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Rio já estava no chão, mas Cavaco ainda lá foi dar mais uns pontapés

4 jun, 19:17

Pode pensar-se o que se quiser sobre Cavaco Silva. Podemos gostar da personalidade ou detestar. Podemos admirar a obra feita ou desprezá-la. Podemos considerá-lo um bom político ou do pior que já aconteceu a Portugal. Mas há duas coisas que ninguém pode negar: que quando se fala de Cavaco Silva nunca há cinzentos e que dificilmente alguém lhe consegue ficar indiferente. Pelos melhores ou pelos piores motivos.

Cavaco Silva ganhou, por direito próprio, um lugar de destaque na democracia portuguesa. Não apenas por ter sido o político no ativo durante mais anos, mas pela forma esmagadora com que quase sempre conquistou o poder. Goste-se ou odeie-se a personalidade política, os eleitores deram-lhe, democraticamente, mais vezes legitimidade do que a qualquer outro líder político.

Isso não faz dele nem uma espécie de Deus político, nem alguém que, por já não estar na vida política ativa, perdeu os seus direitos cívicos. Na sua condição de ex (ministro, presidente do PSD, primeiro-ministro e presidente da República) Cavaco Silva tem todo o direito a intervir, sempre que julgue conveniente, opinando sobre a vida interna do seu partido de sempre ou sobre o país.

Mas, com este extenso currículo político, vem também uma extensa responsabilidade institucional. E, a espaços, Cavaco Silva parece esquecer-se disso. Sobretudo na forma.

Comecemos pelo artigo de opinião meticulosamente escrito e publicado esta semana no Observador. Cavaco não gostou de ouvir António Costa, na sua tomada de posse, referir-se às maiorias absolutas de Cavaco e eu, confesso, também não. Não apenas por vir totalmente a despropósito, mas por aquilo que revela: um ressabiamento do primeiro-ministro contra Cavaco que vem desde 2015, quando o então Presidente da República lhe deu posse de forma tão relutante e com tantas condições. A referência a Cavaco foi, por isso, não apenas desnecessária, mas provocatória.

Cavaco podia ter-se ficado e deixado o ónus no primeiro-ministro. Mas, tal como Costa, também ele não resistiu. Porque a verdade é que o ressabiamento de um é o ressabiamento do outro.

Mas, na realidade, o artigo que parecia ter como único alvo o atual primeiro-ministro António Costa, tinha, na verdade, um outro destinatário: Rui Rio.

Como se veio a comprovar na entrevista dada dois dias depois à CNN Portugal, Cavaco Silva não só se sentiu acossado pelos remoques de António Costa, mas sentiu também que o seu partido, o PSD, não soube, não quis, não esteve à altura do seu legado. E, pior, descaracterizou-se e tornou-se irreconhecível.

Com Rui Rio politicamente no chão, Cavaco decidiu aparecer para o pontapear uma, duas, três e outra vez. Apontou-lhe os erros políticos, acusou-o de ter permitido a humilhação do PSD e de ser o grande responsável pelo estado calamitoso em que se encontra o PSD.

E tem razão no essencial. O Partido Social Democrata só existe se conseguir afirmar-se como alternativa ao Partido Socialista. Qualquer outro caminho, é uma via rápida para a irrelevância e, consequentemente, para o desaparecimento. Duvido que haja hoje em Portugal um eleitor que consiga explicar o que é o PSD? Que modelo económico defende e que visão tem para o país. Se está mais próximo do PS ou do IL e do Chega. E tudo isto é demérito da liderança de Rui Rio.

Mas, de tudo isto, sobram-me duas grandes interrogações: porquê agora, que Rui Rio está de saída? E como é que Cavaco, três décadas depois de ter governado o país, consubstancia as reformas que diz serem necessárias?

Talvez esse tivesse sido um exercício mais útil, em vez da velha estratégia a que Cavaco Silva nunca resiste, que é a de criticar os outros, elevando-se a si mesmo. Como se o seu ego dissesse mata e o alter ego dissesse esfola.

Espelho meu, espelho meu, houve algum primeiro-ministro melhor do que eu? Não. Espelho meu, espelho meu, houve algum presidente do PSD melhor que eu? Nunca. Espelho meu, espelho meu, haverá porventura, algum Presidente da República mais capaz do que eu? Que ideia. Nem pensar.

Como diria o próprio Cavaco Silva: “nobody is perfect”.

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