O Psicólogo Responde é uma rubrica sobre saúde mental para ler todas as semanas. Tem comentários ou sugestões? Escreva para opsicologoresponde@cnnportugal.pt
Viver com um familiar com demência é um desafio emocional constante. Quando surgem comportamentos como a acumulação de objetos, o desgaste pode aumentar - tanto para a pessoa com demência como para quem cuida.
Mas porque acontece e o que pode ser feito?
O que é a Demência?
A demência é uma condição marcada pelo declínio progressivo das funções cognitivas, suficientemente grave para interferir na autonomia e nas atividades da vida diária.
A diminuição progressiva das competências cognitivas pode ser denotada nos esquecimentos frequentes de conversas e acontecimentos recentes (memória), na maior desatenção e lentificação, na dificuldade em reconhecer objetos (agnosia), na dificuldade em encontrar palavras (linguagem), no perder-se em lugares familiares (orientação), representando uma perda em relação ao funcionamento prévio da pessoa.
Importa sublinhar que a demência não é uma doença única, mas um termo que engloba diferentes patologias que afetam o cérebro.
Quais as mudanças comportamentais e emocionais?
Para além das alterações cognitivas, a demência pode envolver mudanças comportamentais e emocionais. Entre as mais frequentes, podemos destacar:
Agitação e Agressividade: Manifestam-se através de agitação psicomotora, gritos, vocalizações repetitivas, irritabilidade, comportamentos agressivos (verbais ou físicos) e resistência à prestação de cuidados, como tomar banho ou vestir-se.
Desinibição Social e Sexual: Inclui comportamentos socialmente inadequados, comentários impróprios e atitudes de desinibição sexual, desajustadas ao contexto social.
Vagabundagem e Deambulação: Caracteriza-se por andar sem destino definido, perder-se com facilidade e apresentar comportamentos repetitivos, como arrumar e desarrumar objetos ou roupas.
Acumulação e Esconder Objetos: Envolve a procura constante, o esconder ou a acumulação inadequada de objetos, muitas vezes sem utilidade aparente.
Alterações do Apetite e do Sono: Podem surgir comportamentos como ingestão alimentar excessiva, recusa alimentar, insónia ou inversão do ciclo sono–vigília.
“Síndrome do Pôr do Sol” - Sundowning: Observa-se um agravamento da agitação, da confusão e da ansiedade ao final da tarde ou no início da noite.
Apatia e Desinteresse: Caracterizam-se pela perda de iniciativa, motivação e interesse por atividades que anteriormente eram prazerosas.
Ansiedade e Medo: Manifestam-se através de nervosismo, inquietação e comportamentos de dependência.
Depressão e Tristeza: Incluem alterações do humor, sentimentos de desvalorização pessoal, desesperança e choro fácil.
À medida que a condição clínica evolui, a pessoa tende a perder gradualmente a autonomia, necessitando de apoio crescente para tarefas básicas como gerir dinheiro, tomar medicação, vestir‑se ou cuidar da higiene pessoal.
Face à diversidade de alterações cognitivas, comportamentais e emocionais, bem como à fase de evolução do quadro clínico‑funcional, as pessoas podem apresentar características distintas.
O diagnóstico é essencialmente clínico, baseado na avaliação dos sintomas, da história pessoal e funcional e na observação do impacto na vida diária. Exames complementares podem ser utilizados para identificar a causa subjacente e excluir outras condições. Embora muitas formas de demência não tenham cura, a identificação precoce permite implementar estratégias que podem abrandar a progressão dos sintomas e melhorar a qualidade de vida da pessoa e dos seus cuidadores.
Porque é que as pessoas com demência acumulam coisas?
À medida que a doença evolui, algumas pessoas começam a guardar ou acumular objetos (roupa, sacos, sapatos, brinquedos, coisas da rua), muitas vezes porque sentem que “um dia pode fazer falta”, porque perdem o sentido crítico ou porque esse gesto lhes dá segurança, ou até mesmo porque se esqueceram onde o arrumaram da última vez.
Confrontar a pessoa resolve o problema?
Discutir ou confrontar diretamente: “isto é lixo”, “tu estás doente”, “não sabes o que fazes”, não é opção. Em vez disso, pode ser mais útil: falar com calma, em momentos mais tranquilos, focando-se no bem‑estar. Dizer “estamos preocupados contigo”, “queremos que te sintas confortável em casa”, tentar envolver pessoas reconhecidas pela pessoa com demência, e negociar pequenos passos em vez de grandes mudanças.
Então o que pode ser feito?
É possível intervir, mas trata‑se de um processo gradual, centrado sobretudo na validação, ausência de confronto, reforçando a segurança, a organização do ambiente, reforço de rotinas, na comunicação/validação, mais do que em tentar “convencer” a pessoa com demência de que existe um problema.
- Compreender a situação e comunicação: As pessoas com demência podem apresentar falta de consciência da doença e das suas dificuldades. Não se trata de teimosia, mas de uma consequência das alterações cerebrais, pelo que o confronto direto e a argumentação lógica tendem a ser ineficazes. Contribuem para o aumento do conflito e podem potenciar outro tipo de sintomas (ex.: agitação e ansiedade);
A acumulação de objetos pode reduzir a ansiedade, transmitir sensação de controlo ou ter valor afetivo. Este comportamento pode ser a resposta a memórias do passado (guardar objetos que lhe tentaram tirar), resposta à sensação de perda, ou até mesmo, a pessoa com demência procurar algo que acredita ter desaparecido e tende a acumular objetos de forma a garantir que estes não se perdem.
A utilização de uma linguagem colaborativa como “vamos guardar o que é mais importante” ou “o que precisa de guardar?” em vez de proibições diretas e de contrariar crenças, oferecendo escolhas limitadas e concretas: “percebo que isto é importante para ti”.
Priorizar a segurança: A acumulação de objetos aumenta riscos relevantes, como quedas e problemas de higiene. Assim, deve tentar manter corredores, portas, cozinha e casas de banho desobstruídos. Por vezes é mesmo necessário remover objetos do chão nas zonas de circulação, assim como limitar o acesso a áreas específicas da casa para reduzir a acumulação em espaços críticos.
Organizar o espaço: Criar espaços previamente definidos, ou seja, sendo desejável que esse local seja onde a pessoa, habitualmente, guarda os objetos, com caixas ou armários devidamente identificados com os objetos valorizados pela pessoa com demência, permitindo organizar o ambiente e reduzir gradualmente o volume acumulado. Realizar arrumações em colaboração, com tarefas simples e pausas sempre que surgir agitação. Os cuidadores podem também apoiar na manutenção da arrumação dos objetos nos locais definidos.
Identificar: Criar cores, símbolos, palavras e rotinas de acesso aos locais onde as caixas / gavetas estão guardadas com os objetos.
Oferecer alternativas: Na presença de um comportamento de acumulação facilitar o acesso aos objetos devidamente armazenados, ou ponderar a realização de atividades alternativas (ex.: passeios, jogos) ou companhia para desviar o foco de atenção, prevenindo a inatividade e /ou isolamento, que agravam o problema.
Quando procurar ajuda profissional?
A avaliação por profissionais de saúde com experiência em demência (médico e/ou psicólogo) é fundamental para enquadrar o quadro clínico e ajustar intervenções. Para os cuidadores, recorrer a apoio de profissionais e/ou grupos de apoio pode ser determinante para reduzir o cansaço e o isolamento.
Em síntese
A gestão da acumulação de objetos em pessoas com demência exige paciência, empatia e estratégias de comunicação não confrontativas. Validar emoções, criar espaços dedicados para objetos e priorizar a segurança familiar, evitando discussões que aumentam ansiedade, recorrer a apoio profissional e grupos de cuidadores são medidas para reduzir o impacto no ambiente e na dinâmica familiar, promovendo bem-estar para todos.