ENTREVISTA || Francisco Miranda Rodrigues, antigo bastonário da Ordem dos Psicólogos, alerta para os perigos da desinformação na saúde mental e para o risco do “mau desenho do trabalho” e da valorização do dinheiro como compensação laboral
Sim, usamos muito mais do que 10% do nosso cérebro. Não, nem todos nascemos líderes. E a expressão facial nem sempre revela a verdade. No livro “Mitos da Psicologia”, Francisco Miranda Rodrigues, antigo bastonário da Ordem dos Psicólogos desfaz estas e outras crenças e esclarece dúvidas sobre essa ciência pouco exata, mas “honesta” que é a Psicologia. Em conversa com a CNN Portugal, o especialista em Psicologia das Organizações reconhece que a desinformação e o passo rápido promovido pela sociedade atual têm impacto na saúde mental das pessoas e da sociedade e até para a governação política.
“Fala-se muito de ansiedade, trauma, narcisismo, burnout, liderança... Mas muitas vezes fala-se como se bastasse uma frase feita para resolver um fenómeno complexo. E quando isto entra na esfera política - ou quando a política se apropria destes conceitos - o risco aumenta. A Psicologia passa a ser usada para moldar perceções, alimentar clivagens e legitimar decisões com base em emoção e narrativa, não em factos”, alerta.
Francisco Miranda Rodrigues fala ainda de “uma miríade de pseudo intervenções” que “pululam, como se fizessem parte desta ciência” e que não se combatem com “moralismo”. É necessária “literacia, regulação e clareza pública”. E a responsabilidade, essa, é de todos.
É especialista em Psicologia das Organizações e foi bastonário da Ordem dos Psicólogos Portugueses. Até que ponto as nossas empresas e organizações cuidam da saúde mental dos seus colaboradores e dos seus elementos? E até que ponto é que essas instituições contribuem para a degradação da saúde mental da população e para a prevalência e propagação de mitos sobre o assunto?
Há progressos, sem dúvida. Hoje, fala-se mais de bem-estar, burnout e riscos psicossociais do que há uma década. Mas ainda há demasiada “gestão por cosmética”: programas pontuais, campanhas internas e slogans, enquanto o desenho do trabalho continua a produzir exaustão. Ainda há urgência permanente, metas incoerentes, falta de autonomia, chefias mal preparadas e insegurança psicológica.
E aqui os mitos entram pela porta grande, sobretudo três do livro: o de que “o dinheiro é a principal fonte de motivação”, o de que “já se nasce líder” e os mitos da comunicação que alimentam julgamentos rápidos e injustos.
E quais são os riscos dessa crença de que só trabalhamos para receber o nosso salário?
Quando uma organização acredita que “é tudo dinheiro”, concentra o discurso e a decisão em remuneração e prémios, mas depois faz disparates nas variáveis que realmente sustentam a motivação e a saúde mental: justiça organizacional, previsibilidade, reconhecimento, sentido, qualidade da liderança e autonomia real. O dinheiro é crucial para dignidade e segurança, mas não substitui um bom desenho do trabalho. E quando é usado para compensar um sistema mau, o sistema fica caro e continua mau.
Do lado da liderança, o mito do “nascido para liderar” também tem custos: desresponsabiliza a formação e legitima a seleção de perfis dominantes ou percebidos como carismáticos como se isso fosse competência. E depois admiram-se que aumentem conflitos, turnover e climas tóxicos.
Então, o que devem as organizações fazer para promoverem, de facto, a saúde dos seus colaboradores e dos cidadãos?
Quando o debate público sobre trabalho e motivação é reduzido a “quanto se paga”, a política tende a governar por compensação em vez de reformar processos e liderança. E isso é, no limite, uma forma elegante de adiar o essencial.
A saúde mental nas organizações melhora quando há prevenção séria, liderança competente e condições de trabalho humanas. E isso não se resolve com uma campanha. Resolve-se com gestão baseada em evidência.
Ah... e é por isso que em termos organizacionais não é correto, nem uma boa prática, focarmo-nos em conceitos como o da felicidade. Soa bem, mas o que tem valor científico e operacional é outra coisa: bem-estar, saúde psicológica, segurança psicológica, justiça organizacional e qualidade do desenho do trabalho.
O que o levou a escrever este livro?
A Psicologia entrou no espaço público em força, nos media, nas redes sociais, nas empresas, nas conversas do dia-a-dia. E isso tem um lado positivo. O problema é que, quanto mais a Psicologia circula, mais circula também a sua versão simplificada, distorcida ou transformada em rótulo.
Hoje, fala-se muito de ansiedade, trauma, narcisismo, burnout, liderança... Mas muitas vezes fala-se como se bastasse uma frase feita para resolver um fenómeno complexo. E quando isto entra na esfera política - ou quando a política se apropria destes conceitos - o risco aumenta. A Psicologia passa a ser usada para moldar perceções, alimentar clivagens e legitimar decisões com base em emoção e narrativa, não em factos.
Qual é a responsabilidade das redes sociais nesse fenómeno?
Há ainda esse acelerador contemporâneo: a arquitetura digital. Plataformas que premeiam indignação e certezas, combinadas com Inteligência Artificial, que produz respostas plausíveis e confiantes, criam um ambiente onde a “credibilidade” pode ser um efeito de estilo. E a desinformação, como sabemos, não precisa de estar certa; precisa de circular.
Quais os mitos mais surpreendentes que abordou no livro?
Escolho três, mas não sei se lhes chamaria surpreendentes...
O primeiro é “Já se nasce líder?”. Porque não serve apenas para “explicar talentos”. Serve para desresponsabilizar: o indivíduo (“não nasci”) e, sobretudo, as organizações (“não vale a pena formar. É melhor procurar o ‘natural’”). E quando a liderança acredita nisto, passa a recrutar carisma e dominância como se fossem competência - e depois estranha culturas tóxicas.
O segundo (na verdade são dois) é “90% da comunicação é não verbal” e “a expressão facial revela sempre a verdade”. Porque vendem uma promessa irresistível: “há um atalho para ler pessoas”. O primeiro nasceu de uma extrapolação abusiva de resultados obtidos em condições muito específicas; o segundo é a fantasia de que a mente humana é transparente, se tivermos “olho clínico”. O efeito prático é perigoso: julgamentos rápidos, entrevistas enviesadas e a ilusão de que se pode decidir “à vista” sobre competência, sinceridade ou intenção.
E o terceiro é “O dinheiro é a principal fonte de motivação no trabalho”. É surpreendente porque contém meia-verdade (o dinheiro importa) e, por isso, cola. Mas como teoria é um erro que captura o discurso público: reduz-se a política laboral e social a uma contabilidade de euros e ignora-se muitas coisas que fazem as pessoas aderirem, persistirem e confiarem: justiça, autonomia, liderança competência, previsibilidade, reconhecimento e sentido.
Porque é que mitos como estes teimam em persistir na cultura popular, apesar de serem amplamente desmentidos pela ciência?
Porque o nosso cérebro prefere coerência à complexidade e certezas rápidas a verdades lentas. O livro explica esse ponto: o pensamento rápido é confortável; o pensamento lento é “caro”. E hoje há um contexto que amplifica: as redes sociais e as plataformas da internet recompensam o que provoca certos tipos de emoção. Uma afirmação absoluta é mais partilhável do que uma conclusão condicional. A ciência raramente pode competir em “espetáculo” sem se trair.
Há algum desses mitos que seja particularmente prejudicial para a forma como as pessoas percebem a mente e a saúde mental?
Todos podem ter impactos negativos. Depende do contexto. Há mitos relativamente inócuos numa conversa e devastadores numa decisão clínica, educativa, organizacional ou política. Pela atualidade, escolho o mito “Se disseres muitas vezes que vais conseguir, vais mesmo conseguir”.
É moralmente sedutor e politicamente confortável: transforma problemas complexos em culpa individual. Se não aconteceu, a falha é tua - não do contexto, dos recursos, das desigualdades, do acaso. Isto não é só mau para a saúde mental; é um atalho perfeito para desculpar instituições de fazerem o trabalho difícil.
Até que ponto é que a Psicologia, enquanto ciência, consegue desmistificar crenças populares? E quais são os limites da Psicologia, enquanto ciência?
A Psicologia é a ciência que estuda o comportamento e os processos mentais: pensamentos, emoções, tomada de decisão, memória, aprendizagem, motivação, influência social. Por isso, tem uma base extensa de investigação para explicar porque é que acreditamos em certas narrativas, porque é que repetimos erros e como se mudam comportamentos.
Os limites são claros: trabalha com probabilidades, contextos e variabilidade humana. Não é uma máquina de previsões individuais. Mas isso não a fragiliza. Torna-a honesta. O problema não é a Psicologia ter limites. O problema é o espaço público exigir certezas mágicas e depois chamar “fraqueza” ao método científico quando ele diz ... “depende”.
Há situações, no âmbito da mente e da saúde mental, em que certas crenças populares ainda são úteis, mesmo que não sejam cientificamente exatas?
Às vezes, sim - como heurísticas temporárias. Um ritual simples pode reduzir ansiedade; uma frase de encorajamento pode aumentar persistência. Mas utilidade não é verdade científica. O risco é quando a muleta passa a dogma. Aí deixa de ajudar e passa a enganar: cria expectativas irrealistas e culpa e substitui estratégia por wishful thinking.
No lançamento do seu livro, falou-se sobre o papel da Psicologia no combate à pseudociência. Como vê esse desafio nos dias de hoje?
Porque é um mercado de promessas. Promete controlo, rapidez e clareza num mundo ansioso e complexo. E não paga o preço da prova.
E há uma dimensão institucional delicada: a legitimação por enquadramento. Quando o Estado regula, reconhece ou permite determinados espaços de prática, muitas pessoas interpretam isso como “validação científica”, mesmo quando é apenas regulação do exercício. Isto confunde o público e cria ruído entre crença e evidência.
Exemplos: na Psicologia, uma miríade de pseudo intervenções pululam, como se fizessem parte desta ciência: eneagramas, constelações, programação neurolinguística, etc. Circulam com aura científica. Fora da Psicologia, práticas como homeopatia continuam a beneficiar de autoridade percebida. O combate sério não é moralismo. É literacia, regulação responsável e clareza pública: o que é testado, o que é plausível e o que é apenas tradição bem vestida.
Até que ponto a desinformação sobre Psicologia prejudica a saúde mental da população e até o recurso a ajuda profissional?
Há quatro danos típicos. Em primeiro lugar, o “autodiagnóstico” e rotulagem: termos clínicos usados como insulto ou identidade (“sou isto, ele é aquilo”) aumentam ruído e sofrimento. Em segundo lugar, o atraso na procura de ajuda: “isto resolve-se com vontade” ou “com pensamento positivo” pode adiar intervenção quando ela é necessária. Em terceiro, a culpa moral: quando a explicação vira julgamento (“se falhaste, não quiseste”), a pessoa sofre duas vezes. E, em quarto, a Inteligência Artificial como amplificador de erro: respostas plausíveis e erradas podem ser aceites como aconselhamento, sobretudo quando há baixa literacia e vulnerabilidade psicológica. E, em saúde mental, isto é especialmente perigoso: a confiança do texto pode ultrapassar a competência do conteúdo.
O risco contemporâneo é este: a desinformação deixou de ser apenas “um post”. Pode ser uma resposta automática, convincente, repetida e escalável.
Então, qual é o verdadeiro papel da Psicologia no contexto atual de “infoxicação” e redes sociais? O que podemos fazer para distinguir entre ciência sólida e “teorias” virais sem base?
A Psicologia explica por que a mentira cola: emoção, repetição, identidade grupal, e sensação de pertença. E oferece uma ferramenta: inoculação.
“Trocando por miúdos”: em vez de corrigir tarde, treina-se antes. Expõe-se a pessoa a exemplos de técnicas de manipulação (números mágicos, falsos especialistas, apelos à raiva, bodes expiatórios) em dose controlada, para criar resistência. É “vacinação psicológica”: não torna ninguém imune, mas reduz vulnerabilidade.
No quotidiano, traduz-se em hábitos simples: parar quando a mensagem provoca raiva imediata, separar facto de interpretação, procurar confirmação independente e desconfiar de absolutos.
Como podemos incentivar a literacia científica em Psicologia nas escolas, nos meios de comunicação e na sociedade em geral?
A literacia científica em Psicologia não se constrói com slogans, constrói-se com treino. O essencial não é decorar “factos psicológicos”. É aprender a distinguir entre uma afirmação plausível e uma afirmação sustentada por evidência. E isso pode - e deve - ser feito em três frentes.
Nas escolas, a prioridade é transformar pensamento crítico numa competência prática e transversal. Não chega dizer aos alunos “verifiquem as fontes”. É preciso ensinar como se reconhecem técnicas de manipulação e como se avalia uma afirmação: o que é dado, o que é opinião, o que é extrapolação. Um exemplo particularmente útil é o Bad News Game, que contribui para uma “vacinação psicológica”: expõe os alunos, num ambiente controlado, a estratégias típicas de desinformação - exagero, polarização, bode expiatório, falso especialista - para que, quando as encontrarem fora do jogo, as reconheçam e resistam. A lógica é: em vez de corrigir tarde, treina-se antes.
Nos meios de comunicação, o foco deve estar menos na caça ao “número viral” e mais em contexto e precisão. Há mitos que sobrevivem porque são bons títulos: “90% da comunicação é não verbal”, “só usamos 10% do cérebro”, “ouvir Mozart torna-nos mais inteligentes”. Estes temas não desaparecem com indignação. Desaparecem quando se explica, de forma acessível, o que o estudo original mediu, o que não mediu e por que razão uma conclusão espetacular é muitas vezes uma extrapolação abusiva. Uma boa regra editorial seria esta: sempre que um tema psicológico aparece com percentagens perfeitas ou promessas absolutas, deve soar um alarme interno, porque a mente humana é mais complexa do que frases feitas.
E qual é o papel dos agentes políticos?
Na sociedade e na política pública, a literacia tem uma dimensão especialmente sensível: distinguir entre conhecer perceções e governar por perceções. Um Governo tem de medir perceções - de segurança, de confiança, de bem-estar - porque elas influenciam o comportamento coletivo. Mas, medir perceções não pode ser substituto de decidir com base em factos e impacto real. Quando se governa para produzir perceções, abre-se espaço a manipulação, estigmatização e desinformação. E o custo é a confiança institucional. Num tempo em que temas como migrações, segurança e polarização vivem muito de narrativas emocionais, esta distinção é decisiva.
Em suma, promover literacia científica em Psicologia implica ensinar método, não apenas conteúdo. Implica treinar resistências cognitivas, melhorar a higiene informativa dos media e exigir, na política, que a comunicação pública seja informada por evidência e não por exploração de medo ou indignação.
Que mito da Psicologia gostaria de ver finalmente desmistificado nos próximos anos?
A ideia de que “as pessoas são irracionais por natureza, logo é aceitável governar explorando medo e raiva”.
A Psicologia mostra vulnerabilidades cognitivas, sim. Mas também mostra que ambientes informativos melhores aumentam a reflexão e reduzem a polarização. Normalizar a manipulação como método político é institucionalmente corrosivo. E, no fim, sai caro.
Selecionei cinco mitos dos que enumera no seu livro para que os desmistifique de uma forma breve:
“Mais trabalhos de casa = melhor aprendizagem”.
O que a evidência sugere é que não é uma questão de “mais”. É de qualidade, adequação e feedback. Trabalhos de casa podem ajudar a consolidar aprendizagens, sobretudo quando são bem desenhados e revistos. Em excesso, ou mal calibrados, tendem a aumentar stress, desmotivação e desigualdades entre alunos com contextos familiares muito diferentes.
“Se dissermos muitas vezes que conseguimos, conseguimos mesmo”.
A motivação e a autoafirmação podem ser úteis, mas não funcionam como mecanismo mágico. Sem plano, competências, treino, condições e ajustamento contínuo, a repetição não cria resultados por si só. O risco é moral: quando falha, a pessoa interpreta como falha de carácter (“não quis o suficiente”).
“Os opostos atraem-se”.
Diferenças podem ser interessantes no início, mas a investigação tende a apontar para a importância de compatibilidades (valores, objetivos, expectativas e estilos de vida) na estabilidade. “Opostos” pode funcionar em casos específicos. Como regra geral é uma simplificação romântica.
“Autoestima elevada é o passaporte para o sucesso”.
Autoestima pode proteger em alguns momentos, mas não substitui competências, disciplina, apoio e contexto. E autoestima inflacionada pode até trazer custos (defensividade, intolerância à crítica). O que tem melhor suporte como preditor de desempenho é, muitas vezes, autoeficácia e competência real.
“Só usamos 10% do nosso cérebro”.
No mito “só usamos 10% do cérebro”, a sedução está precisamente na promessa de um potencial oculto: como se tivéssemos, algures no crânio, uma “ala fechada” à espera do curso certo, da técnica certa, do guru certo. A evidência neurocientífica não apoia essa ideia.
O cérebro é um órgão metabolicamente caro e, mesmo em tarefas quotidianas simples, há atividade distribuída por múltiplas redes, com diferentes áreas a entrarem e saírem de cena consoante o que estamos a fazer - linguagem, atenção, memória, controlo motor, emoção, etc. Não significa que usemos “tudo ao máximo” ao mesmo tempo, mas significa que não há um “90% parado” em estado de hibernação funcional.
O mito persiste por razões psicológicas que o próprio livro explora: dá uma esperança fácil, simplifica o que é complexo e encaixa bem numa cultura de auto otimização, em que a narrativa mais vendável é a do desbloqueio - “se eu descobrir o segredo, vou tornar-me extraordinário”. É uma história bonita. Só não é ciência.