O Psicólogo Responde é uma rubrica sobre saúde mental para ler todas as semanas. Tem comentários ou sugestões? Escreva para opsicologoresponde@cnnportugal.pt
"Agora parece que está na moda falar-se de saúde mental em todo o lado"
Vivemos na era da informação, dos conteúdos online que, feliz ou infelizmente, nos trazem um fluxo de informação muitas vezes difícil de filtrar. Nos dias de hoje, o “scroll” tornou-se quase instintivo. Se tal significar o acesso a informação útil e fundamentada, isso até pode ser bom. Mas, infelizmente, há informação que nos chega de forma massiva que pode até parecer interessante, mas pode ser uma “página cheia de nada”.
Isto é visível no algoritmo que está definido para validar e reforçar aquilo que procuramos, trazendo-nos mais conteúdo similar com todas as coisas boas, mas também com os perigos que isso acarreta. Nos últimos anos, numa sociedade em transformação, começou também a destacar-se a promoção pessoal e o marketing profissional nos mais diversos contextos.
Passou-se de anúncios no jornal impresso para a divulgação nas redes sociais, em diferentes plataformas, com grafismos apelativos e conteúdos aparentemente interessantes. Basta que cada um use a sua criatividade e coloque o que bem entende para se autopromover, a si próprio, ao seu negócio e aos seus serviços. Mas isso pode ser um problema. Porque tanto se pode promover o que faz bem como o que faz mal.
Aqui entra outra variável: a visibilidade. E esta traz mais responsabilidade. E determinados conteúdos podem constituir um perigo para a saúde pública. As redes sociais permitem ao autor, escrever o que apetece. Mas têm de existir limites. E esses limites estão definidos em determinadas instituições onde os profissionais podem ser punidos profissionalmente por más práticas, inclusivamente de comunicação. Isto porque se um profissional da Psicologia tem destaque significa que está a representar os seus colegas e a transmitir uma imagem que pode ser boa ou má da própria Ciência Psicológica e dos seus profissionais.
Antes de mais, só poderão ser identificados como Psicólogos aqueles que estiverem inscritos na Ordem dos Psicólogos Portugueses. E esta estrutura é uma espécie de “VAR” da Psicologia, que, entre outras coisas, monitoriza se os Psicólogos cumprem determinadas regras – inclusive ao nível da comunicação. Caso as desrespeitem, podem ser punidos.
Para garantir que a mensagem seja o mais séria, fundamentada e credível possível, proveniente de um profissional ou de uma área científica, há uma espécie de “legislação” para o exercício de diferentes profissões. É o caso dos Psicólogos, que têm um Código Deontológico que se vai atualizando e complementando com pareceres sobre determinadas situações que podem gerar dilemas éticos. Se eu estou a escrever este conteúdo é porque estou habilitado e validado pela minha Ordem Profissional para o fazer e, se eventualmente pode haver quem considere estes conteúdos pouco úteis, quem o quiser ler pode verificar que contêm informação potencialmente relevante.
Assim, estas Instituições credibilizam e monitorizam a prática dos respetivos profissionais. Tal facto transmite confiança à opinião pública. Dando um exemplo muito concreto, que diz respeito à comunicação nas redes sociais, consultemos o que diz o código deontológico da Ordem dos Psicólogos, na sua versão mais recente:
“Utilização de redes sociais. Os/As psicólogos/as devem considerar o impacto que a utilização das redes sociais pode ter na sua prática e na divulgação da ciência psicológica. Os/As psicólogos/as devem considerar as informações que disponibilizam quando utilizam as redes sociais para fins profissionais ou para divulgar os seus serviços, tendo em conta o impacto que a informação pode ter nas relações profissionais já estabelecidas ou que venham a estabelecer.”
Esta informação é complementada com um parecer da Comissão de Ética da OPP a esta respeito, no qual podemos retirar informação relevante, como estes pontos:
"6. O psicólogo será o responsável pela informação que partilha neste contexto e pelas consequências que daí possam decorrer;
7. O psicólogo deve assegurar uma separação entre a ciência psicológica e os valores, crenças e interesses pessoais;
8. Os psicólogos reconhecem o impacto da sua exposição pessoal nas redes sociais e têm consciência dos potenciais danos que esta exposição possa causar às pessoas em particular e à classe profissional que representam;
9. Tal como em qualquer declaração pública, a exposição do psicólogo através das redes sociais deve respeitar e promover os princípios da profissão, nomeadamente a responsabilidade, a integridade, beneficência e não-maleficência."
Portanto, com “conta, peso e medida” pode ser saudável, mas também útil, seguir psicólogos nas redes sociais. Sendo extensível a outros profissionais e autores que sigam os códigos das respetivas Ordens. No caso dos estabelecimentos, devem ser considerados apenas aqueles que promovem conteúdos com conselhos e sugestões, e devidamente acreditados pela Entidade Reguladora da Saúde.
Assim, para saber se é saudável seguir profissionais como é o caso dos Psicólogos e Terapeutas, nas redes sociais, deixo as sugestões:
- Saber o que procurar, como procurar e quem procurar.
- Se as técnicas utilizadas estão identificadas, reconhecidas e fundamentadas cientificamente.
- Compreender que não podemos resolver um problema de desempenho profissional com estratégias de maior performance se antes não verificarmos se não haverá um problema de Saúde Psicológica a montante. Um luto, uma depressão, um trauma ou uma doença mental complexa podem ser incapacitantes e requerem uma intervenção estruturada.
- Se o profissional está inscrito na respetiva Ordem – no caso dos Psicólogos, a situação é facilmente verificável no “diretório” da página de abertura do site oficial desta Instituição.
- Se se verificar que se trata de um membro efetivo, os conteúdos são criados por um profissional reconhecido pela sua ordem profissional.
- Utilize a informação, se fidedigna, somente como orientação.
- Normalmente as sugestões e tópicos são genéricos. Somos todos diferentes e únicos e a mesma informação pode ser interpretada de forma diferente pelo que é importante ajustar à sua realidade.
- As soluções fáceis não existem, muito menos em relação a questões de saúde psicológica. Portanto tenha em conta que há informação que pode gerar expetativas desajustadas e criar um efeito antagónico quando nos apercebermos que a aplicação de uma sugestão pode não ter o impacto que tanto desejava.
- Quando os conteúdos indicam orientações e esperança baseadas em evidência científica.
- Quando proporciona literacia fundamentada.
- Ajuda a encontrar a causa de um determinado problema que vivemos.
- Dar outra perspetiva, não só sobre nós próprios, mas também sobre o outro.
- Ajudam a identificar algumas características e comportamentos de alguém que pode precisar de ajuda. Sim, se estivermos informados e atentos sobre alguns sinais podemos ajudar a salvar uma vida.
- Permite ter acesso facilitado a uma ajuda estruturada por um profissional com cuja linguagem se identifique. Seja para si, família ou amigos que possam precisar.
- Os conteúdos podem dar uma nova perspetiva daquele problema ou contexto com o efeito: “isto faz todo o sentido… e agora?”
- A sugestão de um profissional pode servir como uma “fonte de conselhos” que parecem fazer todo o sentido para uma determinada situação, mas que pode exigir que se percorra o “percurso dessa água até à foz do rio” através de uma intervenção robusta e de continuidade.
Nestes casos, recomenda-se que não se fique pelo “scroll” das redes sociais, faça o “search” num diretório de profissionais especializados, porque um Psicólogo pode ajudar.
Nota: no caso de identificar profissionais a divulgarem conteúdos inadequados, que não vão de encontro às regras estabelecidas, denuncie e reporte à Ordem dos Psicólogos Portugueses. E, no caso de não serem Psicólogos, contacte diretamente o Ministério Público. O oportunismo é um perigo para a saúde pública.
VEJA TAMBÉM:
- Posso fazer psicoterapia sem tomar medicação e ainda assim melhorar?
- É possível ensinar o cérebro a reagir menos intensamente a críticas?
- Como perceber se um adolescente está a passar por depressão ou apenas por "fases"?
- Porque é que muitas pessoas sentem mais solidão apesar de estarem sempre conectadas online?
- Há risco de dependência emocional em relação ao psicólogo?
- Como falar sobre sexualidade com adolescentes?
- Como lidar com familiares que não entendem problemas de saúde mental?
- A dependência de séries, jogos online ou dating apps é considerada uma forma de vício?
- O que significa quando sinto que estou sempre emocionalmente cansado?
- Porque é que tantas pessoas sentem "síndrome do impostor"?
- Porque é que tenho tanta dificuldade em "largar o passado"?
- O que fazer quando os filhos não confiam em nós para partilhar problemas?
- Como distinguir entre stress normal e ansiedade que precisa de ajuda?
- Como criar rotinas que me deem equilíbrio emocional?
- Como aprender a lidar com a necessidade de controlar tudo?
- Como focar em soluções em vez de ficar preso no problema?
- Como lidar com a frustração de planos que não correm como eu imaginei?
- Como lidar com a passagem do tempo e a inevitabilidade de as pessoas à nossa volta começarem a desaparecer?
- Que técnicas podem ajudar a controlar crises de ansiedade?
- Como estabelecer limites saudáveis entre relações pessoais e profissionais?
- O que fazer quando sentimos que estamos a ficar viciados na utilização de ecrãs?
- O que significa ter inteligência emocional e como podemos desenvolvê-la?
- Como saber que nos relacionamos com uma pessoa narcisista?
- A tecnologia pode ser usada para melhorar a saúde mental?
- Como é que a comparação nas redes sociais nos pode afetar psicologicamente, e como evitá-la?
- Como reencontrar motivação nos dias vazios?
- E se o problema não estiver nos outros? Um olhar sobre o narcisismo no quotidiano
- Como diferenciar a ansiedade normal de uma perturbação da ansiedade?
- Como desligar a nossa cabeça, especialmente à noite?
- A meditação e o mindfulness realmente ajudam a melhorar a saúde mental?
- Estes são os mitos mais comuns sobre depressão e ansiedade
- Como distinguir a depressão da tristeza?