse Holdren.

Constataram também que muitos milhares de académicos e estudantes russos "vivem e trabalham no Ocidente", de acordo com a carta, e muitos têm sido críticos em relação ao governo russo.

"Seguramente que estes cidadãos russos não devem ser confundidos com os líderes do estado russo. Pelo contrário, deveriam ser tomadas medidas humanitárias para assegurar que, à medida que os seus vistos e passaportes expiram, eles não sejam repatriados à força para enfrentar não só o isolamento dos seus colegas ocidentais, mas também, muito possivelmente, a sua perseguição", consideraram ainda.

"As decisões tomadas hoje nos países ocidentais sobre como lidar com a Rússia e os russos podem vir a estar em vigor durante muito tempo e, em última análise, ser difíceis de reverter. Esperamos sinceramente que todas as futuras decisões sobre cientistas russos e instituições académicas russas sejam fruto de uma avaliação ponderada".

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