Folhetim de voto: As eleições em que tudo (mesmo tudo) pode acontecer

28 jan, 07:34
Campanha do PS em Setúbal

Com PS e PSD em empate técnico em todas as sondagens, Costa e Rio dão tudo pelo voto útil. Pode haver vitória rosa ou laranja, maioria de esquerda ou de direita. Até pode haver vitória do PS com a direita em maioria, o que permitiria uma geringonça de direita… que precisaria do Chega. Mas também pode haver “acordo de cavalheiros” no bloco central. No último Folhetim de Voto antes das eleições, o jornalista de política Filipe Santos Costa faz a análise do que aconteceu na campanha e do que pode acontecer no domingo. De A a Z, de Absoluta a Zé Albino.

Absoluta. António Costa tem fama de ser habilidoso na política e desastroso nas campanhas. Ambas as famas são justas. Em 2015 foi ultrapassado durante a campanha pela coligação PaF, em 2019 hesitou em carregar no acelerador da maioria absoluta quando talvez tivesse argumentos para isso, e em 2021 apostou as fichas nesse argumento sem ter base para tal. Foi um tiro na água que se revelou um tiro no pé. Nas últimas décadas já se viu quase tudo sobre a conversa das maiorias absolutas em campanha eleitoral: houve quem a exigisse, houve quem recorresse a eufemismos como “maioria reforçada” ou “maioria estável”, houve quem ignorasse o assunto e quem se dispusesse a negociar depois a maioria que lhe faltasse nas urnas - nunca se tinha visto um mesmo candidato a fazer esses discursos todos em fases diferentes da mesma campanha. Em duas semanas, Costa saltou da hesitação eufemística para a arrogância absolutista, e acabou na humildade dialogante. Um homem para todas as estações.

 

Berbicacho. Marcelo Rebelo de Sousa anda desaparecido. Eclipsou-se ainda antes da campanha, apesar de ter sido invocado em vão por Costa como garantia de que nenhum perigo resultaria de uma mirífica maioria absoluta. Mas na segunda-feira recomeça o bom velho frenesi marcelista. Contados os votos, volta a ser ele o protagonista principal. Por ter sido o juiz que decidiu levar o país a votos, após o chumbo do Orçamento, e porque terá de ser ele a resolver o problema se houver “berbicacho”. E tudo indica que haverá, com a proximidade entre os dois maiores partidos e entre os lados esquerdo e direito do Parlamento. 

O risco de as eleições deixarem tudo na mesma não parece existir, pois haverá ajustes importantes na correlação de forças, e todos favoráveis à metade direita do Plenário. Mas também é pouco provável que a situação seja de grande estabilidade. Um quadro pós-eleitoral pouco claro pode ser sinónimo de instabilidade mas também será de protagonismo para o Presidente da República. E, como bem se sabe, Marcelo nunca foi homem de recusar ser o centro das atenções. É até provável que tente tutelar o governo e aumentar ainda mais a sua centralidade no sistema. E pode mesmo ser o promotor de um “acordo de cavalheiros” entre os dois maiores partidos - uma ideia que há tempos saiu do Palácio de Belém e aterrou nas páginas dos jornais, e que agora parece ter entrado no léxico do “centrão”.

 

Centrão. Apesar da radicalização do discurso e da polarização política a que se tem assistido; apesar de vários partidos ditos pequenos terem tido mais visibilidade do que nunca, com alguns a poder crescer de forma significativa, é provável que o peso do “centrão” saia reforçado no domingo. Ontem, a tracking poll da CNN dava aos dois partidos do centro 68%. É mais do que tem acontecido em várias eleições legislativas, e veremos se o voto útil não empurra esse valor conjunto outra vez para cima dos 70%.

Em 2019, Costa olhou para um resultado que reforçava o PS e reforçava a esquerda toda, e concluiu que o eleitorado estava a pedir outra vez um entendimento à esquerda liderado pelo PS. E se agora o grande reforço for dos dois partidos do centro, sem maiorias claras de esquerda nem de direita? Costa concluirá que o eleitorado quer entendimentos ao centro? Rio já disse que sim - o segundo partido mais votado deve deixar governar o primeiro.

Na quarta-feira à noite, aqui na CNN Portugal, o socialista Augusto Santos Silva lançou a hipótese de um “acordo de cavalheiros entre os dois partidos maiores, no sentido de um facilitar a vida ao que formar governo”, impedindo, de caminho, que o Chega cheire o poder. O social-democrata David Justino concordou. Mas Santos Silva não se limitou a verbalizar o entendimento ao centro que Costa nunca admitiu. O ainda ministro dos Negócios Estrangeiros admitiu, embora como último cenário, que “no limite podia ser necessária uma solução de bloco central. Ninguém a pode afastar.” 

 

Debates. Foram bastantes, e foram úteis. O formato curto beneficiou os soundbites, a série longa prejudicou quem só trazia soundbites. Revelaram propostas e desmascararam omissões. O trabalho de casa compensou, a preparação deu frutos, a ambiguidade mostrou os seus limites, a clareza foi esclarecedora, a opacidade por vezes também. Mostraram as verdadeiras cores de uns e sombras desconhecidas de outros. Costa apostou em gerir uma vantagem que talvez fosse ilusória, Rio voltou a enganar toda a gente como um falso lento, Catarina, a boa atriz, levou o guião bem estudado. Jerónimo desapareceu em combate, Chicão renasceu em combate, Ventura foi o espalha-brasas que apareceu de lança-chamas. Cotrim provou que os memes podem ter vida fora das redes sociais, Sousa Real não foi carne nem peixe, e Rui Tavares nasceu uma estrelinha. As audiências recompensaram-nos.

 

Espetáculo. O cantor Emanuel-Nós-Pimba abrilhantou alguns comícios do PSD acompanhado pelo seu corpo de baile. Noutros comícios, havia uma dupla que fazia umas rábulas-tipo-revista-à-portuguesa. Uma presença inesperada, porque Rio passou anos a dizer que não gosta de política-espetáculo. Afinal, só não gosta quando não pode. Há dois anos também dizia que não gostava de arruadas e que isso era uma forma ultrapassada de fazer política, mas era apenas porque não tinha apoio partidário que lhas garantisse - este ano, com mais máquina e mais mobilização, não quis outra coisa. Rio, o genuíno, o autêntico, é especialmente genuíno nas suas contradições e incoerências - pode fazer e dizer tudo e o seu contrário porque em cada momento está a ser “genuíno” e “autêntico” no que faz e diz. Por isso critica a “justiça de tabacaria” mas não hesita em condenar publicamente Rui Moreira antes deste ser julgado (e absolvido); por isso ataca as sondagens o tempo todo, menos quando as aproveita para proclamar que “o dr. António Costa está na iminência de perder as eleições”; por isso exige que a política seja uma coisa muito séria e sem brincadeiras, menos quando tenta disfarçar uma calinada com a desculpa de que era “bricadeira”. As contradições e incoerências tornam-no diferente dos outros políticos? Não. E é mesmo essa a questão: Rui Rio construiu o mito da sua própria excepcionalidade, e passa a vida a dizer que é um político “diferente dos outros”. Não é. A não ser na arrogância de julgar que sim.

 

Fascismo. André Ventura, o provocador-mor do reino, aproveitou o congresso do seu partido, em vésperas da campanha eleitoral, para colar ainda mais ao seu partido a memória do Estado Novo. “Deus, Pátria, Família e Trabalho”, as verdades inquestionáveis do tempo da outra senhora, fizeram o novo pregão do Chega, que o mistura com um pout-pourri dos discursos de ódio que ouve na boca dos seus congéneres da extrema-direita europeia. O PCP agita o regresso do “fascismo”; Fernando Rosas, fundador do BE e historiador com muito trabalho sobre o salazarismo, discursou esta semana sobre este regresso da “barbárie” “antidemocrática”. Ventura, esse, não elabora. É tudo básico, a preto e branco, diretamente da conversa de café. É um mundo de “bandidos” contra “portugueses de bem”. Depois há todo o rol de epítetos que Ventura dispara aleatoriamente, sem outro propósito que não seja dividir as águas, de acordo com critérios de sua conveniência: os “corruptos”, os “mariquinhas”, os “ladrões”, a “vergonha”, os “subsidiodependentes”, os “preguiçosos”, as “minorias”. Num partido com demasiado cadastro para tão pouca história, a melhor defesa é o ataque, o melhor truque é a provocação e o melhor argumento é o ruído.

 

Geringonça. A geringonça original estará mesmo morta ou ainda respira? Começou a campanha com certidão de óbito passada e assinada por António Costa, indisponível para voltar a contar com os dois parceiros que deixaram de ser “confiáveis” depois de chumbarem o Orçamento. Mas voltou a ter pulso, desde que Costa teve de mudar a cassete da maioria absoluta para o chip do “falar com todos menos com o Chega”. A esquerda desconfia, mas não virou a cara - a mudança de Costa também alivia a pressão para o voto útil à esquerda. O PCP apresenta-se como o partido da “convergência”; o BE marcou reunião para dia 31 e quer ser o notário dos novos acordos. Nada indica que se concretizem, mas afinal ainda ninguém desligou a máquina à velha geringonça.

Mas ninguém julgue que geringonça há só uma, a da esquerda e mais nenhuma. Uma geringonça não é simplesmente uma coligação - é um entendimento de forças políticas, ainda que sem coligação formal, para permitir uma maioria de governo, mesmo sem incluir o partido mais votado nas eleições. Ora, pode acontecer outra vez isso… mas desta vez à direita. 

Apesar do empate técnico, quase todas as sondagens dão ligeira vantagem ao PS. Mas com possibilidade de haver mais deputados de direita. Esse é um cenário perfeitamente possível. Para isso, basta que o PS ganhe com pouca vantagem sobre o PSD, e o Chega e a Iniciativa Liberal suplantem o PCP e o BE, como prevêem vários estudos. A ser assim, Costa pode ser o mais votado, mas a soma de deputados PSD+Ch+IL+CDS (admitindo que o CDS eleja) superar os deputados de toda a esquerda. Nesse caso, tudo dependerá da articulação entre Rio e Ventura. E então se perceberá, de facto, se havia uma estratégia por detrás da bonomia com que tantas vezes Rio tratou o líder da extrema-direita.

 

História. “A História explica” é o tipo de frase que serve para tudo, sem responder a nada. Foi a resposta de Costa quando questionado, no debate a 9 na televisão, sobre por que razão vários países de Leste ultrapassaram Portugal nos últimos seis anos. “A História explica” foi a resposta de Costa, e ficou no anedotário desta campanha. Mas não ficaria se Costa tivesse, de facto, explicado em poucos pontos a história que explica, de facto, por que razão países que chegaram muito mais tarde à União Europeia deram em poucos anos um salto maior do que Portugal. Este texto do economista Ricardo Paes Mamede sintetiza o essencial do que está em causa, e vale a pena lê-lo aqui. No essencial, estamos a falar i) do impacto dos primeiros anos de injeções massivas de fundos europeus nesses países (e neste ponto, o desempenho não foi diferente do de Portugal na mesma fase inicial de integração), mas sobretudo de ii) países com níveis de educação e qualificação de recursos humanos há muitos anos bastante superiores aos de Portugal; iii) com indústrias que estavam bem desenvolvidas e com perfis de exportação sofisticados desde antes da adesão; bem como de iv) países com grande proximidade geográfica ao motor económico da Europa (Alemanha) e a outras economias bastante avançadas. Outro economista, Luís Aguiar-Conraria, foi ao programa “É ou não é”, na RTP, e fez também uma pequena digressão histórica focada no atraso de Portugal na educação e qualificação humana, um dos pontos elencados por Paes Mamede (vale a pena ler a muita informação que Aguiar-Conraria tem partilhado no seu Twitter sobre este atraso secular e persistente). Esses países de Leste não nos ultrapassaram porque “políticas liberais”. A explicação é bastante mais complexa e, sim, a História explica. Mas não basta dizer isso - é preciso mesmo explicar a História.

 

Impostos. Apesar dos gatos, das piadas falhadas, dos insultos e das queixinhas, também se discutiu política a sério nesta campanha. Faltaram temas essenciais, é verdade - a educação esteve quase ausente, a bazuca europeia eclipsou-se, a guerra que ameaça a Europa não foi assunto, a inflação, a crise energética, a escassez de componentes e outras ameaças à economia global também não. Mas houve debate sobre o Estado Social, sobre SNS, sobre Segurança Social, sobre impostos. E ficaram bem claras as opções distintas. A fiscalidade foi um dos pontos em que as alternativas sobre a mesa ficaram mais claras. 

Desde a diferença entre os dois maiores partidos - PS a desagravar já impostos sobre as famílias, para continuar a aumentar o poder de compra; PSD a dar prioridade ao alívio dos impostos sobre as empresas - até à proposta de taxa única de IRS, que todos acabaram a discutir por proposta da Iniciativa Liberal. Os últimos dados da Comissão Europeia desmentiram a acusação de que Portugal tem a, ou uma das, cargas fiscais mais altas da UE. Pelo contrário, está até abaixo das médias europeias e o peso dos impostos até diminuiu. Mas essa clarificação pouco terá feito para contrariar uma ideia que se instalou e que os socialistas não foram capazes de combater.

 

Jerónimo. Uma vez, ganhou um debate em que ficou afónico. E nesta campanha, ganhará votos por ter ficado de baixa? A fragilidade do secretário-geral comunista já era notória nas últimas duas campanhas que protagonizou, nas autárquicas e nas legislativas de 2019, e desta vez a necessidade de uma cirurgia urgente afastou-o de quase toda a campanha. O seu regresso confirmou o enorme capital de simpatia de que dispõe, mas para o futuro do partido o que conta é o seu afastamento num momento crucial. Terá sido a sua última campanha como líder comunista. E dificilmente a escolha do sucessor fugirá à shortlist dos dois líderes interinos que o substituíram, João Oliveira e João Ferreira. Com Ferreira também obrigado a recolher às boxes, com covid, Oliveira deu muito boa conta do recado. Mostrou-se preparado, com espontaneidade qb, um sentido de humor fino e um registo terra a terra capaz de gerar empatia. Se for reeleito pelo círculo de Évora, onde é cabeça de lista, João Oliveira é um candidato muito sério à sucessão de Jerónimo. Mas este “se”, a julgar pelas sondagens, é um enorme “se”.

 

Liberdades. O liberalismo deixou a clandestinidade política em Portugal. Ou vivia clandestino no CDS, ou tinha uma assoalhada no PSD, ou simplesmente não saía de casa. Nesta campanha saiu com a bandeira da IL, e marcou muitos dos temas que estiveram em debate. À esquerda, também o Livre reclamou a bandeira das liberdades, e também lançou alguns dos temas mais disruptivos em discussão. 

 

Morte. Um dos maiores méritos políticos de Rui Rio é sua capacidade de baixar expectativas. São normalmente tão baixas que é quase impossível que não as supere. O empate técnico nas sondagens e, por vezes, até a vantagem do PSD, tornaram essa estratégia mais difícil - até porque, a certo ponto, é preciso saltar das expectativas baixas para a mobilização das tropas acenando com a hipótese de vitória. Mas foi interessante ver como esta semana, mal a tracking poll da CNN deu sinais de poder estar a virar contra o PSD, Rio voltou a baixar a fasquia. “O pior que pode acontecer é perder. Perder não é morrer”. Eis o mesmo desprendimento que Rio exibiu nestes anos todos - mesmo se, perante derrotas, e algumas pesadas, nunca se desprendeu na liderança do PSD. E neste momento sabe que a sua morte política está mais longe que nunca, qualquer que seja o resultado de domingo. Se ganhar, será primeiro-ministro; se perder continuará a liderar o PSD depois de ter disputado a vitória até ao fim. Apesar muitas notícias sobre a morte política de Rui Rio nos últimos anos, todas foram manifestamente exageradas. Tem sete vidas, como o seu gato.

 

Nazizinho. Numa campanha por vezes muito dura, saiu das hostes socialistas o insulto que fez ricochete. Numa ação de campanha do PS, a atleta Rosa Mota chamou “nazizinho” a Rui Rio, para lembrar o seu perfil autoritário quando liderava a câmara do Porto. É o tipo de disparate que só suja quem o profere e que permitiu a Rio, nesse caso coberto de razão, queixar-se do “baixo nível” do lado socialista. Mas, por estranho que pareça, também houve um insulto memorável pela positiva: “Um esquadrão de cavalaria à desfilada na sua cabeça não esbarra contra uma ideia”, disparou Chicão no frente-a-frente com Ventura. Foi um debate repleto de trocas de insultos pueris, mas este, que já tinha história (a frase original é do deputado do CDS Cunha Simões, em 1977), ficou para a pequena história desta campanha.

 

Ómicron. Diz que anda por aí e que infeta como nenhuma outra variante anterior da covid. Os números provam isso mesmo, todos os dias. Mas quem veja as imagens da campanha na rua julgará que a pandemia acabou. Conforme a luta aquece, mais a pandemia se esquece. Antes da campanha, os dois principais partidos prometiam contenção nas ações de rua. Mal foi dado o tiro de partida, o PSD esmagou a concorrência com um mar de gente em Barcelos a acotovelar-se para aclamar Rui Rio. A imagem impressionou e marcou um antes e um depois. A prova de força dada pelo PSD, e repetida depois em sucessivas localidades, apanhou o PS de surpresa e obrigou os socialistas a deixarem-se de cuidados. Esta semana, era ver Costa a ser levado em ombros. A Rua de Santa Catarina voltou a ser o que era, o palco para os dois maiores partidos medirem forças no Porto - com aparente vantagem para o PSD. Hoje, o Chiado será o último tira-teimas. Até PCP e BE mobilizaram a sua gente para mostrar força na rua. Não há distanciamento social que resista nem haverá autoridade política de quem quer que seja, se por alguma razão for necessário voltar a impor restrições no futuro. Acabou. Só que não. 

 

Processo-crime. Durou poucos dias o Rui Rio em versão riso-e-simpatia. Chegou com o aparente ascendente do PSD nas sondagens, e sumiu-se quando as sondagens voltaram a favorecer o PS. O candidato descontraído que também estava nisto pela brincadeira voltou rapidamente a ser o Rui Rio crispado e quezilento, ameaçando o PS com um processo-crime por causa de um vídeo em que fazia uma colagem das muitas vezes em que se declarou contra os aumentos do salário mínimo decididos nos últimos dois anos. Um padrão de comportamento que vem dos tempos da Câmara do Porto. Rio, sempre tão crítico da Justiça, é um cliente habitual do recurso aos tribunais para resolver disputas políticas ou de opinião. Como dizia em tempos um socialista com o rei na barriga, “habituem-se!”

 

Quarentena. Mais de meio milhão de eleitores estarão em isolamento no domingo por causa da covid e esse poderá ser o dado mais importante destas eleições. Porque pode determinar uma abstenção historicamente alta. Seja porque quem está em isolamento não vá votar (apesar de poder), seja porque a possibilidade de os infetados irem votar pode dissuadir outros eleitores de ir às urnas. Várias reportagens televisivas mostraram gente, sobretudo mais idosa, com receio de ir às urnas no domingo e poder cruzar-se com quem esteja contaminado. Se as caravanas partidárias não mostram medo nenhum, há, pelo contrário, um país que também tem muito medo. E, se esses forem sobretudo os mais velhos, como tudo indica, o tabuleiro eleitoral pode inclinar-se contra o PS. 

Sabe-se que a faixa etária acima dos 65 anos é aquela em que os socialistas têm um apoio mais firme, como volta a mostrar a sondagem publicada hoje pelo Expresso. Se esses falharem nas urnas, as hipóteses socialistas estarão condenadas. Última nota: qualquer que seja o resultado final das eleições, a dificuldade do PS em penetrar no eleitorado mais jovem (também patente na sondagem do Expresso) está a tornar-se um caso de estudo. Neste ponto, a comparação com o PSD é esmagadora para os socialistas.

 

Rejeição. Uma campanha eleitoral é uma tentativa de provocar no eleitorado a adesão a um dos lados. Mas também para conseguir a rejeição do outro. As últimas presidenciais norte-americanas foram o exemplo acabado disso: uma fatia significativa dos eleitores admitiu que estava a votar, não a favor do seu candidato, mas contra o adversário. No fim de semana passado, Paulo Portas comentava na TVI que esta seria “uma campanha mais centrada na rejeição do que na adesão”. Rui Rio parece ter sido o primeiro a perceber isso, apostando no esgotamento da geringonça, na saturação pandémica e no desgaste da imagem de António Costa. Não é por acaso que Rio sempre defendeu que as eleições não se ganham, perdem-se. Ainda ontem, fazia este apelo ao voto útil da direita: “Para aqueles que não querem que o dr. António Costa continue como primeiro-ministro, só há um voto que o pode conseguir: é no PSD.” Rejeição pura, com argumentos negativos. António Costa, depois de alguma errância tática, acabou também por apostar sobretudo nos argumentos para a rejeição de Rio. Colando-lhe a austeridade de Passos Coelho, imputando-lhe planos ocultos para o SNS e a Segurança Social, e alertando para os perigos de um entendimento com o Chega. A eficácia de um e outro mede-se no domingo. 

 

Sucessão. Apesar de António Costa ter partido para a campanha como o vencedor pré-anunciado, e de continuar com uma ligeira vantagem nas sondagens, é da sua sucessão que se fala. E já tem sucessor definido. Chama-se Pedro Nuno Santos, e é o futuro líder do PS, só não se sabe quando. Se Costa ganhar as eleições, terá de continuar à espera da sua vez; se Costa ficar em segundo, já disse que dará lugar ao próximo e Pedro Nuno será secretário-geral do PS nesta primavera. Também não se sabe se terá adversário, e quem poderá ser (aposto que terá, não aposto num nome). Mas isso é mais ou menos indiferente, tal a vantagem com que o ministro das Infraestruturas parte em relação a qualquer concorrência interna. No comício em que partilhou o palco com Costa, fez um discurso vincadamente ideológico, a separar águas, estendendo a mão às esquerdas e a malhar nas direitas. Convém-lhe ter um bom resultado por Aveiro, onde é cabeça de lista e onde a concorrência da direita é forte. Não será fácil. Pedro Nuno não precisa disso para ganhar umas diretas no Partido Socialista, mas convém-lhe demonstrar que, para além de bom orador, capaz de tocar nas cordas certas do coração da esquerda, consegue acrescentar valor ao resultado do partido.

No PSD, tudo é diferente. Rui Rio, que há dois meses teve de lutar para se manter na liderança do partido, deixou de ter concorrência interna. Se ganhar, está para ficar, se perder também, tendo em conta que disputou as eleições taco a taco. Nos últimos dias, os adversários e críticos internos foram quase todos ao beija-mão.

No PCP Jerónimo está de saída (ver letra J), no BE Catarina Martins também pode estar. As sondagens indicam um trambolhão semelhante ao que 2011, quando os bloquistas mudaram de liderança, substituindo Francisco Louçã pela dupla Catarina Martins/João Semedo. A bicefalia deu fraco resultado, mas Mariana Mortágua, segunda figura do partido, fez boa parte da campanha ao lado de Catarina, como quem faz o tirocínio para a liderança.

No CDS, Chicão já anunciou que será recandidato à liderança. Olhando para as perspetivas do partido, em acelerado processo de definhamento, é bem possível que ninguém se dê ao trabalho de o incomodar.

 

Tracking poll. A atualização diária das intenções de voto divulgada pela CNN Portugal e pela TVI foi um dos protagonistas da campanha. Identificou cedo a principal tendência que haveria de marcar estes dias - a descida do PS e a recuperação do PSD - e também a acesa luta pelo terceiro lugar, e os esbracejar dos partidos que tentam não ficar de fora do Parlamento. As sondagens valem o que valem, e esta vale sobretudo pelas dinâmicas que deteta. E foi o reconhecimento dessa dinâmica, favorável ao PSD e à direita, e adversa para o PS e a esquerda, que obrigou vários partidos a ajustar estratégias. Costa ganhou um banho de humildade, Rio ganhou ares de arrogância, e outros não ganharam para o susto.

 

Único. Em 2019, três partidos conseguiram entrar no Parlamento pela primeira vez, elegendo um único deputado: IL, Chega e Livre. Eleger o primeiro deputado é o mais difícil para um novo partido. A partir daí, passa a ter uma visibilidade antes inexistente e é uma questão de a saber aproveitar, como fez o PAN. O Livre desperdiçou essa oportunidade - Rui Tavares teve de recomeçar quase do zero, e quanto muito conseguirá ser eleito deputado único. IL e Chega terão seguramente grupos parlamentares. Que podem chegar à dezena de deputados. No sentido inverso, o PAN pode voltar a encolher. E, no CDS, a dúvida é se terá a menor representação parlamentar da sua história (se eleger apenas Francisco Rodrigues dos Santos) ou se passará a ser um ex-partido com representação parlamentar. Nesta perspetiva, ser deputado único talvez nem pareça assim tão mau a Chicão.

 

Vitimização. Faz parte de todas as campanhas aquele momento em que qualquer candidato afivela o facies de Menino da Lágrima e chora as injustiças de que é vítima. Venham dos adversários, da comunicação social, das sondagens, do “sistema” ou do mundo em geral. Rui Rio foi o que mais chorou, por causa da suposta “campanha negra” de que disse ser vítima, perpetrada pelo PS. António Costa não perdeu uma oportunidade para se queixar da “traição” que lhe foi imposta pelos antigos parceiros da geringonça, que lançaram o país numa crise política quando já vivíamos uma “crise sanitária” e “precisamos de dar a volta a isto”. Os antigos parceiros da geringonça, por seu lado, apresentaram-se como vítimas da arrogância e ganância eleitoral do PS. 

Inês Sousa Real disse-se vítima de uma “campanha de desinformação” promovida pelos interesses da CAP (e não se queixou, mas devia ter-se queixado do seu GPS, que a fez pensar que o Montijo ficava no “Interior” do país). A IL queixou-se de que os seus memes eram descontextualizados e apresentou-se como vítima de si própria, pois não escreveu nas 600 páginas do seu programa eleitoral tudo o que devia ter escrito (parece que se esqueceu de incluir umas deduções de IRS para deficientes). Ventura proclama-se vítima do “sistema” em geral e dos “bandidos” em particular e, à cautela, andou sempre cercado de seguranças apesar de não ter medo de nada. Francisco Rodrigues dos Santos foi vítima do politicamente correto, do marxismo cultural, da ideologia de género, e do uso de diminutivos por parte de Ventura, que o apelidou de ser “direita mariquinhas”.

 

Xenofobia. Saiu do armário e nunca foi tão presente numa campanha eleitoral em Portugal. O Chega disfarça-a mal; o Ergue-te assume-a. 

 

Zé Albino. Gatinhos são a receita que nunca falha para quem quer ter sucesso no Twitter. Rui Rio, o político com o dedo mais rápido do Twitter português, percebeu isso e fez do seu gato Zé Albino uma das estrelas da sua campanha. Lançou uma trend no Twitter, à qual se juntaram o gato Camões de Rui Tavares, a cadela Bala de Cotrim Figueiredo e a coelha Acácia de Ventura. E agora um momento de silêncio pelos nossos concidadãos chamados Zé Albino. Muita força nesta hora.

Novo Dia CNN

5 coisas que importam

Dê-nos 5 minutos, e iremos pô-lo a par das notícias que precisa de saber todas as manhãs.
Saiba mais

Partidos

Mais Partidos

Patrocinados