Diana, o robô virtual que vai ajudar a formar psicólogos

28 set, 22:23
Aplicação de realidade virtual da Ordem dos Psicólogos e do HEI-Lab

A Ordem dos Psicólogos e o HEI-Lab criaram uma aplicação de realidade virtual para treino de tomada de decisão ética dos psicólogos juniores

Diana senta-se no cadeirão cinzento à nossa frente. Tem 16 anos, veste calças de ganga, t-shirt, casaco de capuz. Diana parece-se com qualquer outra jovem com quem nos cruzemos na rua. E está ali, no consultório do psicólogo, porque precisa de ajuda.

Com as lágrimas a aflorarem aos olhos de quando em vez, conta, com voz pausada, que foi violada pelo cunhado, marido da irmã. Explica que tem evitado sair de casa, faltado às aulas. Apesar de ter boa relação com os pais, não quer contar-lhes porque foi ameaçada pelo cunhado. O psicólogo tem agora de tomar uma decisão ética sobre qual é a melhor forma de a ajudar.

Diana – esta Diana – não existe. É um avatar da aplicação de realidade virtual desenvolvida pela Ordem dos Psicólogos Portugueses com o HEI-Lab (Human-Environment Interaction Laboratory da Universidade Lusófona) para treino de tomada de decisão ética, que será utilizada na formação inicial obrigatória dos psicólogos juniores, para que possam trabalhar depois com as Dianas reais.

“Nós procurámos criar algo que permitisse ao psicólogo ainda em formação ter um processo o mais realista possível para treinar tomada de decisão em questões éticas”, conta à CNN Portugal Pedro Gamito, Professor Catedrático na Universidade Lusófona e diretor do HEI-Lab, responsável pelo desenvolvimento da aplicação.

“O cenário simula um consultório de psicologia, mas, em vez do doente ou cliente, está um bot, um robô digital que responde a perguntas direcionadas para questões de ética. Obviamente que não substitui o treino in vivo, mas prepara melhor os psicólogos juniores para quando são confrontados com o contexto real”, explica Pedro Gamito à CNN Portugal, à margem da apresentação da aplicação no congresso da Ordem dos Psicólogos.

Inovação e certificação

O psicólogo Miguel Ricou, presidente do Conselho de Especialidade de Psicologia Clínica e da Saúde da Ordem dos Psicólogos, e um dos autores da aplicação, adianta que, até ao seu desenvolvimento, esta fase da formação era feita “com a apresentação de casos clínicos num contexto teórico”.

“Com este tipo de aplicações, podemos tornar a situação mais interativa, os psicólogos juniores podem, de facto, participar diretamente, ver um caso e tomar decisões sobre o que devem fazer ou não. Torna-se mais clara a aprendizagem porque as pessoas vivem realmente essa aprendizagem”, frisa Miguel Ricou, que destaca o caráter inovador da aplicação. “A este nível e desta dimensão, é a primeira aplicação deste género a nível mundial na psicologia. Aliás, os nossos colegas da Associação de Psicologia Americana ficaram muito interessados neste projeto e começaram logo a pedir informações.”

Além do caráter inovador, Pedro Gamito destaca também outro aspeto: a certificação. “Aplicações qualquer engenheiro faz. Mas as aplicações para a formação dos psicólogos só têm valor se forem certificadas, se tiverem o contexto cientifico da área para a qual foram desenhadas. Daí a importância desta relação entre psicólogos, que são pessoas treinadas para estudar e intervir no comportamento humano, e engenheiros, que são pessoas treinadas para desenvolver sistemas e procedimentos.”

A CNN Portugal experimentou a aplicação no congresso da Ordem dos Psicólogos

A aplicação foi desenvolvida durante a pandemia e já foi testada num grupo. “Já temos dados que validam esta aplicação. Temos inclusive um artigo que foi feito e submetido para ajudar a validar esta aplicação”, explica Miguel Oliveira, membro da direção da Ordem e outro dos autores desta aplicação.

Agora, vai ser usada nos cursos de formação da Ordem dos Psicólogos. “Para já temos algumas certezas. Sabemos que é uma mais-valia. Claro que haverá alguns psicólogos juniores que não vão gostar, outros vão adorar. A informação que vamos receber ao longo dos anos vai ajudar a melhorar a aplicação”, destaca Pedro Gamito.

Miguel Oliveira aponta que “a realidade virtual permite simular eventos que, ou são raros, ou seriam muito custosos para implementar na vida real e torná-los acessíveis. Seria possível, por exemplo, fazer um cenário de um terramoto em Lisboa e qual seria a resposta dos serviços.”

Por isso, a Ordem dos Psicólogos Portugueses já tem mais utilizações previstas para a realidade virtual. “Um dos outros projetos que temos associados com a realidade virtual é aquilo que estamos a cunhar como ‘experiências virtuais certificadas’ de forma a podermos melhorar o plano de formação da Ordem. Ou seja, dentro do plano de formação, podemos encontrar o cenário ideal em que aquela prática pudesse ser desenvolvida e simular essa mesma prática.”

“De todas as novas tecnologias, a realidade virtual é aquela em que a psicologia já tem mais saber acumulado. Desde os anos 90, com uns temas ainda muito básicos, que a psicologia esteve por dentro deste processo”, aponta Miguel Oliveira.

Pedro Gamito recorda: “O primeiro estudo em que se utilizou realidade virtual foi liderado por uma psicóloga. Foi desenvolvido um cenário que mimetizava a guerra do Vietname, com uma técnica de terapia por exposição para que o paciente se confrontasse com aquilo que lhe provocava medo ou ansiedade exacerbada. É impossível transportar o paciente e o terapeuta para um cenário de guerra, por isso, criou-se esse cenário em realidade virtual para tratar perturbação de Stress Pós-Traumático.”

“Por exemplo, para quem tem medo de andar de avião, existe um programa que utiliza a técnica de dessensibilização, mas contém sempre um voo. Isso custa dinheiro” continua Pedro Gamito. “Ora, tendo um avião em realidade virtual, os voos são feitos quando o terapeuta quiser e acabam quando o terapeuta quiser parar. Esse controlo do terapeuta sobre o que está a acontecer e participar no desenho da aplicação torna a realidade virtual numa das soluções de futuro na área da psicologia”, garante.

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