Guerra de Trump no Irão é uma oportunidade para Putin

CNN , Análise de Nathan Hodge
11 mar, 12:12
O presidente russo, Vladimir Putin, durante uma reunião sobre a situação do mercado global de petróleo e gás em Moscovo, em 9 de março. Gavriil Grigorov/AFP/Getty Images

Com o mundo focado no Irão, a Rússia consegue uma nova vantagem para atacar e pressionar a Ucrânia

O presidente russo, Vladimir Putin, sabe encontrar oportunidades em tempos de crise — e a guerra em expansão no Irão é o mais recente exemplo.

Putin começou o ano a projetar confiança na sua campanha para subjugar a Ucrânia, apesar dos progressos apenas incrementais no campo de batalha. Mas no início de janeiro, a administração Trump desferiu um golpe no prestígio da Rússia com a queda do presidente venezuelano Nicolás Maduro, um parceiro estratégico de Moscovo, derrubado numa ousada operação.

Quando a nova guerra eclodiu na região do Golfo, Putin parecia inicialmente sair a perder: ataques cirúrgicos dos Estados Unidos e de Israel mataram o líder supremo do Irão, o aiatola Ali Khamenei — outro aliado de longa data da Rússia — e devastaram alvos militares iranianos. A parceria estratégica que Moscovo assinou com Teerão no ano passado parecia reduzir-se a um simples pedaço de papel.

Convém lembrar que Khamenei foi apenas o mais recente aliado do Kremlin a cair. No início de dezembro de 2024, pouco mais de um ano antes da queda de Maduro, o regime do ditador sírio Bashar al-Assad, outro aliado histórico de Moscovo, desmoronou.

Apesar da perceção geopolítica negativa, Putin parece manter o foco no seu principal objetivo: desmantelar uma Ucrânia independente.

Na segunda-feira, o líder do Kremlin falou ao telefone com Donald Trump, naquela que foi a primeira conversa entre ambos desde dezembro. Segundo o relato do assessor presidencial russo Yury Ushakov, a chamada de cerca de uma hora abordou o principal tema do momento — a guerra entre os Estados Unidos e Israel contra o Irão — numa discussão que Ushakov descreveu como “muito substancial”.

Crucialmente, a conversa também tocou no alvo estratégico de Putin. Ushakov disse que o presidente norte-americano “reiterou o seu interesse em ver o conflito na Ucrânia terminar o mais rapidamente possível com um cessar-fogo que permita alcançar um acordo duradouro”.

Trump apresentou uma versão ligeiramente diferente desse momento da conversa. Questionado sobre o telefonema, disse que o líder do Kremlin “quer ser útil” no Médio Oriente, mas acrescentou: “Eu disse-lhe: ‘Podia ser mais útil se acabasse com a guerra entre a Ucrânia e a Rússia.’ Isso seria mais útil.”

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante a conferência Republican Members Issues Conference, no Trump National Doral Miami, na Florida, na segunda-feira. (Mark Schiefelbein/AP)

Oficialmente, a Rússia condenou a campanha militar dos Estados Unidos e de Israel. Putin expressou condolências pelo que descreveu numa mensagem oficial como o “assassinato” do antigo líder supremo do Irão.

Ainda assim, Putin evitou criticar diretamente Trump — algo que vários observadores já destacaram. “No fim de contas, o conteúdo de qualquer proposta (de Putin) pode ter pouca importância”, escreveu Hanna Notte, diretora para a Eurásia no James Martin Center for Nonproliferation Studies, na rede social X. “Ao oferecer-se para desempenhar um papel construtivo, Putin pode alcançar o seu principal objetivo — elogiar Trump e manter-se do seu lado — algo importante para os objetivos russos na Ucrânia.”

Uma crise energética global ajuda Putin

O telefonema com Trump surge também numa altura em que a situação económica da Rússia parece estar a mudar, num contexto de agravamento da crise energética global, com o encerramento efetivo do Estreito de Ormuz.

O preço do petróleo ultrapassou na segunda-feira os 100 dólares por barril (cerca de 92 euros), e os especialistas alertam que pode atingir 150 dólares por barril (cerca de 138 euros) até ao final de março se as perturbações naquela via marítima crucial continuarem.

São boas notícias para a Rússia, um dos maiores exportadores de petróleo do mundo. Além disso, a administração Trump suspendeu temporariamente a pressão sobre a Índia — um dos clientes mais importantes de Moscovo — ao conceder às refinarias indianas uma autorização de 30 dias para comprarem petróleo russo atualmente retido no mar.

No ano passado, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos impôs sanções às duas maiores petrolíferas da Rússia e aplicou tarifas secundárias à Índia pelas suas compras de petróleo russo, numa tentativa de reduzir o fluxo de dinheiro que financia a máquina de guerra de Moscovo.

O petroleiro Boracay, pertencente à chamada “frota sombra” da Rússia, fotografado a 1 de outubro de 2025 ao largo do porto francês de Saint-Nazaire. (Damien Meyer/AFP/Getty Images)

Numa reunião na segunda-feira com os principais conselheiros para avaliar a situação dos mercados globais de petróleo e gás, Putin mostrou-se confiante.

“Nas atuais condições, a concorrência entre compradores por fornecedores de energia, para garantir fornecimentos estáveis e previsíveis de petróleo e gás, está a intensificar-se”, disse. “Neste contexto, não posso deixar de recordar — não apenas aos colegas nesta sala, mas a todos os nossos consumidores — que a estabilidade é precisamente aquilo pelo qual as empresas energéticas russas sempre foram conhecidas.”

Nos últimos meses, a capacidade das finanças públicas russas para sustentar o esforço de guerra tinha sido posta em causa, perante a subida da inflação e o aumento do défice orçamental. A perspetiva de maiores receitas provenientes das exportações de petróleo e gás pode agora dar novo fôlego à economia russa.

A Rússia poderá também ter outras cartas geopolíticas na guerra com o Irão.

Além dos laços de defesa e segurança entre Moscovo e Teerão — várias fontes familiarizadas com relatórios de serviços de informações norte-americanos dizem que a Rússia está a fornecer ao Irão dados sobre a localização e os movimentos de meios militares dos Estados Unidos na região do Golfo — Putin mantém relações pessoais antigas com vários líderes do Médio Oriente.

Desde o início da campanha militar dos Estados Unidos e de Israel, Putin falou por telefone com o rei do Bahrein, Hamad bin Isa Al Khalifa, com o presidente dos Emirados Árabes Unidos, Mohamed bin Zayed Al Nahyan, com o emir do Catar, Sheikh Tamim bin Hamad Al-Thani, e com o príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman.

Ucrânia oferece ajuda contra drones iranianos

O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, também tenta ganhar influência na região. Nos últimos dias, a Ucrânia ofereceu a sua experiência no combate aos drones iranianos Shahed, que têm atacado alvos em vários pontos do Golfo.

Mas resta saber se essa ajuda se traduzirá em apoio político em Washington. Trump parece ter desvalorizado as informações de que a Rússia estaria a fornecer dados de inteligência ao Irão. E enquanto a atenção internacional está centrada na crise no Médio Oriente, Putin pode beneficiar do facto de os decisores ocidentais estarem distraídos da Ucrânia, onde a guerra continua sem sinais de abrandamento. Nos últimos dias, drones e mísseis russos atingiram cidades ucranianas sem gerar grande destaque mediático.

Equipas de emergência ucranianas no local de um ataque com drone russo contra um prédio de apartamentos em Kharkiv, na Ucrânia, a 2 de março. (Pavlo Pakhomenko/NurPhoto/Getty Images)

Numa análise publicada na rede social X, Sam Greene, professor de política russa no King’s College London, sugere que o cálculo estratégico de Putin continua centrado na sua relação com Trump.

“Primeiro, a ideia de que Putin sofre quando perde aliados — seja Assad, Maduro ou Khamenei — existe apenas na cabeça de analistas ocidentais e não tem base em factos observáveis”, escreveu. “Não há qualquer prova de que isso lhe importe, de que afete a sua autoridade interna ou a sua legitimidade externa.”

E, acrescenta Greene, independentemente do que Putin possa sentir em relação à morte do líder supremo iraniano, “não vai deitar a relação com Trump pela janela”. “Para começar, isso não trará Khamenei de volta. Mas, mais importante ainda, Trump é a maior fonte de influência de Putin sobre a Europa. Ele vai manter o foco no essencial.”

Por agora, a crise energética global poderá trazer novos dividendos a Putin, enquanto prossegue a sua guerra na Ucrânia.

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