"Um processo racional e lógico" ou a "pobreza intelectual" dos "aprendizes de feiticeiros"? O que faz um "mental coach" e quais os riscos desta atividade

31 mar 2023, 09:12
Life coaching (GettyImages)

São cada vez mais os que procuram os serviços de um "treinador mental" ou "life coach". Querem mudar alguma coisa na sua vida, ser mais produtivos no trabalho, obter melhores resultados desportivos. Mas o que é afinal o coaching? Um psicólogo e uma coach dão os seus pontos de vista - muito diferentes - sobre esta atividade e os seus riscos

Pretende ter relacionamentos estáveis e deixar as relações tóxicas? Quer melhorar a sua relação com o dinheiro? Quer alcançar uma vida melhor e não consegue? Estas são as perguntas feitas na apresentação de um site de "life coaching". E continuam: sente-se com falta de energia e motivação?  Pretende reduzir os níveis de stress e de ansiedade? Quer saber lidar com a sua imagem?

Quem não quer ter uma vida melhor?

Mas como é que o coaching pode ajudar? Cristina Borges, coach profissional, explica que "o coaching é um processo de desenvolvimento humano com o objetivo de alcançar determinados objetivos do coachee [o cliente]. É um processo racional, lógico, que usa métodos e instrumentos testados, para atingir objetivos concretizaveis. O coach [treinador] é um parceiro, a sua função é inspirar, acompanhar e dar ferramentas ao coachee para que ele possa potenciar as suas capacidades e libertar-se dos bloqueios que o impedem de chegar aonde quer chegar".

"O coaching é sobre aprender a atingir objetivos. É o próprio coachee que aprende, que melhora as suas capacidades", sublinha Cristina Borges. "O coach desafia, faz perguntas, mas é o coachee que dá as respostas. O coach não é um conselheiro, não dá sugestões nem opiniões, não é um amigo confidente". Além disso, "todas as sessões de coaching terminam com um plano de ação, há um grau de compromisso do coachee para executá-lo". Só assim se conseguem resultados, garante.

No entanto, o psicólogo Jaime Ferreira da Silva tem dúvidas sobre os métodos e a eficácia do coaching. "Quem é que não quer ter uma solução simples para um problema complexo?", pergunta o presidente do Conselho de Especialidade de Psicologia do Trabalho, Social e das Organizações da Ordem dos Psicólogos Portugueses. Na sua opinião, o coaching, tal como é praticado pela maioria dos coachs que anunciam os seus serviços na internet, assemelha-se bastante a uma fraude.

Nas últimas semanas, o coaching tem estado no centro das atenções devido à troca de acusações pública entre o futebolista Éder, que em 2016 marcou o golo que valeu a conquista do Europeu a Portugal, e a sua então "mental coach", Susana Torres. Num post publicado nas redes sociais esta terça-feira, Éder acusou Susana Torres de "aproveitamento" do seu sucesso. 

 

Coaching psicológico não é o mesmo que "life coaching"

Segundo a Ordem dos Psicólogos, o coaching psicológico é uma área de intervenção e uma especialização avançada da Psicologia, que tem como objetivo a melhoria do bem-estar, o desenvolvimento de competências e a exploração do potencial de indivíduos ou grupos funcionais (ou seja, população não-clínica), utilizando teorias e técnicas cientificamente validadas para ajudar as pessoas a atingir mudanças estruturadas e sustentadas nas suas vidas profissionais e pessoais. 

Isto significa que para se fazer coaching psicológico é preciso, primeiro, ser psicólogo e, depois, ter 1600 horas de prática clínica e fazer uma pós-graduação. "São necessários oito ou nove anos de estudo", garante Jaime Ferreira Silva. "O coaching enquanto prática foi formulado pela associação americana de psicologia nos anos 40. É um ato psicológico que visa o treino de competências e mudança de comportamentos", esclarece o psicólogo que desde 1984 trabalha nesta área, sobretudo com empresas e com desportistas, mas não só.

"O coaching não se confunde com a psicoterapia, embora parta de princípios semelhantes", sublinha. A psicologia é uma ciência social, a psicoterapia é um tratamento. Já o coaching é um serviço vendido a um cliente. Um "treinador mental" não é um psicólogo nem se apresenta como tal, não diz que faz coaching psicológico. "Não pode", afirma Jaime Ferreira da Silva. É por isso que são usadas expressões como "life coach" ou "mental coach".

E o que é preciso fazer para se tornar um destes "coaches"? "Basta pagar", responde o psicólogo. Há vários cursos disponíveis, em formato presencial ou online, podem durar um fim de semana, 100 horas ou até mais. "Existe uma autêntica indústria de formação de coachs. Os cursos estão abertos a todas as pessoas desde que paguem, não é preciso ser psicólogo. No final obtém-se uma certificação mas não há nenhuma entidade independente que garanta a validade dessas certificações", acusa.

Jaime Ferreira da Silva participou em três encontros de coaching precisamente para perceber o que é que ali acontece e concluiu que "o substrato de conhecimento é paupérrimo. Indicam livros e invocam alguns conceitos teóricos, retirados da psicologia mas renomeados, mas no geral há uma grande pobreza intelectual", diz, identificando ainda um certo "pensamento populista" - dá-se às pessoas o que elas querem, prometem-se soluções. "Mas não basta um manual, cada pessoa é única, por isso não se podem aplicar receitas, é necessário um conhecimento científico mais profundo."

"Aprendizagem, motivação, comportamento - isto é o que o coaching trabalha, mas isto é psicologia. O mental coaching é apenas uma renomeação fraudulenta de um ato psicológico. E o coach é um falso psicólogo", acusa Jaime Ferreira da Silva, que chama a estes profissionais "aprendizes de feiticeiros".

E deixa um alerta para os "5 A": pessoas que têm Apetência por mudar de trabalho sem grande esforço (antes de serem coachs eram contabilistas, informáticos, etc.); existe uma Ausência de conhecimento certificado em psicologia; mas em compensação têm bastante Atrevimento, Ausência de escrúpulos e Atração pelo palco. Quando se junta isto tudo, estão todas as bandeiras vermelhas bem levantadas, diz o psicólogo.

Ordem dos Psicólogos alerta para riscos para a saúde e necessidade de regulamentação

"O coaching é um 'negócio' não regulado, pautado por muitas pseudo-qualificações, acreditações sem significado e 'grandes nomes' auto-reconhecidos como 'líderes' na matéria, que usam a denominação coaching para se promoverem. Qualquer pessoa se pode auto-denominar "Coach Certificado", qualquer pessoa pode criar uma organização de formação para coaches", avisou a Ordem dos Psicólogos num parecer emitido em 2016.

"Embora um conjunto de competências de gestão e consultadoria possam ser bastante úteis neste mercado, sempre que um coach trabalha em temas que requerem um desenvolvimento cognitivo e emocional significativo, então o coaching deve ser realizado por psicólogos. A situação contrária poderá significar riscos significativos para o cliente", avisa a Ordem.

"Construir uma relação (terapêutica) coach-coachee e aplicar estratégias psicológicas exige uma formação sólida, muitas horas de prática e o seguimento de um Código Deontológico. Quando se trabalha para ajudar alguém é dever do profissional assumir a responsabilidade de acompanhar o cliente para além dos resultados positivos imediatos - a euforia e as emoções positivas iniciais transformam-se muitas vezes em depressão após o confronto com a realidade", sublinha o parecer da Ordem, questionando: "Estarão outros profissionais, com outras formações de base, dispostos a assumir a responsabilidade a que um profissional da Psicologia se compromete?"

Para Jaime Ferreira da Silva a resposta é óbvia: "O coach aproveita-se das fragilidades das pessoas e do facto de ainda haver um certo estigma em relação à psicologia, muitas pessoas preferem contratar um coach porque é mais conhecido e promete apresentar resultados sem passar por todo o processo terapêutico, que nem sempre é fácil. Quem é que não quer resolver os seus problemas?", lança o psicólogo, que afirma receber todos os anos no seu consultório "pessoas que são vítimas dessas intervenções fraudulentas".

Coaching "não é dizer que tudo é possível e tu consegues tudo"

No entanto, Cristina Borges garante que um bom coach respeita o trabalho do psicólogo e do psiquiatra e não tenta substituí-los. "Há pessoas que procuram um coach quando deviam procurar um psicólogo - nesse caso nem se inicia o processo, faz-se logo um reencaminhamento. Nós respeitamos os outros profissionais, isso faz parte do nosso código de ética", explica.

Esta profissional explica que o coaching reúne uma série de conhecimentos, técnicas e ferramentas que são comuns a outras disciplinas: alguns vêm da psicologia (numa corrente mais humanista ou mais positiva), alguns da linguística e neuro-linguística, alguns da gestão. "É um corpo muito heterogéneo, que reúne um vasto conhecimento técnico" - essa abordagem diversificada é uma das razões da sua eficácia, alega.

Segundo Cristina Borges, as pessoas procuram um coach por motivos muito diferentes. Há quem queira formas de obter mais satisfação na sua vida, no trabalho ou numa relação. Quem sinta que precisa de um propósito, de encontrar algo que as realize. Querem ser felizes ou ser mais saudáveis. No âmbito empresarial, a atividade do coach pode ajudar, por exemplo, a aumentar a produtividade, a encontrar motivação, a perceber como se pode relacionar com as chefias ou como pode ser um melhor líder. No caso do desporto, os atletas contratam os coachs para obterem melhores níveis de performance - para ajudar a organizar o sono, os treinos, a alimentação; perder o medo após uma lesão; resolver bloqueios emocionais que possam estar a prejudicá-los. 

"Estamos num âmbito que não é de foro terapêutico. Qualquer objetivo pode ser alcançável, desde que seja de facto racional. Não são sonhos. Não é dizer que tudo é possível e tu consegues tudo", explica a coach. "É um trabalho muito consciente e com muito respeito pelo ser humano. Ajudamos o coachee a perceber o que tem de mudar mas também o impacto que essas mudanças poderão ter na sua vida, de forma sistémica."

Um coach não se confunde com um palestrante motivacional

Cristina Borges fez a sua formação em Direito mas, há 17 anos, percebeu que essa área não a satisfazia. Decidiu então mudar completamente a sua carreira e dedicar-se ao coaching. Em 2017, foi a principal impulsionadora da Sociedade Portuguesa de Coaching Profissional (SPCP), de que é atualmente presidente, que congrega um grupo alargado de profissionais e tem entre os principais objetivos "contribuir para a divulgação de boas práticas da profissão", explica.

A SPCP aceita profissionais de diferentes escolas, desde que tenham certificação e a sua formação cumpra alguns requisitos: "Para nós é fundamental que a formação tenha uma componente prática. O coaching exige um enquadramento teórico e técnico mas é, sobretudo, praxis. Não basta ouvir palestras", diz. Além disso, é também essencial "o compromisso com um código de ética e de boas práticas, que inclua, por exemplo, a confidencialidade e outras questões".

"Não é qualquer pessoa que diz que é coach que é, de facto, coach", sublinha. "Esta é uma atividade recente e que cresceu muito nos últimos anos, e isso gera muito ruído e alguma desregulação, que provocam a desconfiança na sociedade. É muito importante diferenciarmos o papel do coach profissional de outras atividades - como palestrantes motivacionais e influenciadores digitais que lançam frases bonitas no instagram e fazem promessas de resultados extraordinários e muito rápidos. Isso não tem nada a ver com coaching."

"Entedemos que coaching é uma palavra que tem sido muito 'abusada' e queremos trazer alguma seriedade a esta atividade", diz Cristina Borges.

Um alerta a todos: informem-se antes

Não havendo uma verdadeira regulamentação, é importante que as pessoas que procuram estes serviços se informem e procurem saber o máximo possível sobre a certificação do coach que estão a contratar. Nisso, Cristina Borges e Jaime Ferreira da Silva estão de acordo. "Pessoas telegénicas, que se tornam influencers e têm muitos seguidores" não são, necessariamente, bons profissionais de coaching, avisa o psicólogo.

O aviso da Ordem dos Psicólogos é bem claro:

  • o recurso ao coaching "não deve ser utilizado em casos onde se verifique a existência de problemas de saúde psicológica";
  • "a prática da psicologia e a prestação de serviços psicológicos por profissionais não qualificados coloca uma ameaça à saúde pública, assim como à segurança e ao bem-estar da população, pelo que deverá ser ponderado com extrema cautela".

 

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