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Psicólogo e Presidente do Conselho de Especialidade de Psicologia Clínica e da Saúde da Ordem dos Psicólogos Portugueses

O Psicólogo Responde: a tecnologia pode ser usada para melhorar a saúde mental?

27 jul, 10:00
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O Psicólogo Responde é uma rubrica sobre saúde mental para ler todas as semanas. Tem comentários ou sugestões? Escreva para opsicologoresponde@cnnportugal.pt

Vivemos num tempo em que a tecnologia está presente em todas as esferas da vida humana, desde o trabalho à intimidade, do lazer à saúde. A área da saúde mental não poderia ser exceção. Do atendimento psicológico à distância à utilização de realidade virtual em contextos terapêuticos, passando por aplicações móveis de promoção da regulação emocional e até de chatbots que simulam conversas empáticas, a questão sobre se a tecnologia pode ser usada para melhorar a saúde mental é incontornável e muito importante.

A resposta terá de ser positiva, mas deve evitar tanto entusiasmos acríticos como um ceticismo absoluto. Na verdade, a Psicologia tem vindo a incorporar tecnologia digital desde há muito tempo, começando pela digitalização dos registos profissionais, continuando pela adoção de programas informáticos para corrigir testes psicológicos e culminando no uso estruturado da realidade virtual para promover a intervenção psicológica em alguns contextos. Contudo, a tecnologia tem sido usada como um meio e não como fim, utilizada ou supervisionada por um profissional e adaptada às necessidades de cada pessoa.

O mesmo se aplica às intervenções à distância, que ganharam um novo protagonismo com a pandemia da COVID-19. Existe, hoje, um conjunto considerável de investigação que demonstra a eficácia de intervenções psicológicas online, desde que asseguradas condições mínimas de privacidade, e desde que a pessoa seja capaz de se adaptar a este modo de construir a relação terapêutica, assente em treino e supervisão para o profissional. A tecnologia, neste caso, pode permitir alargar o acesso sem substituir o essencial da prática psicológica. O foco, esse, tem que estar sempre no melhor interesse da pessoa, não nas conveniências do profissional.

A questão complexifica-se quando a tecnologia se começa a apresentar como substituto do encontro humano, e não como uma ferramenta complementar da intervenção. Este é o caso mais controverso das aplicações baseadas em Inteligência Artificial (IA), particularmente os já chamados chatbots de intervenção psicológica. Estes algoritmos, que interagem a partir de linguagem natural, são por vezes promovidos como capazes de escutar, apoiar e orientar emocionalmente os utilizadores. O dilema central é se serão capazes de facto de o fazer.

A intervenção psicológica não é, apenas, um conjunto de técnicas aplicadas a sintomas e a sinais. É um processo relacional, ético, contextualizado e intencional, onde a escuta ativa, a aliança terapêutica, e a construção conjunta de sentidos são fatores centrais, e cientificamente eficazes. Um chatbot pode simular respostas empáticas, mas não as pode sentir; pode repetir estratégias terapêuticas, mas não as adapta com base em subtilezas emocionais; pode estar sempre disponível, mas sem setting (estrutura de intervenção), sem corpo e sem silêncios.

No mais, existem riscos sérios. Não se conhece um destes sistemas que tenha sido aprovado como um dispositivo de saúde, passando pelos processos de investigação e aprovação rigorosos a que estes dispositivos são obrigatoriamente submetidos. Podemos utilizar um relógio para medir os batimentos cardíacos, mas se quisermos um diagnóstico clínico fazemos um eletrocardiograma.

Acresce que os dados dos utilizadores, neste tipo de dispositivos, são frequentemente utilizados para fins comerciais ou para treino algorítmico. E que dados estamos a disponibilizar voluntária e gratuitamente? Apenas alguns dos mais íntimos de cada um de nós.

Acrescem os riscos de vieses. Estes modelos aprendem com dados históricos, que podem perpetuar discriminações ou excluir contextos minoritários, repetindo e recalcando erros e problemas societais.

A antropomorfização da IA pode levar a uma ilusão de relação que poderá não ser mediada e enquadrada na dimensão terapêutica e que pode, com elevada probabilidade, acabar numa desilusão que depois não pode ser contida e trabalhada. Aliás, o acesso permanente a estas ferramentas, sem estrutura relacional ou ética, pode criar vínculos utilitaristas e, paradoxalmente, reforçar a solidão ou a passividade e incapacidade da pessoa de mudar. O objetivo da intervenção psicológica é a promoção da autodeterminação do indivíduo, é ajudá-lo a tornar-se mais autónomo, não mais dependente de alguém ou, pior ainda, de uma ferramenta deste tipo.

O que está em causa não é, pois, a existência da tecnologia, mas a forma como ela é utilizada, avaliada e regulada. As ferramentas digitais, pelo menos em saúde, devem ser usadas com responsabilidade, ou seja, com clareza sobre quem é responsável pela intervenção e pelos seus efeitos. Devem ainda ser verificáveis, isto é, sujeitas a critérios científicos e éticos, que sejam passíveis de verificação. É importante que se compreenda como é que um algoritmo chegou do ponto A ao ponto B.

A história da psicologia evidencia que a introdução de tecnologia com objetivos sérios foi acompanhada de investigação robusta, de estudos controlados, de debate ético e de avaliação rigorosa. Com a IA, existe a sensação de que se estão a dar saltos, motivados por um entusiasmo quase messiânico, sem cumprir as etapas necessárias de validação. E isso, sim, é preocupante!

A eficácia de uma ferramenta que se pretende tenha impacto positivo na saúde mental do indivíduo não pode ser medida apenas por estatísticas de utilização ou níveis de satisfação. A intervenção psicológica necessita de métricas que incluam a autenticidade percebida da interação, a capacidade de promover autodeterminação, e o impacto subjetivo a médio e a longo prazo. É central, ainda, proteger os mais vulneráveis, evitando que problemas complexos sejam tratados com soluções simplistas ou delegados em sistemas que não foram desenhados a partir de princípios ético-profissionais. Se isso é verdade para as pessoas, terá que o ser para a tecnologia.

Não existem dúvidas que a tecnologia digital pode ajudar a melhorar as intervenções em saúde mental. Aliás, já o faz. Mas terá que ser utilizada como uma ferramenta nas mãos de um profissional, e não como substituto do humano. A realidade virtual pode ser um recurso valioso; a intervenção remota pode facilitar o acesso; os algoritmos podem ajudar a organizar informação clínica e a ajudar na criação de planos de intervenção. Mas a relação, o sentido, o toque ético, não carecem de substituição, já que não são uma técnica, mas sim uma inerência do humano.

Ser psicólogo implica um compromisso com o outro, promover uma escuta que transforma, uma presença que cuida. A tecnologia pode e deve ser uma aliada, desde que não contribua para nos alienar ainda mais, convencendo-nos que ser livre será precisarmos apenas de nós mesmos.

Sugestões:

Para os profissionais de saúde mental: É cada vez mais importante a utilização crítica das tecnologias disponíveis e a sua integração nas práticas com discernimento e sem abdicar da relação. A presença clínica não é substituível, mas pode ser complementada por ferramentas tecnológicas devidamente validadas e supervisionadas.

Para os utilizadores dos serviços psicológicos: Se uma aplicação promete “ajuda psicológica”, devem questionar-se sobre quem a desenvolveu, com que supervisão científica, sobre quais as garantias de privacidade e sobre os limites da sua atuação. Uma relação terapêutica não se resume a respostas rápidas a problemas e questões apresentadas, por mais sofisticadas que pareçam. A intervenção em psicologia não se trata de procurar as melhores opções a tomar. Essas são como os prognósticos: só se sabe no fim do jogo!

Para os reguladores: É urgente a criação de critérios claros de certificação e de vigilância sobre aplicações dedicadas à saúde mental. Se é exigido rigor na utilização de medicamentos e de dispositivos médicos, o mesmo deve ser exigido para ferramentas que intervêm diretamente no bem-estar psicológico das pessoas.

Para as pessoas que desenvolvem tecnologia: Trabalhem com psicólogos e com outros profissionais da saúde mental desde o início do processo de desenvolvimento de aplicações. A inovação responsável começa com o reconhecimento das especificidades humanas que a tecnologia nunca poderá replicar – mas pode e deve respeitar.

Para as instituições académicas: Formem psicólogos e profissionais da saúde mental com literacia digital e ética aplicada à tecnologia. A formação deve incluir análise crítica das ferramentas digitais, limites éticos e epistemológicos da IA, e competências para avaliar e integrar tecnologia com responsabilidade.

Para todos nós, enquanto sociedade: Promova-se uma literacia digital crítica. O entusiasmo não pode sobrepor-se ao cuidado. Devem exigir-se não apenas soluções rápidas, mas intervenções humanas, éticas e cientificamente informadas

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