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Psicóloga e membro da direção da Delegação Regional Sul da Ordem dos Psicólogos Portugueses

O Psicólogo Responde: porque precisam tanto as pessoas da aprovação dos outros?

19 jul, 10:00
Psicólogo Responde (Fonte: ChatGPT)
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O Psicólogo Responde é uma rubrica sobre saúde mental para ler todas as semanas. Tem comentários ou sugestões? Escreva para opsicologoresponde@cnnportugal.pt

 

Será que estou bem vestido? O meu trabalho estará bom? Ninguém me diz nada, não tenho muitos likes, serei suficientemente bom?

A necessidade de aprovação dos outros é uma das características mais universais do ser humano. É uma experiência humana comum, muitas vezes silenciosa, que atravessa a forma como nos relacionamos, trabalhamos e nos avaliamos a nós próprios. A necessidade de aprovação pode ser facilmente interpretada como sinal de insegurança. No entanto, esta necessidade tem raízes psicológicas mais profundas. Desde cedo aprendemos a ler a reação dos outros para saber se estamos certos ou errados, se somos bem-vindos, se somos aceites ou amados. A aceitação social desempenha um papel essencial na sobrevivência, pois significa proteção, cooperação e acesso a recursos. Sabemos desde cedo que precisamos de pertencer, de fazer parte, e que a aprovação dos outros funciona como algo muito humano que denota segurança e vínculo social. Assim, desde a infância o olhar do outro tem muito peso. É através dele que descobrimos o mundo, moldando o nosso comportamento, a nossa identidade e a forma de convivência social. Entre aprovações e desaprovações vamo-nos construindo, percebendo o nosso lugar no mundo e construindo a nossa sensação de valor. Assim, ao longo da nossa vida, podemos dizer que a aprovação externa não é apenas desejável. Ela é, em muitas situações, emocionalmente organizadora. É saudável querer ser bem visto.

A teoria da vinculação, de John Bowlby, ajuda a compreender a forma como esta necessidade se estrutura ao longo do desenvolvimento. Para o autor, as primeiras relações com as figuras cuidadoras contribuem para a construção de modelos internos de funcionamento, isto é, de expectativas sobre si próprio e sobre os outros. Quando a criança encontra consistência, disponibilidade emocional e segurança, tende a desenvolver uma maior confiança interna. Pelo contrário, quando experiencia instabilidade, crítica excessiva ou indisponibilidade afetiva pode crescer com maior dependência da validação externa para regular o próprio valor. A rejeição, a crítica ou a indiferença podem ser vividas de forma particularmente intensa porque são percebidas como ameaças ao vínculo e à pertença.

Donald Winnicott oferece outra perspetiva particularmente útil através da distinção entre o Verdadeiro Self e o Falso Self, dizendo que o primeiro se desenvolve quando há espaço para autenticidade, espontaneidade e expressão emocional. O segundo surge quando a adaptação às expectativas externas se torna necessária para preservar o vínculo e, nesses casos, a pessoa aprende a ajustar-se ao que os outros esperam, muitas vezes à custa da própria espontaneidade. Na idade adulta, isso pode traduzir-se em dificuldade em dizer “não”, medo da desaprovação, necessidade de agradar e sensibilidade elevada à crítica.

Já Lev Vygotsky sublinha que o desenvolvimento psicológico não ocorre no vazio. O autoconceito forma-se nas interações sociais, nas palavras ouvidas, nos gestos recebidos e nas mensagens repetidas ao longo da infância e da adolescência. Frases como “és capaz”, “és inteligente” ou, pelo contrário, “não és suficiente” podem transformar-se em narrativas internas duradouras. Para o autor muitas das crenças que temos sobre o nosso valor não nascem apenas da experiência individual. São também resultado da forma como fomos reconhecidos, corrigidos ou comparados ao longo do tempo.

Para melhor compreender a profundidade deste tema, devemos distinguir autoconceito de autoestima, sendo o autoconceito a forma como nos descrevemos e a autoestima a avaliação emocional que fazemos de quem somos.

Assim, podemos dizer que uma pessoa pode ter um autoconceito relativamente claro e elevado, mas, ainda assim, sentir-se pouco válida ou insuficiente. Quando a autoestima depende

excessivamente da validação externa, torna-se frágil e instável. O elogio alivia, mas dura pouco. A crítica fere, mesmo quando é pontual. A ausência de reconhecimento pode gerar dúvida, desconforto e insegurança. Esta dinâmica adensa-se no chamado Síndrome do impostor. Nos anos 70, Pauline Clance e Suzanne Imes reconhecem esta síndrome em pessoas com competências reais e evidência objetiva de desempenho, que tendem a atribuir os sucessos à sorte, ao acaso ou a fatores externos. O reconhecimento interno nunca é totalmente interiorizado e a sensação de que são uma fraude persiste. Nestas situações, a aprovação dos outros perde rapidamente o seu efeito regulador, porque a dúvida interna persiste.

Atualmente, as redes sociais vieram intensificar este fenómeno ao tornarem a validação externa, social, mais visível, imediata e mensurável através de likes, comentários e partilhas, que funcionam como sinais públicos de aceitação e como instrumentos de comparação. Quando o valor pessoal começa a ser medido por estas métricas, a identidade torna-se mais vulnerável às oscilações do olhar dos outros. O problema não reside apenas na tecnologia, mas na tendência humana para usar a reação externa como referência principal para avaliar quem somos. Quando o "Eu" passa a depender do "nós" a validação externa passa a ser a principal fonte de valor pessoal, o autoconceito perde a solidez e passa a ser constantemente reescrito pelos sinais externos, tornando-se a autoestima instável e oscilante de acordo com o elogio ou a crítica. Este espaço de comparação, onde a expectativa é a fonte de validação emocional pode ampliar as inseguranças já existentes.

A investigação contemporânea tem vindo a mostrar que a autoestima pode tornar-se instável, quando depende excessivamente do sucesso, do desempenho e da aprovação social. É neste contexto que surge o interesse pela autocompaixão, conceito amplamente desenvolvido por Kristin Neff, que explica que a autocompaixão não implica ignorar os próprios erros, desistir de crescer, ou deixar de valorizar a opinião dos outros. Implica, sim, abandonar a ideia de que o valor pessoal precisa de ser constantemente provado. A pessoa autocompassiva procura responder às dificuldades com compreensão, respeito por si mesma, amor próprio, responsabilidade e humanidade. E é por esta razão que muitos investigadores consideram que esta capacidade poderá ser um fator mais relevante para o bem-estar psicológico do que simplesmente a procura de uma autoestima elevada.

Podemos manter uma ligação saudável a quem somos quando não recebemos a aprovação que desejamos?

A psicologia tem dado atenção à sensibilidade à rejeição, ou seja, à tendência para antecipar, interpretar e reagir intensamente a sinais de possível desaprovação. Por exemplo, uma mensagem que demora a chegar, um comentário neutro ou um gesto menos caloroso, que podem ser vividos como indícios de afastamento. E é precisamente aqui que a autocompaixão se torna um fator protetor relevante. Em vez de depender exclusivamente da avaliação externa, esta propõe uma relação interna mais compreensiva, mais estável e menos punitiva. Ser autocompassivo não significa resignação nem ausência de exigência. Significa tratar-se com mais humanidade perante o erro, reconhecer a própria vulnerabilidade e compreender que o valor pessoal não depende de um desempenho perfeito nem da aprovação constante dos outros.

Talvez o desafio não seja deixar de procurar aprovação, porque isso seria irrealista. O desafio é impedir que ela se transforme na principal fonte de identidade. A maturidade emocional passa, em grande medida, por conseguir valorizar o reconhecimento dos outros sem depender dele para definir quem somos.

Como deixar de precisar tanto da aprovação dos outros?

Distinga a crítica de avaliação do valor pessoal. Muitas das opiniões que recebemos dizem respeito a ações específicas, contextos pontuais, e não àquilo que somos. Não interprete tudo

como pessoal. Fazer esta separação é um passo importante para reduzir a dependência da validação externa.

Lembre-se de que nem toda a observação negativa é destrutiva, nem toda a ausência de reconhecimento significa rejeição, nem todo o silêncio dos outros tem o significado que lhe atribuímos. Grande parte do sentimento de falta de aprovação surge não dos factos em si, mas da interpretação que fazemos deles.

Questione a necessidade de aprovação, De onde vem essa necessidade? Será medo de rejeição, experiências passadas de crítica, uma autoestima frágilizada. Tente perceber :“Do que tenho medo que aconteça se não gostarem de mim?” “Desde quando isto é importante para mim?” Se compreender a origem vai ajudar a reduzir o impacto.

Desloque a atenção do exterior para o interior e em vez de perguntar constantemente “o que pensam de mim?” pode ser mais útil perguntar: “Será que isto está alinhado com os meus valores?”, “Estou a agir de forma coerente com aquilo em que acredito?”, ou “Que tipo de pessoa estou a ser, ou quero ser?”. Quando a referência principal passa a ser interna, a autoestima torna-se mais estável e menos dependente das oscilações do contexto e da opinião alheia.

Não espere que alguém valide os seus sucessos. Valide-se a si mesmo, tenha orgulho em si. Treine a validar-se a si mesmo. Diga “hoje estou o máximo, “estou de parabéns, dei o meu melhor?”. Ou simplesmente "ok, aconteceu aprendi com isto”. A autoestima constrói-se através desta prática consciente. Aceite a realidade inevitável e perceba que não é possível agradar a toda a gente. Ser autêntico não afasta as pessoas certas, muitas vezes ajuda a encontrá-las. Pratique, com intenção, a sua valorização pessoal, reconheça o seu esforço, a intenção, a aprendizagem e o progresso, e ajude-se a construir uma relação mais segura consigo próprio.

Aprenda a dizer “não” sem culpa. O mundo não acaba quando não agradamos. Comece por pequenas recusas e veja crescer a sensação de controlo e respeito próprio.

Treine a tolerância à desaprovação sem recorrer automaticamente a comportamentos para agradar ou justificar-se. Mostre um sinal claro de maior autonomia psicológica. No início, esta mudança, tal como todas, é desconfortável, mas esse desconforto significa crescimento pessoal e respeito por si próprio.

Observe os pensamentos automáticos. Frases como “eles acharam-me estranho” ou “fiz má figura” surgem rapidamente e são frequentemente tomadas como verdade. Pergunte a si mesmo: “Tenho provas reais disto? Ou estou a supor?” Sabemos que muitas inseguranças vivem mais na interpretação do que na realidade.

Reduza a comparação social. A exposição constante a versões idealizadas da vida dos outros distorce a perceção e intensifica a necessidade de validação. Menos comparações levam a uma visão mais realista e mais justa de si mesmo e do mundo que o rodeia. Cada um é um ser único e especial.

Perceba que podemos fazer esta passagem da necessidade constante de confirmação externa para a capacidade progressiva de reconhecer internamente o próprio valor, onde o reconhecimento dos outros continua a ser positivo, mas deixa de ser indispensável. E é precisamente nesse ponto que começa uma das formas mais sólidas de liberdade: a liberdade de ser, sem precisar constantemente de aprovação, sem pedir licença para existir.

Seja mais compreensivo consigo mesmo, trate-se com mais humanidade. Se erra, está tudo bem. Existem mais possibilidades de acertar, O seu valor não depende de um desempenho perfeito nem da aprovação constante dos outros. Aceite os seus erros e elogie os seus sucessos, pois tudo faz parte.

Observe o seu comportamento e, se reconhecer que é altamente sensível à opinião dos outros, que a necessidade de aprovação faz com que se anule, ou perca a sua identidade, sem se conseguir afirmar, este padrão comportamental está a afetar negativamente a sua vida. Pode ser útil procurar o apoio de um psicólogo, que o ajude a trabalhar esses padrões comportamentais, a melhorar a sua autoestima e desenvolver uma maior confiança em si. Um psicólogo pode ajudar.

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