A politóloga Paula do Espírito Santo considera que a intenção de Montenegro ao antecipar as diretas do partido para maio é “responder às vozes indignadas” com Passos Coelho dentro do PSD e que o atual presidente do partido só sairá reforçado como líder social-democrata e como primeiro-ministro
Pedro Passos Coelho tem sido presença assídua nos meios de comunicação social nos últimos dias e não tem poupado críticas à atuação do Governo. Luís Montenegro reagiu e, esta quarta-feira, no Conselho Nacional do PSD anunciou a intenção de antecipar as eleições diretas e o congresso do partido, o que foi encarado pelos analistas políticos como uma espécie de desafio a Passos Coelho. O antigo primeiro-ministro já fez saber que não aceita o desafio e não se candidata às diretas internas que deverão ocorrer em maio.
“Não sou candidato a coisíssima nenhuma”, assegurou Passos Coelho, esta sexta-feira, aos jornalistas.
A politóloga Paula do Espírito Santo considera que, mesmo que decidisse avançar, Passos Coelho não teria grandes hipóteses de derrotar o atual primeiro-ministro no duelo pela liderança do PSD. “Seria difícil. É um caminho que passa por campanhas e alianças do ponto de vista local, concelhio, distrital, que se vão fazendo também com apoios interno e não creio que Passos Coelho tenha, neste momento, esses apoios. Além disso, Luís Montenegro é primeiro-ministro, está no poder e um partido não penaliza quem está no poder”, justifica.
“Passos tem um peso na reflexão. Não tem peso na decisão política. (…) Julgo que Passos Coelho é um livre pensador e Montenegro também terá essa noção. Passos Coelho é um player do ponto de vista mediático, porque quando ele fala a com social dá-lhe grande destaque. Mas não será, neste momento, uma figura com força política e com um peso relevante dentro do PSD”, acrescenta.
Para a especialista, um avanço de Passos Coelho neste momento poderia até ser “contraproducente”: “Estaria a queimar trunfos que lhe poderiam vir a ser úteis no futuro”.
Passos, o agitador
Paula do Espírito Santo considera ainda que Passos Coelho “está numa onda de agitar o espaço público”. Não tem “todos os elementos” necessários para reatar uma carreira política ao mais alto nível e, considera a politóloga, também não haverá “nenhum cargo público em disputa ao qual que ele teria interesse em candidatar-se”.
“Há ali alguma recetividade de Ventura e do Chega ao seu discurso. Mas só o Chega não chega”, resume Paula do Espírito Santo.
A especialista reforça que Passos “é uma figura polémica”, que pode “tornar incómoda a ação de Montenegro”, mas sem peso político neste momento para ter outras ambições que não essas.
“Passos Coelho vai fazer também o caminho que os políticos que saem de cena vão fazendo. Vão refletindo para saber se o seu verdadeiro desejo político é o regresso à vida política ativa. E tem de haver circunstâncias além da vontade do próprio de querer avançar, nomeadamente medir a temperatura ao partido do qual é originário. É sempre um caminho muito longo para reatar com uma parte do eleitorado e internamente conquistar um território que neste momento tem pouca afinidade com Passos Coelho”, considera ainda.
“Passos não tem apoiantes, não tem ainda base eleitoral ou política. Está a mexer num terreno bastante pantanoso neste momento”, resume Paula do Espírito Santo.
"Confronto surdo"
A analista política considera que a relação entre Passos Coelho e Luís Montenegro nos últimos dias é uma espécie de “confronto surdo” e que Passos provocou em Montenegro “alguma fricção que o obrigou a reagir”.
A antecipação das diretas por parte de Montenegro será um recado para dentro do PSD, no sentido de afirmar que é ele “quem dá as cartas no partido”. “Montenegro fê-lo para responder às vozes internas indignadas porque há um antigo primeiro-ministro do partido que está a criticar o Governo”, diz, acrescentando que “não será tanto um encostar Passos à parede, mas dizer internamente que, do lado do Governo, também há uma voz firme”.
Quanto às intenções de Passos Coelho com as críticas públicas que tem feito ao Governo são difíceis de adivinhar: “lá terá alguma intencionalidade nas suas intervenções, porque se nota que ele está zangado com o partido e não está identificado com o partido”.
Contudo, poderá sair-lhe o tiro pela culatra e, em vez de enfraquecer o papel de Montenegro, pode mesmo reforçá-lo. “Creio que, ainda que não seja o efeito que Passos quer, o que vai acabar por acontecer é que as suas intervenções acabam por unir mais o partido em torno de Luís Montenegro”, defende.
Sendo, de acordo com os estatutos do partido, de dois anos a duração de mandatos dos órgãos diretivos do PSD, as próximas eleições internas deveriam acontecer em setembro de 2026, já que Luís Montenegro foi reeleito nas diretas de setembro de 2024 (depois de um primeiro mandato que teve início a 28 de maio de 2022). Sem mencionar diretamente o nome de Pedro Passos Coelho, e perante as vozes internas críticas, Luís Montenegro anunciou a intenção de antecipar as eleições diretas já para maio. "Aqui ou acolá alguns tentam desvirtuar o caminho, mas nós no PSD não podemos ter dúvidas", justificou perante os conselheiros nacionais, na quarta-feira à noite.