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Presidente e vogal da Delegação Regional do Sul da Ordem dos Psicólogos Portugueses

O Psicólogo Responde: o que é a chamada "ansiedade climática" e como lidar com ela?

1 fev, 10:00
O Psicólogo Responde: o que é a chamada "ansiedade climática" e como lidar com ela?

O Psicólogo Responde é uma rubrica sobre saúde mental para ler todas as semanas. Tem comentários ou sugestões? Escreva para opsicologoresponde@cnnportugal.pt

As alterações climáticas deixaram de ser uma ameaça distante para se tornarem uma condição do presente. Em diferentes pontos do mundo multiplicam-se ondas de calor, incêndios de grandes dimensões, cheias devastadoras e secas prolongadas que já não respeitam estações nem geografias.

A ciência tem sido clara ao alertar para a aproximação de pontos de não retorno e para a urgência de uma ação coletiva capaz de travar a escalada do aquecimento global. Salvar o planeta deixou de ser um slogan ambientalista para se afirmar como uma necessidade ética, social e humana. Viver com esta consciência permanente tem, porém, um custo psicológico que ainda estamos a aprender a reconhecer.

Relatórios científicos recentes descrevem um planeta que se aproxima de um cenário de instabilidade profunda frequentemente designado como “caos climático”, marcado pela aceleração simultânea das temperaturas, das emissões e dos eventos extremos. Ao mesmo tempo esses dados sublinham que ainda existe margem para mitigação, desde que as respostas sejam rápidas e coletivas. Esta tensão entre urgência e incerteza, entre o saber que o risco é real, mas que o desfecho não está totalmente determinado cria um terreno fértil para uma forma particular de sofrimento psicológico: a ansiedade climática ou a também denominada ecoansiedade.

Cada vez mais pessoas procuram ajuda não por terem vivido diretamente um desastre ambiental, mas por carregarem um medo difuso, persistente e difícil de nomear. Não se trata do medo imediato de uma catástrofe concreta, mas de uma ansiedade antecipatória, alimentada pela perceção de que o mundo deixou de oferecer garantias mínimas de estabilidade e previsibilidade. No entanto, importa dizer com clareza que a ansiedade climática não é um diagnóstico clínico formal, nem deve ser entendida como uma fragilidade individual, pois trata-se de uma resposta emocional compreensível a uma ameaça real, global e amplamente documentada.

O sofrimento instala-se quando esta ansiedade deixa de ser mobilizadora e passa a ser paralisante, interferindo com o dia-a-dia, com o sono e com a capacidade de projetar o futuro, chegando mesmo alguns jovens a dizer, por exemplo, que “não querem ser pais” ou “não têm esperança no futuro”. Podemos dizer que do ponto de vista psicológico, esta forma de ansiedade caracteriza-se pela perceção de falta de controlo, pela dificuldade em construir projetos a médio e longo prazo e por um sentimento de responsabilidade moral excessiva.

Muitas pessoas relatam culpa associada às suas ações ou escolhas diárias, tensão constante entre saber e o poder agir, irritabilidade, tristeza persistente, raiva face às grandes companhias ou indústrias, ou a governantes que sentem que “não fazem nada”. Tudo isto gera um cansaço emocional, que não encontra descanso. Não raras vezes é o corpo que acaba por falar através de sintomas físicos, numa tentativa de dar forma a uma angústia para a qual faltam palavras.

Estas reações não indicam fraqueza emocional, pelo contrário, revelam espírito comunitário, sensibilidade ética, empatia intergeracional e consciência das consequências das ações humanas.

Em Portugal, a ansiedade climática ganha contornos muito concretos, especialmente no Verão. Os incêndios florestais recorrentes, as ondas de calor cada vez mais prolongadas e a sensação de vulnerabilidade que regressa todos os verões alimentam uma memória coletiva marcada pelo fogo. Os incêndios não destroem apenas hectares de floresta ou meios de subsistência. Eles deixam marcas psicológicas profundas nas populações afetadas, nos profissionais de emergência e em quem, ano após ano, revive as imagens e a dor de anos anteriores, que se inscrevem no imaginário coletivo.

De acordo com estudos internacionais são os mais jovens que parecem carregar este peso de forma particularmente intensa, pois apontam níveis elevados de preocupação climática entre adolescentes e jovens adultos, muitos dos quais expressam medo pelo futuro, raiva em relação às gerações anteriores e às grandes companhias poluidoras do meio ambiente e dúvidas profundas sobre projetos de vida outrora considerados garantidos. A sua sensação de crescer num mundo vivido como instável e ameaçador tem implicações psicológicas que ainda estamos a começar a estudar e a compreender.

Perante este cenário impõe-se a pergunta: como responder, do ponto de vista psicológico a uma crise que é simultaneamente ambiental, emocional e ética?

O primeiro passo passa por reconhecer que sentir medo, tristeza ou preocupação face às alterações climáticas não é sinal de fraqueza, mas de lucidez. Assim, validar estas emoções em nós e nos outros é essencial para evitar que se transformem em vergonha ou silêncio. Estar informado é indispensável, mas regular a forma como nos informamos é igualmente necessário. A exposição contínua a conteúdos alarmistas pode amplificar a sensação de desespero. É importante escolher fontes fidedignas, definir limites, avaliar os algoritmos e perceber que permitir-nos momentos para desligar não é indiferença, mas sim necessidade e autocuidado.

Sentir que tomamos conta da nossa pegada ecológica e que agimos, ainda que em pequena escala, pode reduzir a sensação de impotência. Alinhar escolhas com valores pessoais, adotar comportamentos mais sustentáveis ou envolver-se em iniciativas comunitárias cria coerência interna e devolve algum sentido de atividade, algum sentimento de que se é um agente ativo, que não se baixa os braços e que se pode ser um agente de mudança.

Para regular o stress e restaurar o equilíbrio emocional o contacto com a natureza continua a ser uma das estratégias mais simples e eficazes, funcionando como âncora num mundo vivido como excessivamente ameaçador.

No entanto, quando a ansiedade se torna avassaladora e interfere de forma significativa com o quotidiano, procurar apoio psicológico não deve ser visto como último recurso, mas como um ato de responsabilidade pessoal. A intervenção psicológica pode ajudar a transformar a ansiedade paralisante numa forma de preocupação ativa, mobilizadora, devolvendo à pessoa o sentido de controlo possível e uma esperança mais realista.

As alterações climáticas confrontam-nos com uma crise sem precedentes, não apenas ambiental, mas também emocional e ética, pelo que ignorar o impacto psicológico desta realidade é negligenciar uma dimensão central da experiência humana contemporânea. Falar de ansiedade climática, refletir criticamente sobre ela e criar espaços de escuta pode ser uma das respostas mais humanas e responsáveis num mundo em aceleração constante.

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