O Psicólogo Responde é uma rubrica sobre saúde mental para ler todas as semanas. Tem comentários ou sugestões? Escreva para opsicologoresponde@cnnportugal.pt
A manutenção e a recuperação da saúde mental são, muitas vezes, vistas como se tivessem apenas uma única via de tratamento, esquecendo que cada mente funciona como um universo particular. Se, por um lado, algumas pessoas conseguem atingir a manutenção do seu bem-estar psicológico por meio da psicoterapia, outras há que continuam a sentir-se como se estivessem no meio de um nevoeiro denso, onde apenas a psicoterapia não é suficiente.
Compreender porque é que alguns florescem apenas por meio da psicoterapia e outros precisam do suporte biológico dos psicofármacos é o primeiro passo para deixar cair o preconceito e aceitar o que a ciência tem vindo a evidenciar - o equilíbrio entre a mente e o cérebro é um processo único e individual.
Talvez a pergunta "psicoterapia ou medicação?" não seja a questão a ser colocada. A verdadeira questão deveria ser: "O que é que esta pessoa necessita, neste momento da sua vida, para recuperar o seu bem-estar psicológico e o equilíbrio necessário para prosseguir a sua vida?".
A alguém que parte uma perna, ninguém critica pelo uso de gesso para imobilizar o osso e dar tempo para que este recupere. Assim é no caso da medicação, muitas vezes é como esse gesso, que protege e estabiliza o sistema para que, através da fisioterapia da mente - a psicoterapia – seja possível voltar a “andar pelas suas próprias pernas”.
O estigma que ainda persiste relativamente aos psicofármacos parece estar relacionado com o preconceito que continua a rodear as questões relacionadas com a saúde mental. Cada pessoa é uma unidade biopsicossocial, pelo que, tanto a medicação como a psicoterapia, podem ser parte essencial de um tratamento integrado e digno. Aceitar que em alguns casos é necessário proceder a um ajuste químico para conseguir aceder às respetivas ferramentas emocionais e cognitivas não desvaloriza o esforço e o trabalho desenvolvido em psicoterapia. É unicamente o reconhecimento de que situações há em que esta complementaridade permite e dá espaço à criação de condições básicas para que a intervenção venha a dar resultados.
O sucesso não se mede pela ausência dos psicofármacos, mas pela qualidade de vida, pela capacidade de autorregular as suas emoções, de desenvolver as suas atividades e de ser o autor principal da sua própria história.
A psicofarmacologia desempenha um papel que vai muito além do "tratamento de sintomas", atuando como um regulador ao nível biológico e fisiológico. No caso das perturbações da ansiedade e do humor, a medicação ajuda a repor o equilíbrio de neurotransmissores como a serotonina (humor), noradrenalina (energia) e a dopamina (motivação), contribuindo para o restabelecimento da homeostasia e da capacidade de se autorregular. Episódios recorrentes de depressão ou psicose podem ser neurotóxicos, prejudicando áreas do cérebro como o hipocampo (memória e regulação emocional). Nestas situações, a medicação adequada pode fazer a diferença na proteção do cérebro contra o desgaste causado por estes desequilíbrios químicos prolongados.
Em muitos casos, ao reduzir a ansiedade paralisante ou a apatia profunda, a psicofarmacologia permite que o paciente consiga de facto processar as intervenções psicoterapêuticas e dar lugar à intervenção e acompanhamento por meio da psicoterapia. No entanto, é importante atender ao facto de que a recomendação para o uso de medicação não é somente baseada no diagnóstico, mas sim na funcionalidade e na natureza do sofrimento. Em última instância, o que se pretende é a recuperação da funcionalidade e o autocontrole sobre as emoções e as cognições.
Na prática, a recomendação ideal surge de uma avaliação multidisciplinar, onde médico e psicólogo colaboram para perceber se o "obstáculo" à recuperação é uma barreira química ou um desafio emocional ou comportamental.
Qual o papel da terapia farmacológica e da psicoterapia, de que forma se complementam?
Enquanto os psicofármacos atuam nos recetores sinápticos, a psicoterapia atua na estrutura da personalidade e no processamento da experiência. Ao mudar a forma como pensamos e agimos, estamos literalmente a remodelar a estrutura física do nosso cérebro.
Não basta "sentir-se melhor" quimicamente, é necessário compreender as origens dos padrões de ansiedade ou da tristeza para evitar a sua repetição. É no espaço psicoterapêutico que se desenvolvem competências, que se aprendem ferramentas de regulação emocional, assertividade e resolução de problemas. A medicação pode dar a calma, mas a terapia ensina o que fazer com essa calma.
O objetivo final é sempre a autonomia, que o paciente se sinta bem e que conheça as ferramentas próprias para se manter nesse estado.
Em jeito de conclusão...
Em última análise, a jornada da saúde mental não deve ser uma escolha entre biologia e psicologia, mas sim uma integração de ambas em prol do ser humano. Precisamos de substituir o julgamento pela curiosidade. Se para uns o silêncio da reflexão é suficiente para curar, para outros a química é uma ponte indispensável para a dignidade.
Seja através da palavra, da química, ou mais frequentemente das duas, o melhor tratamento será sempre aquele que serve na medida exata da dor de cada um.
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